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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Do lixo ao luxo — e de volta ao #tbt

 A Comlurb participou da Semana de Arte do Rio com o projeto “Eu Rio Muito — Do Lixo ao Luxo”, no qual 17 contêineres de alta capacidade e 50 papeleiras receberam intervenções de artistas contemporâneos. Parte dos equipamentos foi apresentada na Praça Tiradentes e nove contêineres chegaram à ArtRio 2026, na Marina da Glória. A proposta é simpática: aproximar arte urbana, limpeza pública e conscientização sobre o descarte de resíduos. A iniciativa ganhou ainda repercussão no RJTV, na TV Câmara e na Veja Rio. Até aí, tudo bem. O cuidado começa quando uma boa ideia antiga corre o risco de aparecer vestida como descoberta recente.


Em 2012 eu já registrava no Percolado o “Contêiner Parade”, projeto realizado em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no qual contêineres eram pintados como forma de reduzir vandalismo e estimular a preservação dos equipamentos. Mais importante ainda: em 2016, portanto no próprio Rio de Janeiro, houve a Lixeira Parade, promovida pelo movimento Rio Eu Amo Eu Cuido, com papeleiras da Comlurb pintadas por grafiteiros e instaladas em áreas de grande circulação justamente para chamar atenção para o descarte correto do lixo. A combinação entre arte, equipamento de limpeza urbana e educação ambiental não nasceu em 2026. Tem história — e parte dela está documentada na própria cidade.

Isso não diminui o mérito do projeto atual. Há bons artistas envolvidos, uma escala interessante e uma oportunidade real de transformar equipamentos normalmente invisíveis em elementos da paisagem urbana. A Veja Rio registrou inclusive a expectativa de que as intervenções formem um percurso a pé pela cidade e levantou uma questão bastante concreta: depois de milhares de papeleiras vandalizadas ou furtadas, será que transformá-las em arte produzirá também maior respeito pelos equipamentos? Essa é uma pergunta operacional mais interessante do que saber quem “inventou” a ideia. Se houver acompanhamento da conservação, vandalismo, percepção dos usuários e permanência das peças, a retomada pode produzir aprendizado novo.

É aí que entra a gestão #tbt. Recuperar uma prática anterior não é defeito. Muitas vezes é inteligência: boas ideias podem desaparecer por mudança de gestão, falta de continuidade ou simples esquecimento institucional. O problema aparece quando a memória é apagada e a repetição passa a ser apresentada como inovação. Uma organização madura deveria fazer o contrário: reconhecer o que já foi tentado, entender por que funcionou ou desapareceu e então melhorar a solução. #tbt não é voltar ao passado. É voltar sabendo que já estivemos lá.

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