É difícil exagerar a dimensão do Carnaval para a limpeza urbana do Rio de Janeiro. Trata-se, provavelmente, da maior operação da Comlurb. Maior até que o réveillon, embora o réveillon tenha a pressão extrema de devolver a cidade em poucas horas. O Carnaval é diferente. Ele se prolonga por dias, se espalha territorialmente, muda de escala a cada bloco, pressiona a rotina da cidade e pode comprometer de forma sensível a limpeza urbana. Basta lembrar o que ocorreu em 2024, quando a greve coincidiu justamente com o período carnavalesco e tornou evidente o tamanho real dessa engrenagem.
Por isso, quando a operação funciona, os elogios são merecidos. E são mesmo motivo de orgulho. Há planejamento, mobilização de milhares de trabalhadores, logística complexa, reposição contínua de equipamentos, atuação quase simultânea em dezenas de frentes e uma cobrança pública altíssima. Não é pouca coisa. A cidade percebe. O folião percebe. E esse reconhecimento espontâneo costuma ser o melhor sinal de que o trabalho deu certo.
A divulgação da operação de 2026 segue essa linha. Fala em 1.642 toneladas de resíduos removidos em toda a cidade, com destaque para a maior conteinerização já feita em eventos, além da limpeza ágil nos blocos, na Sapucaí e em outros pontos de concentração. O número impressiona. Aliás, impressiona bastante.
Mas é justamente aí que convém introduzir alguma prudência.
A apuração de resultados no Carnaval sempre foi um tema mais delicado do que parece. No Sambódromo, embora também haja algum ruído — especialmente pela limpeza do entorno — os resíduos estão em grande parte intramuros, com operação mais controlada e viaturas dedicadas. Isso tende a produzir números mais confiáveis. Em 2026, a tonelagem do Sambódromo ficou em torno de 338 toneladas, valor bastante próximo da ordem histórica já observada. É um dado coerente, compatível com o padrão de anos anteriores, salvo oscilações normais de público, consumo e dinâmica operacional.
Já no Carnaval de rua a situação é outra. O resíduo se espalha pela cidade, mistura-se com a sujeira urbana já existente, cruza áreas com diferentes rotinas de limpeza e depende, muitas vezes, de consolidações que combinam pesagem com estimativas operacionais. Isso não invalida o número final, mas recomenda tratá-lo menos como precisão absoluta e mais como ordem de grandeza.
Historicamente, o resíduo atribuído aos blocos de rua gravitava em torno de 600 toneladas. Em 2026, o volume informado para blocos e bailes supera 1.100 toneladas. É quase o dobro. A pergunta é inevitável: houve realmente uma intensificação tão expressiva do Carnaval de rua ou há, na comparação, algum entusiasmo na apuração dos resultados?
A dúvida não diminui o mérito da operação. Apenas ajuda a separar duas coisas que nem sempre caminham juntas: a qualidade do serviço prestado e a exatidão do número divulgado sobre ele. É perfeitamente possível que a operação tenha sido excelente e que, ao mesmo tempo, a consolidação estatística mereça maior refinamento metodológico.
Esse ponto importa porque, em operações urbanas complexas, números grandes têm apelo político e institucional evidente. Eles comunicam esforço, escala e impacto. Mas a credibilidade de longo prazo não depende apenas do volume anunciado. Depende também da consistência dos critérios de medição ao longo do tempo. Quando uma série histórica varia demais, sem que a explicação operacional seja igualmente robusta, surge a suspeita de que a conta pode estar captando mais do que apenas o lixo efetivamente gerado pelos foliões.
No fim, o sucesso do Carnaval não está apenas nas toneladas, nem nas declarações oficiais, nem na presença das autoridades nos pontos de maior visibilidade. Ele está, sobretudo, na percepção do carioca. O folião sabe quando a cidade respondeu bem. Sabe quando os blocos terminaram e a limpeza veio rápido. Sabe quando o ambiente ficou minimamente reorganizado para que a festa pudesse continuar no dia seguinte. Esse julgamento popular, ainda que informal, talvez seja mais verdadeiro do que muita planilha.
Há ainda um detalhe curioso em 2026: pelo segundo ano seguido, não aparece com destaque a atuação do programa Lixo Zero. Não seria correto tomar isso, isoladamente, como prova de esvaziamento do programa. Mas a ausência chama atenção. Durante muito tempo, o Lixo Zero ocupou posição simbólica importante na narrativa institucional do Carnaval, seja pelo viés educativo, seja pelo viés fiscalizatório. Quando deixa de ser mencionado de forma mais clara, abre-se ao menos uma interrogação sobre o espaço que o programa ainda ocupa na estratégia pública do evento.
Talvez essa seja uma boa síntese da operação de Carnaval: um sucesso operacional visível, merecedor de reconhecimento, mas acompanhado de algumas perguntas que não deveriam ser descartadas. A maior delas diz respeito à qualidade da apuração. Porque, em limpeza urbana, medir mal também é uma forma de compreender mal aquilo que se faz.
A Comlurb tem todos os motivos para se orgulhar da operação que realiza no Carnaval. Poucas atividades expõem tanto a companhia, poucas exigem tanto de sua estrutura e poucas produzem uma percepção pública tão imediata do trabalho executado. Mas exatamente por isso, quanto maior a operação, maior deveria ser o cuidado com a qualidade dos números que a descrevem.
O Carnaval do Rio sempre será maior que qualquer relatório. Mas isso não dispensa o relatório de ser confiável.












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