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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A fotonovela voltou — agora com inteligência artificial

 A campanha “Atenção é Proteção” estreou uma série de quadrinhos produzidos com inteligência artificial para tratar de temas operacionais, começando pelos cuidados no trabalho com caminhão satélite. A orientação de segurança é válida, mas o que me chamou atenção foi outra coisa: já vi esse filme — ou melhor, essa fotonovela. Em 2026, personagens digitais conversam diante de um caminhão também digital. Em 2009, fazíamos praticamente a mesma coisa com câmera fotográfica, garis de verdade e bastante trabalho de campo. É um bom exemplo do que tenho chamado de gestão #tbt: uma prática antiga retorna, adaptada às ferramentas e à linguagem do seu tempo.


Naquele período, a campanha Cidade Limpa surgiu para transmitir conceitos operacionais de maneira simples e direta. A ideia inicial era produzir histórias em quadrinhos, mas acabou evoluindo para fotonovelas. Os personagens eram os próprios garis, fotografados em situações de trabalho e depois inseridos numa narrativa diagramada. Fizemos peças sobre capina com enxada, uso do reco-reco, acabamento de áreas gramadas, trabalho debaixo de chuva e até o “lixo escondido” que uma varrição apenas aparente deixava para trás. O Percolado registrou em 2009 que os trabalhadores utilizados nas fotonovelas eram os mesmos indicados pelas gerências como garis-padrão; em 2011, a linguagem ainda aparecia em novas peças. 

A diferença tecnológica é enorme. Para produzir aquelas peças era necessário imaginar o roteiro, encontrar o local adequado, reunir os trabalhadores, fotografar as cenas, escolher as imagens e diagramar a história. Hoje, ferramentas de inteligência artificial permitem criar personagens, cenários e sequências inteiras com muito menos logística. Presumo que seja incomparavelmente mais fácil produzir uma série e atualizá-la conforme surgem novos assuntos. Há, entretanto, uma pequena troca nessa modernização. A imagem artificial ganha velocidade e flexibilidade; a velha fotonovela carregava a imperfeição — e também a autenticidade — do trabalhador real ensinando outro trabalhador. Nas peças antigas, o gari não era apenas público-alvo da comunicação. Também era personagem dela.

É justamente por isso que gestão #tbt não precisa ser uma crítica. Retomar uma solução antiga pode ser sinal de inteligência institucional quando se preserva aquilo que funcionava e se aproveitam recursos que antes não existiam. O problema começa quando o passado volta apenas com embalagem nova e sem memória de que já esteve ali. Neste caso, vejo uma continuidade interessante: dezessete anos depois, a organização continua descobrindo que uma mensagem operacional pode chegar melhor ao trabalhador quando deixa por alguns minutos a linguagem dos manuais e conta uma pequena história. A tecnologia mudou bastante. A necessidade de comunicar de forma simples, nem tanto.







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