Durante os dias em que trabalhei no KISC, havia um veículo que aparecia em quase todo lugar.
André usava muito aquele pequeno utilitário elétrico. Servia para circular pelo centro, transportar ferramentas e materiais, puxar reboques, movimentar contêineres e atender pequenas demandas espalhadas por uma área relativamente grande.
Não era o equipamento mais impressionante do KISC. Talvez por isso tenha me interessado tanto.
Pelas identificações visíveis e pelas características do veículo, trata-se de um CFMOTO U6 EV, um UTV elétrico — Utility Task Vehicle, literalmente um veículo utilitário para tarefas. A definição é melhor do que parece: ele não foi concebido essencialmente para transportar pessoas de um lugar para outro. Foi feito para trabalhar.
O fabricante informa motor elétrico de 35 kW, torque máximo de 74 Nm, tração selecionável 2x4/4x4, caçamba com capacidade para 250 kg e capacidade de reboque declarada de até 800 kg. A bateria de 15,29 kWh permite, nas condições de ensaio informadas pela empresa, autonomia de até 110 km.
Mas esses números explicam menos o equipamento do que vê-lo trabalhando.
Num momento, estava levando pessoas e ferramentas. Em outro, puxava um pequeno reboque com um contentor. Em outra tarefa, apareceu com uma carreta maior transportando um recipiente metálico do KISC.
Foi aí que percebi a qualidade que mais me interessava: versatilidade.
Em operações de manutenção, limpeza ou infraestrutura, há uma infinidade de deslocamentos que não justificam um caminhão e são pesados demais para serem feitos manualmente. Uma ferramenta precisa ir para outro ponto. Um contentor precisa ser deslocado. Material precisa chegar a uma equipe. Alguma coisa quebrou do outro lado da propriedade.
Individualmente, são pequenas tarefas.
Somadas, consomem uma parte importante do dia.
O pequeno utilitário ocupa justamente esse espaço entre o carrinho de mão e o veículo de maior porte.
Para quem trabalhou muitos anos com serviços urbanos, a questão não é trivial. Existe uma tendência natural de olhar para os equipamentos maiores: caminhões, máquinas, compactadores. São eles que aparecem nas planilhas de investimentos e nas fotografias institucionais.
Mas uma operação pode perder muito mais tempo nos pequenos deslocamentos do que imaginamos.
O equipamento adequado não é necessariamente o maior. É aquele que reduz esforço e tempo sem levar capacidade ociosa junto.
O fato de ser elétrico acrescenta algumas vantagens particularmente adequadas ao KISC. O veículo opera sem emissões pelo escapamento e com menos ruído e vibração que um equivalente a combustão — características interessantes num centro de atividades ao ar livre onde trabalho, hospedagem e convivência acontecem praticamente no mesmo espaço. A própria CFMOTO cita manutenção de áreas, hotelaria e gestão de locais turísticos entre as aplicações previstas para o modelo.
Eu evitaria, entretanto, transformar isso num elogio genérico à eletrificação.
A pergunta operacional vem antes da tecnologia.
Qual é a distância percorrida? Quanto precisa carregar? Quanto precisa rebocar? Há disponibilidade para recarga? Quantas horas trabalha por dia? Qual equipamento ele substitui?
Se as respostas forem favoráveis, o elétrico passa a fazer sentido não porque é moderno, mas porque é adequado.
Essa distinção me parece importante.
Passei boa parte da vida profissional vendo equipamentos serem escolhidos pelas suas características técnicas. Potência, capacidade, velocidade, autonomia. Tudo isso importa. Mas o equipamento só mostra seu valor quando encontramos o lugar certo para ele dentro do processo.
Em Kandersteg, aquele pequeno UTV tinha encontrado o seu.
Não fazia uma única grande tarefa.
Fazia dezenas de pequenas tarefas que permitiam que as grandes acontecessem.
Talvez seja uma boa definição de apoio operacional.
O equipamento que quase nunca é protagonista, mas cuja ausência todo mundo percebe.



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