No KISC, a separação dos resíduos não termina no papel, no vidro ou nos metais. Os hóspedes recebem orientação para separar também os restos de alimentos, que seguem um fluxo próprio no sistema de reciclagem do centro. O próprio KISC informa que os grupos acampados recebem um kit para separar lixo comum, plásticos, papel, garrafas e food waste antes de levar tudo ao centro de reciclagem.
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| Containers para material orgânico |
Essa separação tem uma razão que vai além da limpeza. Resíduo orgânico separado corretamente deixa de ser apenas algo a ser eliminado e pode voltar ao sistema como recurso.
Na região existe, por exemplo, a Biogasanlage Frutigland, em Frutigen, que recebe resíduos alimentares de estabelecimentos gastronômicos e instituições do Kandertal e os trata por digestão anaeróbia. O processo produz biogás, utilizado para gerar eletricidade e calor; uma parte é ainda purificada e transformada em combustível. A própria instalação informa que procura trabalhar majoritariamente com materiais da região para reduzir as distâncias de transporte.
Não encontrei, entretanto, documentação pública suficiente para afirmar que o resíduo alimentar específico do KISC seja destinado a essa instalação. O que pude confirmar é a separação do food waste no centro e a existência desse fluxo regional de valorização para resíduos da gastronomia. É uma distinção importante entre aquilo que observei e aquilo que consigo documentar.
Há ainda outro fluxo orgânico na região. Os resíduos verdes recebidos pela AVAG seguem para o Biomassezentrum Spiez, onde são submetidos à fermentação para produção de energia e, depois, utilizados na produção de composto de qualidade.
É justamente nesse ponto que aparece uma característica que me interessou particularmente: resíduo orgânico só tem valor quando continua sendo resíduo orgânico.
Plástico, vidro, metal ou outros materiais misturados à fração comprometem o processo. A AVAG é bastante explícita sobre isso. Sacos plásticos, inclusive alguns vendidos como compostáveis, podem permanecer depois do processo e acabar no composto e, posteriormente, no solo. Por essa razão, a empresa recomenda que nem mesmo esses sacos sejam utilizados na coleta de resíduos verdes.
A contaminação também tem consequência econômica. Nas condições de recebimento da AVAG, uma carga de material verde contaminada pode deixar de ser aceita como Grüngut e passar a ser cobrada pela tarifa de lixo comum e resíduos volumosos.
Esse detalhe diz muito sobre o sistema.
No texto anterior, mostrei como separar recicláveis antes de entregá-los transfere parte da responsabilidade para quem gera o resíduo. Com os orgânicos, a exigência vai um pouco além: não basta colocar alguma coisa no recipiente certo. É preciso preservar a qualidade daquela fração.
Uma casca de legume pode ser matéria-prima para outro processo. A mesma casca misturada a plástico, embalagem ou objeto inadequado passa a carregar um problema junto com ela.
Durante muitos anos de trabalho com resíduos, vi a coleta seletiva ser tratada como uma decisão binária: separar ou não separar. Kandersteg me lembrou de uma etapa seguinte.
É possível separar mal.
E separar mal pode significar perder justamente o valor que justificava a separação.
A economia circular depende de tecnologia, instalações e mercado para os materiais recuperados. Mas começa antes de tudo isso, num gesto muito menos sofisticado: não contaminar aquilo que ainda pode ser aproveitado.
No caso dos orgânicos, a lição é particularmente clara.
Não basta separar. É preciso separar direito.

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