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domingo, 20 de setembro de 2026

O que faz alguém escolher estar ali?

 Talvez uma das perguntas mais interessantes que me acompanharam em Kandersteg tenha surgido justamente das tarefas mais comuns. Enquanto via jovens limpando instalações, trabalhando na cozinha, transportando materiais, atendendo visitantes ou conduzindo atividades, eu me perguntava: o que faz alguém atravessar um continente para passar alguns meses trabalhando como voluntário num lugar como aquele?

A resposta mais fácil seria o escotismo. E ele certamente é parte importante dela. Quase todos os participantes da pequena sondagem que realizei tinham longa experiência escoteira antes de chegar ao KISC. Mas, quando perguntei por que haviam decidido ir para lá, as respostas mostraram um quadro mais amplo. Apareceram o desejo de conhecer pessoas e culturas diferentes, contribuir para o escotismo ou para uma causa na qual acreditavam, viver uma aventura, enfrentar um desafio pessoal, desenvolver-se e, para alguns, retornar a um lugar com o qual já tinham criado vínculo.



O próprio KISC apresenta a experiência de Short Term Staff dessa maneira. São escoteiros e guias que deixam seus países para trabalhar durante uma temporada de aproximadamente três meses, passando por diferentes áreas do centro. A instituição fala explicitamente em crescimento, aprendizado, diversão e imersão no escotismo internacional.

O interessante é que essas motivações não parecem competir entre si. Alguém pode querer servir ao movimento escoteiro e, ao mesmo tempo, conhecer outros países. Pode buscar desenvolvimento pessoal e também aventura. Pode querer aprender novas habilidades e encontrar uma comunidade. O voluntariado ali não precisa resultar de uma razão única e elevada. As razões humanas normalmente são mais misturadas — e provavelmente mais sinceras — do que isso.



Essa percepção ficou ainda mais clara nas respostas abertas. Quando pedi que explicassem a um observador externo por que o KISC funciona, apareceram repetidamente palavras e ideias como comunidade, conexão, propósito, aventura, responsabilidade, dedicação e vontade de estar ali. Uma resposta resumiu o sentimento dizendo que as pessoas não chegam simplesmente para trabalhar; tornam-se parte de algo que ultrapassa a função que exercem. Outra destacou algo ainda mais elementar: quem está ali quer estar ali.

Essa última ideia me parece especialmente importante.

Em grande parte das organizações, a presença das pessoas começa por uma relação objetiva: existe um emprego, uma remuneração e uma obrigação contratual. Isso não elimina compromisso, vocação ou identificação, mas estabelece o ponto de partida. No KISC, a lógica é diferente. Para boa parte dos voluntários, primeiro existe a decisão de viver aquela experiência; o trabalho vem dentro dela.

Isso não transforma todas as tarefas em diversão. Pelo que observei e pelas próprias respostas que recebi, há trabalho cansativo, repetitivo e pouco atraente. A motivação não elimina o peso da operação. Talvez apenas ajude a explicar por que esse peso é aceito dentro de uma experiência que também oferece convivência internacional, aprendizado, aventura e pertencimento.




Ao longo da vida profissional, ouvi muitas vezes organizações discutirem como “motivar as pessoas”. Kandersteg sugere uma pergunta anterior, talvez mais útil: o que faz uma pessoa querer entrar e permanecer numa determinada experiência?

Não encontrei uma resposta única.

Encontrei várias: servir, aprender, conhecer o mundo, testar-se, divertir-se, pertencer, reencontrar amigos, viver o escotismo de outra maneira.

Talvez a força esteja justamente nessa combinação. O KISC oferece trabalho, mas não apenas trabalho. Oferece uma experiência na qual diferentes motivações conseguem encontrar algum lugar.

E, para compreender por que tantos jovens escolhem estar ali, talvez seja preciso começar por isso: eles não procuram todos a mesma coisa, mas encontram razões suficientes para querer fazer parte.

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