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sexta-feira, 18 de julho de 2025

Usina de valorização de resíduos como ponto de lazer

O vídeo descreve uma usina de energia em Copenhague, na Dinamarca, que transforma lixo em energia e tem uma pista de esqui no telhado. É considerada a usina mais limpa do mundo, recebendo de 250 a 350 caminhões de resíduos por dia e fornecendo aquecimento e eletricidade para 90.000 pessoas . As emissões são tratadas para liberar apenas vapor.

A usina foi projetada por Bjarke Ingels e inclui um parque público no telhado com uma pista de esqui de material artificial, a parede de escalada artificial mais alta do mundo, e áreas para caminhada e corrida. A sustentabilidade é evidente com mais de 200 espécies de vegetação e uma fachada de alumínio reciclado e vidro. O objetivo arquitetônico foi transformar um local indesejável em um ponto de lazer para a cidade 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Reciclagem de resíduos chega a 8% no país com trabalho informal, aponta estudo

Folha SP

A reciclagem no Brasil atingiu 8% do total de resíduos sólidos urbanos com o trabalho de catadores informais, de acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos de 2024, lançado nesta semana.

O estudo elaborado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) reúne dados de 2023 e aponta que o Brasil produziu quase 81 milhões de toneladas de resíduos no ano passado, o que dá 382 quilos por brasileiro por ano.

Em 2022, o relatório calculou que o país reciclou 4% de seus resíduos a partir de dados da coleta seletiva dos municípios. Ao incluir dados dos materiais encaminhados pela indústria recicladora também por catadores autônomos, o Panorama 2024 chegou à taxa de 8,3%. Isso quer dizer que, em 2023, 6,7 milhões de toneladas de resíduos como plástico, vidro, metais e papelão foram enviados para a reciclagem no país.

Segundo o estudo, catadores informais de materiais recicláveis são responsáveis ⅔ dos resíduos que chegam à indústria recicladora enquanto a coleta seletiva dos municípios envia ⅓ desses materiais para reciclagem no Brasil.

Reciclagem Resíduos Trabalho Informal

“Isso demonstra que estamos ainda muito atrasados na coleta seletiva”, afirma Pedro Maranhão, presidente da Abrema. “Precisamos incentivar as prefeituras a criar e melhorar a coleta seletiva. Até porque, quando o município implanta esse serviço é porque deixou de desperdiçar resíduos no lixão.”

Segundo Maranhão, como os catadores informais focam na coleta daquilo que tem valor no mercado da reciclagem, o aproveitamento dos materiais selecionados por eles também é maior do que aquele que chega às unidades de triagem via coleta seletiva municipal. O estudo aponta que dos 4,2 milhões de toneladas de resíduos recicláveis coletados pelas prefeituras do país, 52,2% ou cerca de 2,2 milhões de toneladas são de fato aproveitadas para a reciclagem.

Para o presidente da Abrema, os dados evidenciam que a reciclagem tem muito o que avançar no Brasil. Contudo a Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia, mais de 55% dos resíduos são reciclados, segundo dados do Global Waste Management Outlook 2004, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Na América do Sul, apenas 6%. Na América Central e Caribe, 11%.

Segundo Carlos da Silva Filho, consultor da ONU e um dos autores do relatório do Pnuma, 32% dos resíduos sólidos urbanos no Brasil são a chamada “fração seca”, ou seja, os materiais potencialmente recicláveis. “Se 8% do total de resíduos estão sendo reciclados, isso significa que ¼ da fração seca está sendo coletada de maneira diferenciada e desviada do fluxo tradicional dos resíduos. Esse é um indicativo importante”, avalia.

De acordo com Maranhão, o atual regime de tributação do setor é um entrave importante. “É absurdo tributar material reciclado, que fica mais caro que o material virgem. Temos que zerar a tributação da reciclagem porque incentiva o setor e beneficia também os catadores.”

Lixões de um lado, produção de biometano de outro

O Panorama 2024 aponta que, no ano passado, 41% dos resíduos produzidos no Brasil, ou 28,7 milhões de toneladas, tiveram destinação final ambientalmente inadequada. Isso quer dizer que esses resíduos foram parar em lixões, valas, aterros irregulares, córregos e terrenos.

Erradicar os lixões do país foi a meta estabelecida pela legislação brasileira para o último dia 2 de agosto, data em que ainda existiam 1.572 lixões e quase 600 aterros controlados (aqueles sem proteção de solo e tratamento, considerados “lixões com cercas em volta”). Segundo o IBGE, 3 a cada 10 municípios do país ainda usam lixões.

“Estamos na época medieval neste aspecto, com danos para a saúde e para o meio ambiente”, afirma Maranhão. “Os prefeitos precisam entender que seu custo de saúde diminui quando ele encerra um lixão. E que, com lixão, ele perde recursos, perde na saúde, no meio ambiente e no tratamento de água, porque a decomposição dos resíduos permeia o solo e contamina lençóis freáticos.”

Em conclusão no sentido oposto deste atraso estão os aterros produtores de biometano, que capturam o metano emitido no processo de decomposição dos resíduos para a produção de biogás.

Em suma o país tem seis plantas deste tipo e sete outras aguardam aprovação, segundo o relatório.

“O futuro é o aproveitamento do metano para a produção de biogás, que faz de cada aterro ambientalmente correto um poço de petróleo de combustível renovável”, avalia. Segundo Maranhão, o “biometano vai substituir o gás da indústria, do transporte e até o gás de cozinha”. “Isso descarboniza a economia porque substitui combustível fóssil por outro renovável.”

Segundo o presidente da Abrema, o setor deve investir R$ 8 bilhões nos próximos cinco anos para que o país chegue a 60 plantas de produção de biometano.


quarta-feira, 3 de julho de 2024

Lixo urbano: as inovações que vêm da América Latina

Chile usa rastreio para otimizar a reciclagem e evitar o descarte ilegal. Uruguai tem leis contra detritos eletrônicos. Brasil inicia produção de energia limpa via resíduos. Equador e Peru desenvolvem apps com mapas interativos para conectar cidadãos às práticas de catadores

Por Juan Chiummiento, em O Eco


A destinação adequada dos resíduos sólidos representa um desafio urgente para a América Latina. Embora os serviços de coleta atendam a 85% das áreas urbanas da região — porcentagem acima da média global —, muitos países enfrentam dificuldades em seu manejo. Cerca de 45% dos resíduos acaba em locais impróprios, como lixões a céu aberto, que contaminam o solo, corpos d’água e até o ar.

A América Latina e o Caribe geram um total de 541 mil toneladas de resíduos diariamente, quase um quilo por habitante, segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma). Dados do Banco Mundial mostram que a região está entre as que menos produzem resíduos no mundo. Jordi Pon, coordenador regional do Pnuma para a América Latina e o Caribe, diz que o problema não é o volume, mas a gestão desses materiais.

O manejo inadequado dos resíduos traz problemas à saúde e ao meio ambiente, além de representar atrasos na adoção de economias circulares — sistemas que buscam minimizar o desperdício e maximizar o uso de recursos, reintegrando o resíduo aos ciclos produtivos.

Para enfrentar esse problema, são necessárias respostas abrangentes de governos nacionais e locais; e alguns deles de fato estão caminhando nessa direção. O Dialogue Earth analisou cinco projetos em países da região que buscam melhorar a gestão de resíduos e incentivar práticas mais sustentáveis.

Argentina: cooperativas de catadores

Nas últimas décadas, o ato de coletar papelão e outros materiais recicláveis para depois vendê-los ficou conhecido na Argentina como cartonear. Esses catadores de materiais recicláveis que circulam pelas ruas das grandes cidades, os cartoneros, tornaram-se mais comuns após a crise econômica argentina de 2001.

Catador recolhe papelão nas ruas de Buenos Aires, Argentina. Cooperativas de catadores hoje promovem boas práticas e fazem a intermediação com empresas de reciclagem. Imagem: Carol Smiljan / NurPhoto / Alamy.

A expansão da atividade levou à formação de várias organizações setoriais, incluindo a Federação Argentina de Catadores, Carroceiros e Recicladores (FACCyR). A entidade reúne cooperativas de todo o país que se organizam para melhorar as condições de trabalho e as práticas de reciclagem.

Uma dessas cooperativas associadas à FACCyR é a Dignidad Cartonera, criada em 2017 na cidade de Rosário e atualmente com mais de 150 membros ativos. A fundadora, Mónica Castro, ficou desempregada em 2001 e mobilizou vizinhos em situação parecida: “Decidimos criar nossa própria fonte de trabalho, que era sair às ruas e coletar papelão”.

Em 2019, a Dignidad Cartonera colaborou com a prefeitura de Rosário em um projeto-piloto para coletar resíduos domésticos e comerciais que poderiam ser reciclados. Se antigamente a cooperativa atuava na coleta de toda a cidade, o piloto criou um serviço porta a porta no bairro Industrial, na zona oeste da cidade. Assim, os catadores ensinam os moradores a separar corretamente os resíduos recicláveis.

O material coletado nas casas chega diariamente a um depósito administrado pela cooperativa, e daí é enviado a empresas de reciclagem. Trabalhando em parceria com outras cooperativas da FACCyR, a Dignidad Cartonera consegue acumular uma grande quantidade de material, garantindo maior poder de negociação e buscando uma remuneração mais justa pelo trabalho.

Os catadores esperam que seu trabalho ajude a promover mais ações coletivas. “Queremos inspirar outras pessoas a seguir nosso caminho, demonstrando que é possível criar um mundo mais justo e sustentável”, diz Juliana Muchiut, coordenadora da cooperativa.


Chile: blockchain para rastrear cargas de recicláveis

Nos últimos 70 anos, mais de 140 milhões de toneladas de plástico foram despejadas nos ecossistemas aquáticos ao redor do mundo, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. No Chile, o projeto Atando Cabos coleta resíduos plásticos da aquicultura, como redes de náilon e cordas de poliéster, transformando tudo isso em materiais reutilizáveis. A iniciativa usa a tecnologia blockchain para garantir a transparência e a eficiência de suas operações, aumentando a confiança de toda a cadeia de produção. 

O fundador do projeto, Michel Compagnon, é diretor comercial da Comberplast, empresa que usa plástico para moldar produtos. Ele diz que a ideia surgiu após uma viagem à Patagônia em 2016, onde se deparou com uma enorme quantidade de resíduos plásticos e linhas de pesca que poluíam os fiordes da região chilena. Como profissional do setor, ele logo entendeu que “aquilo não era lixo, mas matérias-primas valiosas que poderiam ser recicladas”.

Projeto Atando Cabos, no Chile, coleta resíduos plásticos, como redes de náilon, cordas de poliéster e pallets de plástico, transformando-os em novos itens. Imagem: Atando Cabos.

A equipe do Atando Cabos trabalha junto à população local, principalmente pescadores, que os ajudam a coletar esses resíduos plásticos no sul do Chile. As cargas são enviadas a uma fábrica na capital, Santiago. Lá, o plástico ganha uma nova vida, transformado em produtos como estrados ou caixas de frutas.

A tecnologia blockchain garante que os atores envolvidos na cadeia de valor acompanhem a jornada dos materiais e que os resíduos sejam tratados conforme os melhores padrões ambientais e de qualidade. 

Os dados registrados por meio dessa tecnologia são seguros e inalteráveis. E cada etapa — da coleta à produção de um novo material — é documentada em um livro-razão online, que pode ser acessado por meio de um QR code anexado ao produto. 

Compagnon diz ter sido incentivado a usar esse método para fornecer uma prova compreensível e acessível de que os produtos eram de fato feitos de material reciclado.

Em 2019, Atando Cabos ganhou um prêmio de iniciativas verdes na América Latina. Atualmente, o projeto ajuda na reciclagem de mais de 2,3 mil toneladas de resíduos anuais.


Brasil: lixo transformado em energia no Rio

Em uma grande cidade como o Rio de Janeiro, onde mais da metade dos resíduos gerados são orgânicos — via de regra, descartados em aterros sanitários em forma de rejeito —, a gestão sustentável de resíduos sólidos é vital.

Desde 2018, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb) mantém uma usina de processamento de resíduos orgânicos pioneira na América Latina. A instalação localizada no Caju, na zona norte, processa 12,5 toneladas de resíduos por dia, transformando-os em biogás e adubo.


Funcionários da Comlurb limpam as praias da cidade do Rio de Janeiro após o réveillon, em janeiro de 2023. Mais da metade dos resíduos gerados no Rio é considerado orgânico, e o serviço municipal de limpeza visa transformar parte disso em biogás e composto orgânico. Imagem: Jose Lucena / ZUMA Press / Alamy.

A usina de processamento é autossuficiente graças à geração de biogás e ainda produz adubo para uso no programa Hortas Cariocas, financiado pela ONU. O composto da Comlurb tem seu próprio nome — Fertilurb — e é apresentado como um “super adubo” devido ao seu alto nível de pureza, segundo a Comlurb.

O coordenador de projetos da Comlurb, Bernardo Ornelas, observa que a iniciativa foi o primeiro “programa de coleta seletiva de orgânicos” na cidade e foi lançada inicialmente em escolas municipais e supermercados.

Juntamente com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Comlurb está estudando formas de expandir a reciclagem de resíduos orgânicos no Rio de Janeiro para processar até 150 toneladas diárias. A previsão é de que isso ocorra nos próximos três anos.

Esse montante, no entanto, ainda não chega perto das 8,5 mil toneladas de resíduos destinados diariamente ao aterro sanitário de Seropédica, na região metropolitana do Rio. No aterro, parte do chorume líquido também é tratado para virar água de reuso. 


Uruguai: leis contra resíduos eletrônicos

O Uruguai tem a maior produção per capita de resíduos eletrônicos do Cone Sul, com uma média de 14,8 kg de materiais desse tipo descartados por habitante a cada ano, um recorde regional. Estudos do Ministério do Meio Ambiente do país atribuem esse alto descarte com o alto produto interno bruto per capita do país. 

A criação de uma legislação específica sobre a reciclagem de lixo eletrônico e aparelhos elétricos é fundamental, porque é um dos resíduos sólidos que mais cresce. A norma pode ajudar a monitorar a evolução dessa prática e a definir políticas eficazes para combater o descarte ilegal, promover a reciclagem e criar empregos no setor. Porém, até 2023, apenas cinco países da América Latina tinham regulamentações específicas.

Evento de reciclagem de eletrônicos organizado pelo Ministério do Meio Ambiente do Uruguai no Parque Rodó, em Montevidéu. O governo uruguaio quer regulamentar a gestão e o tratamento dos resíduos eletrônicos. Imagem: Ministério de Meio Ambiente do Uruguai.

Em junho de 2023, o Ministério do Meio Ambiente do Uruguai assinou um acordo com a prefeitura de Montevidéu e a cooperativa de reciclagem Volver a la Vida para expandir sua reciclagem de eletrônicos. O município fornece as instalações e faz a coleta dos resíduos, enquanto a cooperativa é responsável pelo reparo de produtos e pela recuperação de componentes ainda úteis. O projeto visa promover uma economia circular, bem como a inclusão social, empregando e treinando pessoas em condição de vulnerabilidade para atuar na cooperativa de reciclagem.

O governo uruguaio também trabalha na criação de uma regulamentação específica sobre a gestão e o tratamento desses equipamentos com base na Lei de Gestão Integrada de Resíduos, aprovada em 2019. 

A iniciativa da Volver a la Vida segue as diretrizes do Projeto Resíduos Eletrônicos da América Latina (Preal), que incentiva sua redução e o descarte adequado. O Preal defende aumentar a responsabilidade dos produtores de eletrônicos sobre o descarte adequado, disseram María José Crovetto e Gariné Guerguerian, consultores do Ministério do Meio Ambiente, órgão integrante do projeto. Isso poderia obrigar os fabricantes a financiar programas de coleta e reciclagem ou a criar produtos mais fáceis de reciclar, por exemplo.


Equador e Peru: aplicativo para recicladores

Melhorar a gestão de resíduos e promover a inclusão na reciclagem no Equador: esses foram os objetivos que levaram à criação do ReciVeci, aplicativo e plataforma que facilitam a colaboração entre cidadãos e catadores autônomos. Hoje, o app está disponível nas cidades de Quito, Cuenca, Guayaquil e, em 2023, começou sua expansão para o Peru.

“O ReciVeci nasceu da necessidade de resolver dois problemas: a geração de resíduos sólidos e a demanda dos catadores”, explicou Sofía Baque, coordenadora de parcerias da plataforma. 

Por meio de um mapa interativo, o aplicativo permite que os cidadãos localizem catadores para a coleta diretamente em suas residências. Isso permite que os usuários conheçam seus recicladores, “o que cria um vínculo que promove entregas regulares e uma relação de confiança mútua”, disse Baque.

O aplicativo ReciVeci, disponível nas cidades equatorianas de Quito, Cuenca e Guayaquil, permite que os cidadãos localizem catadores para a coleta diretamente em suas residências. Imagem: ReciVeci

O aplicativo, que começou como um projeto voluntário e coletivo, obteve um capital inicial de US$ 10 mil de investidores após vencer um desafio de empreendedorismo urbano em 2018. Esse financiamento permitiu o desenvolvimento de uma nova versão do aplicativo, “mais interativa e que nos permitiu nos consolidar como uma startup”, acrescentou Baque.

Além de conectar os catadores de materiais recicláveis com os cidadãos, os usuários do ReciVeci podem acumular pontos e trocá-los por prêmios, incentivando o público a reciclar ainda mais. O aplicativo também fornece métricas aos usuários, ajudando-os a medir e quantificar seu próprio impacto na gestão de resíduos. 

Segundo Baque, o app já ajudou a coletar 150 toneladas de resíduos e conta com dois mil catadores registrados. Já Lorena Gallardo, fundadora da iniciativa, disse recentemente ao podcast da Forbes Ecuador que eles recuperaram 200 toneladas de material reciclável e, com base em seus cálculos, evitaram a emissão de 300 toneladas de dióxido de carbono.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Do Lixo à Energia: Explorando a Tecnologia da Amager Bakke

A Amager Bakke, uma instalação revolucionária localizada na capital dinamarquesa, transforma resíduos não recicláveis em eletricidade e aquecimento urbano, atendendo às necessidades de residências e empresas.



1. Recebimento de Resíduos Combustíveis

A ARC recebe resíduos combustíveis de aproximadamente 600.000 cidadãos e 68.000 empresas, e fornece electricidade e aquecimento urbano à cidade. Aproximadamente 50% dos resíduos combustíveis que a Amager Bakke recebe dos municípios proprietários provêm de residências particulares. O resto é de empresas.

Amager Bakke aceita apenas resíduos que não podem ser reciclados. Isto é importante porque é muito melhor para o ambiente e para o clima reciclar coisas e materiais do que utilizá-los como energia.


Diariamente de 250-300 caminhões que transportam resíduos são pesados e registados. Cerca de 5% deles são selecionados para verificações aleatórias para garantir que os resíduos são adequados para incineração. Verificamos se os resíduos que transportam estão bem separados e não contêm nada que possa danificar a fábrica ou que seja tóxico.

2. Silo de Resíduos

Na sala de descarga, os resíduos são despejados diretamente em um silo de 30 x 50 metros e 36 metros de altura. O silo pode conter aproximadamente 22 mil toneladas de resíduos, o equivalente a três semanas de resíduos provenientes dos municípios proprietários da Amager Bakke. Duas garras automáticas misturam os resíduos até formar uma massa uniforme. A uniformidade é importante para que o processo de incineração seja o mais estável possível.

Depois que os resíduos são misturados, as garras os levam para as tremonhas de alimentação do incinerador. Cada garra pode suspender até 15 toneladas de resíduos. Para reduzir os odores desagradáveis dos resíduos, a área de carga é mantida a uma pressão inferior à pressão do ar ambiente. O ar extraído do salão é utilizado nos incineradores.

3. Incineradores

As duas plantas incineradoras idênticas da Amager Bakke têm, cada uma, capacidade de 25 a 42 toneladas de resíduos por hora. Quando os resíduos são colocados nas tremonhas de alimentação, eles caem em um poço. Forma aqui um tampão hermético, para manter a pressão negativa no incinerador. A parte inferior do incinerador é composta por 24 fileiras de placas de aço perfuradas. Cada fileira pode se mover, formando uma enorme esteira ondulada, chamada esteira de grelha. À medida que os resíduos avançam, eles se inflamam gradualmente. A queima dos resíduos no incinerador leva de 1,5 a 2 horas a uma temperatura de 950 a 1.100 °C. A temperatura é controlada soprando ar pelos orifícios das grelhas. Quando os resíduos chegam ao final da grelha, praticamente toda a energia foi libertada como fumo aquecido.

Para cada tonelada de resíduos, a Amager Bakke pode produzir 2,7 MWh de aquecimento urbano e 0,8 MWh de eletricidade

4. Escória e Cinzas 

Quando os resíduos são incinerados, 17-20% em peso permanecem como escória. A escória consiste em cinzas de resíduos, cascalho, areia, metais e outros materiais incombustíveis. A escória é coletada em um silo de escória separado e transportada para uma instalação de triagem. É virado e regado por 3-4 meses. Este processo é chamado de maturação. O objetivo é fazer com que as partículas de metais pesados se liguem às partículas de escória para que não possam ser removidas. Após a maturação, os metais são removidos para reciclagem. Para cada 200 kg de escória, podem ser extraídos 10-15 kg de metais, que podem ser reciclados. A escória é então peneirada e pode ser usada para preenchimento de projetos de construção.

As cinzas extraídas da fumaça pelos filtros da planta contêm altas concentrações de metais pesados e outros oligoelementos. Estas substâncias provêm de resíduos que não foram separados corretamente, por exemplo, baterias. Cinzas e outros subprodutos da purificação de fumaça são usados como substitutos da cal para neutralizar resíduos de outras indústrias. A mistura adquire uma dureza semelhante à do cimento e é utilizada para recriar a paisagem de uma pedreira de calcário abandonada.

5. Caldeiras

Amager Bakke possui duas caldeiras, cada uma delas composta por uma caixa com muitos tubos bem ajustados que transportam água sob alta pressão. Os incineradores são integrados às respectivas caldeiras, para que a fumaça quente do incinerador suba e transfira sua energia térmica diretamente para a água nas tubulações. Uma bomba mantém alta pressão nas tubulações, de forma que o vapor produzido tenha pressão de 69 bar e temperatura de 440 graus. Cada caldeira pode produzir até 137 toneladas de vapor por hora. O vapor de ambas as caldeiras é coletado em uma tubulação de vapor comum, chamada de trilho de vapor, e canalizado para a turbina a vapor. Para evitar que os incineradores e caldeiras se expandam ao aquecerem, eles não ficam no chão, mas são suspensos no teto por um berço de aço.

90% da energia dos resíduos é convertida em vapor de alta pressão.

6. Turbinas e Trocadores de Calor

Uma turbina a vapor consiste em uma série de pás impulsoras montadas em um eixo. À medida que o vapor se expande através dos impulsores, é gerada energia cinética e o eixo começa a girar. O eixo está conectado a um gerador, que converte a energia em eletricidade. A produção de eletricidade é de até 63 MW.

Depois que a turbina retira a pressão e o calor do vapor, a energia térmica ainda permanece. Essa energia é utilizada nos trocadores de aquecimento urbano. A água do aquecimento urbano é aquecida nos permutadores e depois bombeada para a rede de aquecimento urbano. Quando o calor da água é aproveitado pelos consumidores, a água é devolvida e aquecida novamente. A produção de aquecimento urbano é de até 247 MW.

Amager Bakke pode adaptar a produção de eletricidade e aquecimento urbano às necessidades dos consumidores. Se for necessária muita eletricidade, todo o vapor será alimentado pela turbina. Mas se for necessário muito aquecimento urbano, o vapor é desviado pela turbina e diretamente para os trocadores de calor. Os resíduos são um recurso, por isso a ARC adapta a produção às necessidades da cidade todos os dias, durante todo o ano. Se for necessária muita energia, a planta converte mais resíduos do que quando a demanda é baixa. Desta forma, a Amager Bakke apoia a energia renovável proveniente da energia eólica e solar.

7. Purificação dos Gases de Combustão

Depois que a fumaça passa pelas caldeiras e libera seu calor, ela deve ser purificada. Cada linha de incinerador possui um sistema separado de purificação de fumaça, que consiste em um filtro elétrico, um catalisador, três lavadores e um filtro de poeira. O sistema de purificação de fumaça da Amager Bakke é um dos melhores do mundo. Amager Bakke é também a primeira central de energia residual na Dinamarca a ser equipada com um catalisador para remover óxidos de azoto (NOx).


A maior parte da poeira e das cinzas da fumaça, o que chamamos de cinzas volantes, é removida pelo filtro elétrico. A fumaça passa então pelo catalisador, que remove o NOx. O primeiro purificador remove ácido clorídrico, mercúrio e outras substâncias indesejáveis, enquanto o segundo remove dióxido de enxofre com cal. O terceiro depurador é um 'depurador de condensação'. O vapor de água é condensado em gotículas de água aqui, para que as bombas de calor possam utilizar o calor residual da fumaça. O calor residual é enviado através de trocadores de calor para a rede de aquecimento urbano. No total, aproximadamente 20% da produção de aquecimento urbano provém das bombas de calor ligadas ao sistema de purificação de fumos. A última etapa de purificação é um filtro de poeira úmido, que remove os últimos restos de poeira da fumaça.

Antes que a fumaça purificada chegue à chaminé, ela passa por uma estação de medição, que registra constantemente o teor de poluentes. Isto significa que a ARC pode garantir que todos os requisitos ambientais sejam cumpridos.

8. Tratamento de Água

Os resíduos contêm muita água, gerando muito vapor d'água na incineração. A maior parte da água é coletada pelo sistema de purificação de fumaça. Em plena carga, nos dois incineradores, são produzidos até 13 m3 de águas residuais por hora. As águas residuais começam com um valor de pH entre 0,5 e 2,5 e são purificadas e neutralizadas em quatro etapas:

Primeiramente, são adicionadas cal e soda cáustica, que neutralizam as águas residuais a um valor de pH entre 7 e 8. Na etapa seguinte, as partículas da água depositam-se como lodo em grandes tanques. O lodo úmido é encaminhado para um filtro-prensa, onde a maior parte da água é espremida. O lodo é coletado em um recipiente e despejado junto com as cinzas volantes. Na terceira etapa, a água passa por filtros de areia e removedores de amônia. As partículas menores que não haviam assentado anteriormente são então filtradas. O excesso de amônia nos decapantes de amônia é reciclado para limpeza de chaminés. A última etapa de limpeza consiste em filtros de carbono e troca iônica. Estes removem os últimos restos de materiais orgânicos e metais.

9. Monitoramento

Toda a usina funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, e o processo é monitorado 24 horas por dia – desde a pesagem até o tratamento da água. Um Sistema de Controle, Regulação e Monitoramento, com aproximadamente 10 mil pontos de alarme e sistemas visuais, permite que os colaboradores da sala de controle acompanhem todo o processo.

Amager Bakke possui 850 bombas, sopradores e compressores, 1.800 válvulas e 3.300 instrumentos de medição.

A Amager Bakke representa um marco na gestão de resíduos e na produção de energia, demonstrando como a tecnologia moderna pode transformar desafios ambientais em soluções sustentáveis.

terça-feira, 2 de março de 2021

Usina de geração de energia e de combustíveis a partir do lixo será instalada em São João de Meriti/RJ

Portal Saneamento Básico

Unidade de Recuperação Energética Fluminense vai gerar 10 MW de energia elétrica e 40 mil litros de combustível biossintético com o tratamento de 400 toneladas por dia de resíduos.

 O município de São João de Meriti, no Rio de Janeiro, vai receber uma das primeiras Unidades de Recuperação Energética (UREs) do Brasil: a URE Fluminense. Com todas as licenças para instalação já emitidas pelos órgãos competentes, a planta tem a capacidade de beneficiar até 1,2 mil toneladas diárias de resíduos sólidos urbanos para gerar energia elétrica e produzir combustíveis biossintéticos – o trabalho começa com 400 toneladas diárias geradas pela população da cidade. A previsão é que as obras se iniciem nos próximos 30 dias e sejam concluídas em 2023. O projeto é uma parceria da URE Fluminense com a Mais Verde, concessionária de limpeza urbana de Meriti, em um contrato que conta com investidores externos e garante um financiamento de R$ 85 milhões em dois anos.

A URE Fluminense será construída na Estação de Transferência de Resíduos (ETR) da Mais Verde, no bairro Venda Velha. Para a obra começar, toda a área ao redor da ETR será descontaminada, eliminando qualquer passivo ambiental. Na usina, o lixo passará por inovadores tratamentos físicos e químicos para ser transformado em energia e combustíveis. A unidade tem potencial de ser uma solução para a gestão de resíduos da Baixada Fluminense e de toda a Região Metropolitana, já que tem capacidade de atender a outros municípios.

“A tecnologia waste-to-energy oferece uma solução definitiva para o lixo gerado em São João de Meriti, um dos municípios mais densos do Brasil, e vai transformá-lo em um modelo de solução técnica e ambiental na gestão dos resíduos. Queremos mudar a forma como toda a metrópole lida com a produção de lixo. A URE Fluminense será uma solução para uma região historicamente impactada por resíduos, marcada por feridas como a do Lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, onde montanhas de lixo eram jogadas a céu aberto. Chegamos, enfim, ao futuro.”explica o diretor da Mais Verde, Mário Carvalho.

A partir do beneficiamento de 400 toneladas diárias de lixo, a URE tem a capacidade de gerar 10 MW de energia elétrica, o suficiente para abastecer um bairro de 50 mil habitantes. Do total, 8 MW são exportáveis. Para gerar energia, a planta conta com a produção do CDR (combustível derivado de resíduos), que tem grande valor para queima em fornos industriais. Materiais como madeira, papel, papelão, tecido têxtil, couro e derivados de borracha serão separados e levados para trituração e granulação, resultando na produção do substrato.


ETR Mais Verde

O CDR será encaminhado, então, para o fracionamento molecular, onde a energia é convertida por meio de reações termoquímicas. Em seguida, em um processo chamado de gaseificação hermética, haverá a geração de um gás síntese que, após purificado, será encaminhado para a ignição térmica em turbinas do tipo Brayton e Ciclo Rankine Orgânico. Gera-se, assim, a energia elétrica.

Além disso, com 400 toneladas de lixo, a planta também vai gerar 40 mil litros de combustível biossintético, equivalente ao óleo diesel S-10, para abastecer os veículos da própria empresa, para abastecer parte da frota da Prefeitura e para venda. As matérias-primas utilizadas são resíduos de derivados de plástico, como sacolas plásticas e embalagens de biscoitos. Elas passarão por um processo chamado “fracionamento catalítico”, para a produção de líquidos por meio da curta exposição a temperaturas moderadas. A água ácida resultante do processo será transformada em água purificada, para reuso, em uma unidade de tratamento dentro da própria usina.

Após a triagem dos resíduos que chegam na unidade e o beneficiamento dos materiais apropriados para cada fim, os processos da URE resultam em 80% do total de resíduos tratados e beneficiados, 15% que seguem para descarte e tratamento no aterro sanitário, e 5% de cinzas decorrentes da gaseificação, que terão descarte apropriado.



A implantação da URE ajuda a reduzir custos com transporte, tratamento e disposição final adequada dos resíduos, além de gerar investimentos, empregos e renda em São João de Meriti. Trata-se de uma solução simultaneamente energética, ambiental e sanitária, que abre caminho para novas referências de gestão do lixo capazes de favorecer cada vez mais a proteção do meio ambiente e o bem-estar da comunidade.

Para o diretor geral da URE Fluminense, Ecles Luiz dos Santos, o projeto é importante para o sucesso de uma nova matriz energética no país:

“A URE é uma inovação diante do aumento da quantidade de resíduos resultantes do crescimento da população e da atividade humana. Além de dar uma destinação correta aos resíduos, esse tipo de complexo industrial elimina a necessidade de termos novas áreas para a implantação de aterros sanitários, reduzindo ainda mais um impacto ambiental que já é contido nos aterros. Isso consome muitos investimentos por parte das concessionárias de tratamento e destinação. Queremos criar uma nova mentalidade a partir de produtos que terão um valor diferenciado: não financeiro, mas um valor de qualidade de vida.”