Foi essa a pergunta que levei comigo para Kandersteg: como uma organização formada em grande parte por jovens voluntários de diferentes países, com elevada renovação de pessoas, consegue transformar valores compartilhados em trabalho cotidiano e manter uma operação funcionando? Ela orientou minhas observações, as conversas que tive e a pequena sondagem com quinze voluntários. KISC Through an Outsider’s Eyes…
Depois de trabalhar alguns dias como helper, minha resposta é menos simples do que eu imaginava. O KISC não funciona porque encontrou um mecanismo extraordinário de gestão. Funciona porque conseguiu combinar vários mecanismos bastante conhecidos de uma maneira coerente. Propósito, seleção, procedimentos, aprendizagem prática, liderança próxima, comunicação frequente e transmissão de conhecimento se apoiam mutuamente. Quando um deles falha, os outros ajudam a sustentar a operação.

Tudo começa antes mesmo de a pessoa executar a primeira tarefa. Quem vai trabalhar no KISC não chega por acaso. Há uma afinidade anterior com o escotismo e, na maior parte dos casos que observei, uma decisão deliberada de viver aquela experiência. Nas respostas que recebi, apareceram vontade de servir ao movimento, conhecer pessoas e culturas, enfrentar desafios, aprender, viver uma aventura e fazer parte daquela comunidade. Quando perguntei por que o KISC funciona, as respostas voltaram repetidamente a uma ideia muito elementar: as pessoas querem que funcione. Falaram em missão comum, responsabilidade, dedicação, tradição e orgulho de continuar algo construído por gerações anteriores. KISC Through an Outsider’s Eyes…
Mas vontade não organiza uma operação.
Esse talvez tenha sido um dos pontos mais importantes da experiência. O KISC não aposta apenas no entusiasmo dos voluntários. O propósito é cercado por estrutura.
A rotina do trabalho é marcada por encontros frequentes. Pela manhã há briefing geral e depois as equipes se reúnem por área. Antes do almoço, voltam para informar o que foi concluído, o que ficou pendente e os problemas encontrados. À tarde ocorre nova distribuição de tarefas e, no final do dia, o debriefing. São momentos curtos que mantêm a informação circulando e permitem correções sem transformar a supervisão em vigilância permanente. Relato de Experiência no Kander…
Ao mesmo tempo, há procedimentos por toda parte. Check-in, reciclagem, equipamentos, barracas, horários e rotinas possuem instruções visíveis. Num ambiente em que pessoas de países diferentes chegam com referências diferentes e parte da equipe será substituída poucos meses depois, o procedimento cria uma base comum. Ele reduz a quantidade de coisas que precisam ser reinventadas cada vez que alguém novo chega. Relato de Experiência no Kander…
Ainda assim, os documentos não explicam sozinhos como as pessoas aprendem. Na sondagem, aprender fazendo foi a resposta que apareceu com maior força quando perguntei como os voluntários haviam aprendido “como as coisas são feitas aqui”. Vieram depois a orientação das lideranças e o contato com pessoas mais experientes. KISC Through an Outsider’s Eyes…
Isso cria uma espécie de corrente de transmissão. Quem chegou antes ensina quem chegou depois. Quem sai faz o handover. O staff de permanência mais longa atravessa as diferentes temporadas. Os procedimentos registram uma parte da experiência. E o restante circula durante o próprio trabalho. Quando perguntei o que evitava que o conhecimento desaparecesse com a rotatividade, justamente esses mecanismos apareceram com maior frequência: voluntários experientes ensinando os novos, passagem de informações entre equipes, continuidade dada por quem fica mais tempo e procedimentos escritos. KISC Through an Outsider’s Eyes…
O mais interessante, porém, talvez seja aquilo que acontece quando chega o trabalho pouco atraente.
Qualquer organização consegue parecer orientada por valores durante uma cerimônia. A dificuldade é manter esses valores quando alguém precisa limpar, carregar, arrumar ou repetir uma tarefa pela terceira vez.
Foi nesse ponto que a cultura ficou mais visível para mim.
Quando perguntei o que leva as pessoas a realizar trabalhos difíceis, repetitivos ou desagradáveis, a responsabilidade perante a equipe apareceu mais do que a supervisão do chefe. Senso de serviço, ajuda entre colegas e a própria dimensão social do trabalho também tiveram forte presença. A simples atribuição da tarefa por uma liderança apareceu muito pouco. KISC Through an Outsider’s Eyes…
Ou seja, o valor deixa de ser abstrato quando a pessoa entende que sua tarefa interfere no trabalho dos demais.
Serviço deixa de ser uma palavra quando alguém faz o que precisa ser feito mesmo sem glamour. Cooperação aparece quando se divide o trabalho. Responsabilidade aparece quando a pessoa retorna e informa que cumpriu — ou que não conseguiu cumprir — aquilo que assumiu.
A liderança participa desse sistema, mas também de uma maneira menos hierárquica do que eu esperava. Na sondagem, escutar e tratar bem as pessoas e liderar pelo exemplo apareceram muito mais como fontes de respeito do que a posição formal de autoridade. KISC Through an Outsider’s Eyes… O cargo continua definindo responsabilidades, mas a legitimidade cotidiana parece depender da proximidade, do comportamento e da disposição de trabalhar junto.
Há ainda a questão multicultural. Pessoas de línguas e costumes diferentes não passam automaticamente a trabalhar bem juntas apenas porque compartilham o escotismo. Nas respostas abertas surgiram comunicação clara, respeito, disposição para ouvir, adaptação da linguagem, confiança e objetivos comuns. Um respondente descreveu inclusive a necessidade de simplificar palavras ou recorrer a gestos quando o inglês de alguém não era suficiente. KISC Through an Outsider’s Eyes…
O que o KISC parece ter criado, portanto, é um terreno comum. Não apaga diferenças; dá a elas algumas referências compartilhadas: idioma de trabalho, valores escoteiros, regras, procedimentos, rituais e uma missão reconhecível.
Nada disso torna a organização imune aos problemas que existem em qualquer lugar. Os próprios voluntários falaram em excesso de processos, rigidez, cansaço, conflitos interpessoais, treinamento insuficiente em algumas situações e dificuldade para implementar mudanças durante permanências curtas. KISC Through an Outsider’s Eyes… Isso é importante porque impede uma conclusão cômoda segundo a qual “propósito resolve tudo”. Não resolve.
Talvez a resposta à pergunta que levei para Kandersteg esteja justamente nessa combinação.
O KISC começa com pessoas predispostas a compartilhar determinada experiência, mas não depende apenas de sua boa vontade. Transforma valores em rotinas, rotinas em procedimentos, procedimentos em aprendizagem prática e aprendizagem em responsabilidade diante do grupo. Mantém pessoas mais experientes ao lado das novas, cria momentos frequentes de comunicação e faz com que a cultura seja reforçada tanto pelos símbolos quanto pelas pequenas obrigações do cotidiano.
Não existe uma peça isolada responsável pelo funcionamento.
Existe um sistema.
Depois de décadas trabalhando em organizações operacionais, isso talvez tenha sido o que mais me interessou em Kandersteg. Valores compartilhados ajudam muito, mas só passam a sustentar uma organização quando encontram formas concretas de chegar ao trabalho.
O propósito diz por que vale a pena fazer.
O procedimento ajuda a dizer como.
A experiência ensina aquilo que o procedimento não consegue ensinar.
A liderança mantém o grupo orientado.
E a responsabilidade diante dos outros faz com que alguém execute a tarefa mesmo quando ninguém está olhando.
Talvez seja assim que uma organização com tanta gente chegando e partindo consegue continuar.
As pessoas passam. O trabalho permanece. Para que a instituição permaneça também, é preciso transformar aquilo em que se acredita naquilo que se faz todos os dias.