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terça-feira, 23 de junho de 2026

Denunciante não é traidor



A iniciativa de marcar o Dia Mundial do Denunciante, em 23 de junho, é correta e necessária. A campanha recente da Comlurb acerta ao dizer que denunciar irregularidades é um ato de coragem e um compromisso com a integridade, e ao lembrar que a Companhia só consegue conhecer certos desvios porque alguém se dispõe a falar. Isso não é detalhe. Em qualquer programa sério de integridade e transparência, o denunciante não deve ser tratado como incômodo; deve ser entendido como parte do sistema de proteção institucional.

O problema é que nossa cultura ainda reage mal a isso. Entre nós, o denunciante muitas vezes é visto como X-9, delator, traidor, como se o silêncio fosse forma superior de lealdade. Não é. Lealdade institucional não é acobertar desvio; é impedir que ele se normalize. Quando uma organização transforma a denúncia em vergonha moral, ela entrega o ambiente de trabalho ao poder informal, ao medo e à omissão. A peça da Comlurb tem o mérito de tentar deslocar essa percepção ao afirmar que “se algo não está certo, fale”. O desafio é fazer essa frase valer mais do que o cartaz.

Para isso, a primeira obrigação de qualquer canal de denúncia é preservar a identidade do denunciante. No marco normativo brasileiro, essa proteção não é favor nem gentileza administrativa. O Decreto nº 10.153/2019 do governo federal estabelece que os elementos de identificação do denunciante devem ser preservados desde o recebimento da denúncia, e a regulamentação da CGU determina que o relato seja tratado pela ouvidoria e encaminhado às áreas competentes sem publicidade ao conteúdo e a qualquer elemento de identificação do informante. Isso é o mínimo civilizatório de um sistema que pretende funcionar. 

A segunda obrigação é prevenir retaliação. A literatura recente sobre proteção ao informante no Brasil mostra que incentivos à denúncia só funcionam quando vêm acompanhados de proteção legal correspondente, orientações claras de procedimento e apoio visível da hierarquia. O mesmo estudo também reconhece que, apesar dos avanços normativos, ainda persistem lacunas no Brasil quanto à definição mais robusta de retaliação e aos meios efetivos de proteção. Traduzindo para a prática: não basta abrir canal; é preciso garantir que quem usa esse canal não será punido informalmente depois. 

A terceira obrigação, talvez a mais esquecida, é apurar. E, quando não houver elementos suficientes para uma apuração isolada, pelo menos tratar a denúncia como inteligência institucional. Nem toda denúncia vaga autoriza investigação conclusiva. Mas um conjunto de relatos imprecisos sobre o mesmo local, o mesmo gestor, o mesmo tipo de conduta ou o mesmo ambiente pode, em conjunto, revelar um padrão. Em gestão de riscos, isso é quase intuitivo: um relato frágil pode ser ruído; vários relatos semelhantes podem ser sinal. Onde há fumaça reiterada, convém ao menos verificar se não há fogo escondido.

Foi exatamente para sustentar essa lógica que programas de integridade mais sérios aprenderam a combinar canal de denúncia, proteção ao denunciante, análise de recorrência e capacidade de resposta. O próprio material da Comlurb fala em canais “seguros”, mas segurança real não se mede pela existência do formulário ou do e-mail. Mede-se pela confiança de que a identidade será preservada, de que não haverá retaliação e de que a manifestação não desaparecerá num limbo burocrático. Sem isso, a denúncia deixa de ser instrumento de integridade e vira apenas ritual de fachada.

No fim, denunciar não é trair a instituição. Trair a instituição é saber do desvio e escolher o conforto do silêncio. A cultura da integridade começa quando a organização protege quem fala, escuta com seriedade o que foi dito e aprende a enxergar padrão onde antes fingia ver apenas casos isolados. O denunciante não é o problema. Em geral, ele é o primeiro aviso de que o problema já estava lá há muito tempo.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Manual não é burocracia. É proteção.



A divulgação do Manual de instruções técnicas para operação segura com contêiner de alta capacidade merece registro positivo. Há um vício recorrente nas organizações operacionais: imaginar que o profissional já sabe, por intuição ou experiência, o que fazer e como fazer. Esse pensamento é simplório. Em atividades com risco operacional, confiar apenas no costume abre espaço para acidente, improviso e má conduta. O melhor caminho para a segurança — e também para a integridade — é deixar claro, por escrito, o que se espera de cada profissional. O manual divulgado pela Comlurb vai exatamente nessa direção.

A comunicação interna foi objetiva ao informar que o documento traz orientações da Segurança do Trabalho para a operação com contêiner de alta capacidade, que ficará disponível permanentemente no Passaporte e no Portal Corporativo, e que seus procedimentos padronizados devem ser respeitados para a segurança das equipes. Esse ponto é central. Segurança não se faz apenas com boa vontade, atenção difusa ou experiência acumulada. Segurança se faz com procedimento claro, repetível e verificável. Quando o padrão está documentado, reduz-se a zona cinzenta entre “o que eu acho que é certo” e “o que efetivamente deve ser feito”.

Esse raciocínio é o mesmo que já apareceu no próprio Percolado ao tratar do Código de Conduta e Integridade. Lá se dizia, com razão, que sem um código há uma miríade de interpretações sobre o que seja uma conduta íntegra, enquanto o documento uniformiza o comportamento esperado e reduz o risco da indefinição. O que vale para a integridade vale também para a segurança operacional. Um manual técnico bem feito é, no fundo, uma espécie de código de conduta aplicado ao risco físico. Ele diz ao trabalhador, ao gestor e à instituição: aqui não cabe achismo; aqui existe um modo correto de agir.

Há ainda outro mérito na iniciativa: ela reconhece que a operação com contêineres de alta capacidade não é trivial. A própria trajetória da Comlurb com esse tipo de equipamento, testado e incorporado em diferentes contextos ao longo dos anos, mostra que tecnologia e escala exigem aprendizado institucional. Não basta introduzir o equipamento; é preciso cercá-lo de procedimento, treinamento e disciplina de uso. Nesse sentido, a participação dos garis citados no material também tem valor simbólico e prático: aproxima o documento do chão real da operação, em vez de tratá-lo como peça abstrata produzida à distância.

No fim, manuais, cartilhas e códigos não devem ser vistos como ornamento burocrático. Quando bem concebidos, são instrumentos de redução de risco, proteção da equipe e qualificação da conduta institucional. A organização madura não presume saber tácito onde pode haver ambiguidade perigosa. Ela explicita, padroniza e ensina. O manual de operação segura com contêiner de alta capacidade vai na direção certa porque transforma expectativa difusa em orientação concreta. E, em matéria de segurança, quase sempre é isso que separa a rotina controlada do acidente anunciado.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Minuto de segurança não é perda de tempo


 Há práticas simples que revelam o grau de maturidade de uma organização. O Minuto de Segurança é uma delas. A comunicação interna da Comlurb o define como um breve encontro antes do início das atividades, voltado a reforçar o uso correto de EPIs, os cuidados necessários durante a execução das tarefas e os pontos de atenção de cada operação. Parece pouco. Não é. Em ambiente operacional, um minuto bem usado pode valer mais do que uma hora de improviso depois do acidente.

Esse tipo de prática sempre me marcou profissionalmente. No tempo em que trabalhei no estaleiro Ishikawajima, toda manhã começava com ginástica laboral e, em seguida, cada grupo de trabalho se reunia para lembrar os riscos das tarefas do dia. Do empregado mais novo ao superintendente, todos participavam. Aquilo não era encenação. Era cultura. Por isso, quando estive à frente da Diretoria de Serviços da Zona Oeste, fiz questão de fomentar tanto a ginástica laboral quanto o minuto de segurança.

O mérito da iniciativa atual está justamente em recolocar em circulação uma boa prática que, de tão simples, costuma ser desprezada por chefias apressadas. Há sempre o mau chefe que olha para o serviço atrasado na rua e conclui, com sua pressa míope, que prevenção é perda de tempo. Não percebe que essa pequena pausa inicial organiza a atenção, reduz a zona cinzenta e lembra ao trabalhador que segurança não é detalhe acessório da tarefa, mas parte da própria tarefa. A peça da Comlurb acerta ao dizer que o minuto de segurança deve ser objetivo, direto e dinâmico. Segurança boa não é palestra longa; é mensagem curta que entra antes do risco.

Há, além disso, uma dimensão mais profunda nesse ritual. O minuto de segurança não serve apenas para lembrar EPI ou procedimento. Ele produz presença. Obriga a equipe a sair do automático, a nomear o risco e a reconhecer que a operação não pode ser conduzida como mera repetição cega. Em organizações marcadas pela rotina pesada, esse pequeno encontro funciona como antídoto contra a banalização do perigo. É um instante em que a instituição diz ao trabalhador, de forma concreta: antes da produtividade, importa voltar inteiro para casa.

Por isso vejo com bons olhos esse retorno. Não porque traga novidade, mas justamente porque recupera uma disciplina preventiva que às vezes se perde sob a administração de chefes ruins e de urgências mal geridas. Em segurança operacional, esquecer o básico costuma ser o primeiro passo para o problema sério. O minuto de segurança é quase humilde demais para chamar atenção. Mas organizações maduras sabem que a prevenção não se mede pelo espetáculo das campanhas, e sim pela constância de pequenos hábitos que impedem que o acidente vire rotina.

Madogiwa-zoku: a tribo da janela e o esvaziamento silencioso

Meu terceiro madogiwa-zoku: menos ressentimento, mais observação, estudo e saúde para esperar o giro da roda.

Os japoneses deram um nome muito preciso a uma situação que, embora não seja exclusiva do Japão, ajuda a pensar experiências bastante universais dentro das organizações: madogiwa-zoku — literalmente, algo como “tribo da janela”. O termo passou a designar empregados que permanecem formalmente na empresa, seguem recebendo salário e conservam sua mesa, mas foram esvaziados de função, afastados das decisões e deslocados para uma espécie de periferia simbólica da organização. A imagem é poderosa: a pessoa continua dentro, mas já não participa de fato. Estudos sobre o sistema japonês de emprego vitalício associam o fenômeno ao tratamento dado a empregados mais velhos ou sem perspectiva de ascensão, que permaneciam na folha, porém sem responsabilidades substantivas.

No Japão, essa prática se conectou historicamente ao emprego vitalício, à senioridade e à dificuldade cultural e institucional de simplesmente dispensar trabalhadores antigos. Em vez da ruptura aberta, produzia-se muitas vezes uma espécie de ostracismo funcional. Um estudo sobre o sistema japonês chega a registrar o termo como eufemismo para empregados mais velhos “sem responsabilidades reais”, e o Financial Times resumiu bem a lógica ao descrever executivos empurrados para perto da janela, para subsidiárias ou para funções laterais, como forma passiva de afastamento. Não se trata, portanto, de simples folga remunerada. Trata-se de uma mensagem organizacional: você ainda está aqui, mas já não conta do mesmo modo.

No Brasil, isso não tem a mesma moldura cultural, mas o fenômeno existe. Chamamos de outras coisas: esvaziamento de função, ócio forçado, “encostamento”, às vezes até uma forma de quiet firing. A diferença principal é que aqui a prática tende a ser lida menos como ritual corporativo e mais como problema jurídico e organizacional. Em 2024, o TST manteve condenação de empresa por ociosidade forçada, afirmando que a conduta atentou contra a dignidade e a integridade psíquica do trabalhador. Ou seja: quando o afastamento funcional se converte em humilhação reiterada, ele deixa de ser apenas má gestão e passa a tocar o terreno do assédio moral.

Ao longo dos meus quase trinta e um anos de Companhia, já passei por três momentos que, olhando em retrospecto, poderiam ser lidos por essa chave. O primeiro veio logo no início, quando fui exonerado da gerência e passei a “dar ponto” num setor que não precisava da minha presença. O gestor, educado, me deu um trabalho simples para ocupar o tempo. Depois a roda girou, e fui designado para uma nova gerência, onde pude me desenvolver plenamente. O segundo momento ocorreu quando deixei a presidência. Ali, novamente em uma espécie de madogiwa-zoku, aproveitei o tempo para fazer duas especializações que me ajudaram muito no giro seguinte da roda. O terceiro é o atual: depois de deixar a Diretoria de Compliance, vivo meu terceiro madogiwa-zoku, mas agora com um instrumental mais forte para preservar saúde e bem-estar enquanto observo se haverá novo giro ou se outro caminho surgirá.

Talvez a principal lição seja esta: quem entra numa situação assim não deve romantizá-la nem se vitimizar em excesso. Antes de tudo, convém distinguir se se trata de uma transição mal administrada, de uma perda real de confiança institucional ou de uma estratégia deliberada de constrangimento. A resposta mais fraca é transformar o salário sem tarefa em conforto enganoso. O ócio remunerado corrói reputação, confiança e identidade profissional. A resposta mais forte, a meu ver, combina três movimentos: registrar fatos com sobriedade; pedir trabalho e enquadramento funcional com elegância; e produzir utilidade sem pedir licença para existir, por meio de notas, diagnósticos, estudos e propostas. Em paralelo, é essencial preservar a saúde mental, manter relações internas sem mendigar pertencimento e preparar alternativas externas enquanto ainda há energia. Nesse ponto, a Resolução 351 do CNJ, embora voltada ao Judiciário, é interessante porque trata o assédio de forma organizacional: fala em mudanças de métodos de trabalho, aperfeiçoamento da gestão de pessoas, proteção dos envolvidos, preservação de provas e revisão de estratégias que favoreçam práticas abusivas.

Minha leitura, hoje, é menos dramática do que já foi. Estar em madogiwa-zoku não significa necessariamente fim de linha; às vezes é apenas o intervalo entre dois movimentos da roda. Mas seria ingênuo tratá-lo sempre como pausa neutra. O esvaziamento funcional pode ser corrosivo e, se prolongado, humilhante. Por isso, a melhor postura talvez seja construir três saídas ao mesmo tempo: uma saída interna, pela recomposição de atribuições; uma saída institucional, pela documentação e eventual uso dos canais adequados; e uma saída pessoal, pela capacitação e pela preparação para outros caminhos. O erro é esperar passivamente pelo resgate. A tarefa é transformar a janela em observatório, não em exílio.

sábado, 30 de maio de 2026

Conduta, integridade e a confusão que a boa intenção também pode criar

 

 As duas peças recentes do Momento Integridade Comlurb revelam um desvio sutil, mas importante, na condução do tema. Em 26 de maio de 2026, a comunicação interna divulgou a mensagem “Integridade é agir com ética todos os dias”, remetendo ao Código de Integridade dos Agentes Públicos da Prefeitura do Rio, previsto no Decreto Rio nº 50.021/2021. Dois dias depois, em 28 de maio, veio nova peça, desta vez centrada no Código de Conduta e Integridade da Comlurb, apresentado como documento orientador da atuação profissional dos empregados. O problema não está em nenhum dos dois conteúdos, isoladamente. Está na justaposição de mensagens e referências que, em vez de concentrar, dispersam.

Ao longo dos anos, o esforço mais consistente da antiga Diretoria de Compliance foi justamente o oposto disso: reduzir ambiguidade, uniformizar linguagem e dar centralidade ao que era normatizável. O Percolado já registrava, em 2019, que o Código de Conduta e Integridade era a primeira iniciativa relevante de uma organização que deseja garantir ambiente livre de corrupção e desvios de conduta, exatamente porque uniformiza o que se espera do empregado e reduz a “miríade de interpretações” sobre o que seria uma boa ou má conduta. A escolha por enfatizar conduta e integridade, e não “ética” em sentido amplo, tinha racionalidade administrativa: códigos disciplinam comportamentos; discussões abstratas sobre ética frequentemente se expandem mais do que orientam.

Esse cuidado não surgiu por acaso. Em 2021, quando a Comlurb estruturou a Semana da Integridade, a própria comunicação institucional associava o tema à prevenção de desvios de conduta e à produção de benefícios concretos para a Companhia, evitando tratá-lo como abstração ornamental. Em 2023, esse esforço seguia vivo: os panoramas da Diretoria de Compliance mostravam diretrizes voltadas à responsabilização, riscos trabalhistas, governança e inteligência digital, enquanto as campanhas internas continuavam a ancorar canais de denúncia e ações educativas no Código de Conduta e Integridade da Comlurb. Havia, portanto, um eixo: o documento da Companhia funcionava como referência prática e cotidiana, alinhado ao marco mais amplo da Prefeitura, mas não dissolvido nele.

Quando a comunicação recente passa a alternar, em curto espaço de tempo, o código da Companhia e o código dos agentes públicos da Prefeitura, o risco é enfraquecer exatamente essa clareza construída. O empregado comum não opera no terreno das sutilezas doutrinárias; ele precisa saber qual é o seu documento mestre, onde estão seus deveres, suas proibições, seus canais e seus referenciais de comportamento. O próprio texto de 28 de maio diz que é fundamental que todos conheçam e observem as orientações do Código de Conduta e Integridade da Comlurb. Já o material de 26 de maio convida a conhecer outro código, externo à Companhia, ainda que convergente. A boa intenção pedagógica, nesse caso, pode produzir ruído operacional.

Há aí um traço mais amplo, que talvez seja o ponto realmente preocupante: o tema da integridade parece sobreviver hoje mais por inércia qualificada do que por investimento efetivo de gestão. O Percolado documentou, em 2023, uma Diretoria de Compliance ainda dotada de agenda, método, produção e diretriz. O que se percebe agora é a permanência de certos ritos comunicacionais sem a mesma arquitetura de comando por trás. Nada disso apaga o valor profissional de quem continua tocando a pauta, muitas vezes remanescente daquele esforço anterior. Mas a sentinela existe: quando o tema deixa de ser governado e passa apenas a se repetir, a linguagem começa a escorregar, a prioridade se dispersa e a cultura se mantém mais por memória do que por direção.

No fim, integridade institucional não se fortalece com mais palavras; fortalece-se com palavras mais precisas. A Comlurb já construiu, ao longo dos últimos anos, um patrimônio importante ao sedimentar o Código de Conduta e Integridade da Companhia como referência prática de comportamento, denúncia e responsabilização. Preservar esse eixo talvez seja mais valioso do que ampliar, em nome de uma pedagogia genérica, o repertório de códigos e slogans. Em ambiente institucional, menos confusão vale mais do que mais discurso. E, nesse campo, clareza também é uma forma de integridade.





sexta-feira, 29 de maio de 2026

É claro que a Comlurb conhece o FIP.Rio.


A pergunta do cartaz — “Você conhece o FIP.Rio?” — talvez faça sentido para quem chega agora ao tema da integridade. Não é o caso da Companhia. Desde o primeiro dia de 2021, quando assumi a Diretoria de Compliance, estivemos totalmente alinhados com a política municipal de integridade, acompanhando a evolução institucional da pasta ao longo de suas diferentes configurações, da SEGOVI à SMTDI e depois à SMIT. Por isso, quando vejo a peça de 2026 apresentar o programa quase como novidade, a sensação que me fica não é de informação inaugural, mas de perda de memória institucional.

Não se trata de negar o mérito do FIP.Rio.
O programa é correto em seus objetivos e o e-mail interno o resume bem: fortalecer a cultura de integridade, prevenir e corrigir violações de conduta, estimular canais de denúncia, zelar pelo Código de Integridade do Agente Público e reforçar a governança pública com foco em ética, transparência e responsabilidade. Tudo isso está em linha com o papel que a Prefeitura atribuiu ao programa. O ponto, porém, não está no conteúdo formal da mensagem, mas no lugar a partir do qual ela é emitida. Quando uma instituição que já esteve na linha de frente passa a comunicar o tema como se estivesse apenas o descobrindo, alguma coisa se perdeu no caminho.

Ao longo de 2021 a 2024, a DCO não ficou olhando esse movimento de fora. Participou ativamente dele. O Percolado registrou esse percurso. Já em 2021 eu tratava explicitamente da necessidade de alinhar o programa interno da Comlurb às diretrizes de integridade da Prefeitura, com o entendimento de que cada avanço no plano municipal exigiria avanço correspondente dentro da Companhia. Não era adesão protocolar. Era trabalho de tradução institucional, de customização, de implantação concreta. Esse esforço nos colocou, em muitos momentos, em posição de destaque e benchmark dentro da própria Prefeitura.

Essa posição de destaque não desapareceu porque o tema perdeu relevância em abstrato. Perdeu-se porque deixou de haver gestão efetiva sobre ele. Os panoramas de 2023 ainda mostravam uma Diretoria de Compliance com agenda, método, diretrizes, produção técnica e ações continuadas de capacitação e fortalecimento da cultura de integridade. Havia direção, havia intencionalidade e havia investimento gerencial. Quando uma estrutura assim é extinta por uma nova gestão que não acredita ou não compreende o significado de compliance, o que sobra não é exatamente continuidade. O que sobra é inércia. E inércia, embora mantenha algum movimento, não substitui comando.

É por isso que olho para essa nova comunicação com ambivalência. Ela mostra que o tema ainda respira, o que é positivo. Mas também evidencia que ele respira hoje mais pelo valor profissional dos antigos quadros da DCO do que por prioridade estratégica da administração atual. O cartaz continua circulando, o rito continua existindo, o vocabulário da integridade ainda comparece. Mas comparece sem a mesma densidade de antes, sem a mesma coerência e sem o mesmo protagonismo institucional. Quando isso acontece, a integridade deixa de ser eixo de gestão e começa a ser tratada como acessório reputacional.

No fim, a pergunta certa não é se a Comlurb conhece o FIP.Rio. A pergunta certa é outra: por que uma Companhia que já conheceu, participou, liderou e ajudou a internalizar essa agenda passou a se comportar como mera destinatária tardia de algo que antes ajudava a construir? Essa é a questão incômoda. Porque programas de integridade não vivem de cartazes, slogans ou memória de bons tempos. Vivem de direção, método e prioridade. Quando esses elementos se perdem, o tema não morre de imediato. Continua andando por um tempo. Mas já não sabe exatamente para onde.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Louvável essa iniciativa da Prefeitura.

 


Se a antiga Diretoria de Compliance ainda existisse, eu certamente copiaria algo assim para a Comlurb. A peça divulgada em 27 de maio de 2026 informa que, diante de um dilema sobre conduta ética, o agente público pode consultar a Comissão de Integridade Pública – CIP da Prefeitura do Rio. A ideia é simples, mas poderosa: oferecer um canal consultivo para dúvidas concretas antes que elas virem erro, conflito ou dano reputacional.

Isso tem mérito porque, em matéria de integridade, nem tudo nasce de má-fé. Muitas situações surgem da incerteza prática: conflito de interesses, nomeações, participação em eventos, recebimento de convites, condutas em zonas cinzentas. O próprio material da Comlurb resume assim a função da CIP, e o serviço oficial da Prefeitura confirma que qualquer agente público do Município, efetivo ou não, pode submeter consulta sobre normas de integridade e sobre situações relacionadas à sua própria atuação. É uma espécie de helpdesk de conduta, algo que ajuda a prevenir em vez de apenas reagir.

Durante os quatro anos em que estive à frente da DCO, focamos muito em divulgar o Código de Conduta e Integridade da Companhia e em manter a antiga equipe disponível para orientar toda e qualquer dúvida relacionada ao Programa de Integridade e Transparência. Havia presença, havia escuta e havia disposição técnica. Mas reconheço, olhando em retrospecto, que não chegamos a estruturar um canal formal, simples e claramente identificado para consultas prévias de conduta e integridade. Esse modelo da CIP municipal corrige exatamente essa lacuna: transforma disponibilidade difusa em porta institucional reconhecível.

O acerto da iniciativa aparece ainda com mais força quando se observa o desenho formal da própria Comissão. O decreto que instituiu a CIP lhe atribuiu, entre outras competências, a função de dirimir dúvidas de interpretação sobre as normas de integridade pública do Município e de responder às consultas sobre aspectos éticos encaminhadas por órgãos, entidades e agentes públicos. O serviço oficial também deixa claro o que ele não faz: não recebe denúncias, não analisa situações de terceiros e não responde a casos hipotéticos desligados de fatos concretos. Essa delimitação é importante porque evita a confusão entre consulta preventiva e canal correicional.

Há aqui uma lição gerencial que vai além do tema da integridade. Organizações públicas costumam investir bastante em normas, cartilhas e campanhas, mas menos do que deveriam em mecanismos cotidianos de orientação. Publicar o código é necessário. Treinar também. Mas, quando o agente se vê sozinho diante de uma situação delicada, o que realmente faz diferença é saber a quem recorrer antes de decidir mal. É por isso que considero essa iniciativa louvável: ela desloca a integridade do plano abstrato da pregação para o terreno concreto da ajuda institucional.

No fim, a boa política de integridade não é só a que pune desvios depois que eles ocorrem. É a que cria condições para que o desvio não aconteça. A CIP, como canal consultivo, vai nessa direção. Se a DCO ainda existisse, eu teria todo interesse em reproduzir internamente algo semelhante: um espaço claro, acessível e tecnicamente confiável para dúvidas sobre conduta e integridade. Porque, em instituições complexas, a diferença entre o erro e a prudência muitas vezes não está na virtude heroica do agente, mas na existência de uma boa instância de consulta antes da decisão. 


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Entre a Vontade e o Destino — Estratégia, Operação e Integridade em uma Empresa Pública


Compartilho a publicação do meu livro Entre a Vontade e o Destino — Estratégia, Operação e Integridade em uma Empresa Pública

A obra reúne reflexões sobre gestão pública, liderança, operação, integridade e tomada de decisão, a partir de uma trajetória de mais de três décadas em uma grande empresa pública responsável por serviços essenciais da cidade.

O livro já está disponível em lojas virtuais como Amazon, Apple Books, Kobo, Google Play Livros, Um Livro e Estante Virtual.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cristo laranja: o legado de 2017



Mais do que a notícia deste ano, o que realmente importa é o legado que surgiu em 2017. Foi ali que nasceu uma imagem poderosa: o maior símbolo do Rio iluminado na cor do uniforme de quem limpa a cidade. O gesto parecia simples, mas não era. Ao levar o laranja dos garis ao Cristo Redentor, a cidade começava a transformar um uniforme de trabalho em signo de dignidade pública, reconhecimento e pertencimento. O que hoje parece natural teve, na origem, a força de uma pequena ruptura simbólica.

Segundo o registro do próprio Percolado, em 16 de maio de 2017 o Cristo seria iluminado de laranja no Dia do Gari, em meio a uma programação mais ampla de homenagens à categoria. Pela lembrança do autor, essa primeira iniciativa encontrou resistência, inclusive pelo receio de reações negativas à ideia de deixar o monumento na cor laranja. Se assim foi, o episódio revela algo mais profundo: havia ali não apenas cautela política, mas uma dificuldade de compreender a potência simbólica de homenagear publicamente os garis. Justamente por isso, o fato de a iluminação ter acontecido marcou tanto. Não era apenas um evento; era a afirmação de que o trabalho dos garis merecia ocupar o centro da cena.


O legado de 2017 está em ter transformado uma homenagem pontual em memória institucional. A cor laranja, que muitas vezes foi associada apenas à dureza do trabalho de rua, ganhou outro estatuto: passou a significar orgulho, visibilidade e valorização. Não é pouco. Cidades costumam exibir seus cartões-postais para turistas, governantes e grandes celebrações. Quando o Cristo se acende de laranja para os garis, ele faz outra coisa: devolve centralidade a uma categoria que normalmente aparece apenas quando falta. É como se a cidade, por uma noite, admitisse que sua beleza também depende de quem a varre, lava, coleta e sustenta diariamente.

Talvez seja essa a melhor forma de entender o que aconteceu depois. A iluminação voltou, repetiu-se e virou tradição porque 2017 deixou uma marca duradoura. O evento de 2026 apenas confirma essa continuidade ao registrar nova homenagem no Cristo Redentor pelo Dia do Gari e pelos 51 anos da Comlurb. Mas o mais importante já havia sido conquistado antes: o momento em que uma iniciativa que poderia ser vista com desconfiança atravessou a hesitação, aconteceu assim mesmo e passou a integrar o repertório simbólico da Companhia. Certas tradições nascem assim: primeiro como ousadia, depois como costume, e por fim como legado.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Cargos comissionados: o problema não é existir, é como se ocupam


Tratar cargos comissionados e empregos de confiança como um mal em si é uma simplificação confortável, mas insuficiente. Em qualquer organização pública, alguém precisará exercer direção, chefia e assessoramento. O problema começa quando esses postos deixam de ser instrumentos de gestão e passam a funcionar como moeda de afinidade pessoal, conveniência política ou nepotismo. Aí, sim, tornam-se nefastos para a administração pública. A nova lei municipal que estabeleceu limite para a ocupação de cargos em comissão e empregos de confiança por pessoas de fora dos quadros permanentes recoloca esse debate em bases mais sérias, porque tenta conter excessos sem negar a existência legítima dessas funções. 

A Lei nº 9.366, de 5 de maio de 2026, fixou em 5% o teto global de cargos em comissão e empregos de confiança ocupados por pessoas estranhas aos quadros permanentes da administração direta e indireta do Município do Rio de Janeiro. Mais importante do que o número, porém, é a moldura que a própria lei oferece: ela fala em profissionalização da gestão pública, valorização do mérito e da qualificação técnica, planejamento estratégico de pessoas, continuidade administrativa e fortalecimento das carreiras públicas. Isso dialoga com a própria Constituição, que reserva os cargos em comissão apenas para atribuições de direção, chefia e assessoramento, e com a ideia de que funções de confiança devem reforçar, e não enfraquecer, a institucionalidade. 

Ainda assim, o limite de 5% é mais mensagem do que solução completa. Ele ajuda a conter a expansão desordenada de nomeações externas, mas não resolve a questão decisiva: quem entra e com base em quais critérios. Uma máquina pública pode estar formalmente protegida por um percentual baixo e, mesmo assim, continuar vulnerável se os escolhidos não tiverem notório saber, experiência, especialidade ou reputação compatível com a função. A Lei das Estatais oferece uma pista importante nesse ponto. Seu art. 17 não trata de todos os empregos de confiança, mas, ao disciplinar a escolha de diretores e conselheiros, adota justamente a lógica de requisitos objetivos, experiência profissional e impedimentos específicos. O ensinamento é claro: limitar quantidade é útil; criar barreiras qualitativas de entrada é ainda mais importante. 

Na prática da Companhia de Limpeza Urbana, esse sempre foi um dos pontos mais delicados. A confusão entre cargos em comissão, empregos em comissão e funções gratificadas abria espaço para distorções, patronagem e soluções improvisadas. Quando a noção de “confiança” deixa de ser institucional e passa a ser apenas pessoal, fere-se a impessoalidade e enfraquece-se a organização. Por isso sempre pareceu mais sensato distinguir conceitos, fixar critérios de elegibilidade e valorizar o capital humano interno já existente, recorrendo a pessoas de fora apenas em casos excepcionais, quando tragam experiência rara ou efetivo valor agregado. Sem isso, a estrutura fica parecida com aquilo que Maquiavel chamaria de um exército de mercenários: gente que serve mais a quem nomeou do que à instituição. 

Não por acaso, o debate recente já começa a avançar para além do simples teto numérico. No Estado do Rio, uma notícia desta semana informa a criação de uma etapa prévia de compliance para nomeações em cargos comissionados, empregos em comissão e funções gratificadas, com análise anterior à formalização do ato. Ainda que em outro ente federativo e com desenho próprio, a iniciativa é sintomática: a preocupação contemporânea já não é apenas reduzir quantitativamente nomeações, mas submeter escolhas a filtros de integridade. É um passo interessante, embora ainda insuficiente se não vier acompanhado de critérios transparentes de mérito, qualificação e experiência. 

No fim, a nova lei municipal merece reconhecimento, mas também leitura crítica. O limite de 5% ajuda a conter abusos e sinaliza uma intenção correta de valorizar os quadros permanentes. Mas a melhor proteção da máquina pública não está apenas em fixar percentuais. Está em construir uma cultura de confiança institucional, em que o acesso a funções estratégicas dependa menos da proximidade com o nomeante e mais da capacidade comprovada de servir à organização. Se a administração pública quiser se blindar de interesses passageiros, precisará ir além do número e enfrentar o ponto central: não basta ser “de confiança”; é preciso ser confiável.


sábado, 2 de maio de 2026

Nova cartilha contra o assédio: avanço real, com uma ausência eloquente


Link para a nova cartilha

A nova versão da cartilha Comlurb contra o Assédio é uma boa notícia porque mostra continuidade de um esforço institucional que não ficou restrito ao impacto inicial da campanha de 2023. Anos depois da primeira publicação, a Companhia reapresenta o tema com nova edição, mais informações e reafirmação explícita de compromisso com um ambiente de trabalho ético. Isso importa. Em temas de cultura organizacional, a repetição não é redundância; muitas vezes é condição de mudança.

A comparação entre as duas cartilhas mostra um amadurecimento perceptível. A edição de 2023 trazia uma base forte de conceituação sobre assédio moral e sexual, efeitos sobre a vítima e sobre a companhia, medidas de prevenção, canais de denúncia e política de não retaliação, além de vincular a campanha à Lei nº 14.540/2023, que instituiu programa de prevenção e enfrentamento ao assédio sexual e à violência sexual na administração pública. A versão nova preserva esse núcleo, mas melhora a comunicação visual, aproxima a linguagem do cotidiano da Comlurb e amplia o repertório de riscos tratados, inclusive com a incorporação do assédio político-eleitoral nas peças mais recentes da campanha.

Há também um ganho importante de identidade institucional. A cartilha de 2026 parece menos genérica e mais aderente ao universo real da Companhia, inclusive nas imagens e no modo de apresentar situações concretas de assédio. Esse detalhe não é apenas estético. Materiais de integridade funcionam melhor quando o trabalhador se reconhece neles e percebe que o problema não pertence a um mundo abstrato de normas, mas ao seu ambiente imediato de trabalho. Nesse sentido, a nova versão parece mais pedagógica e mais próxima da vida real da empresa. Ao mesmo tempo, a manutenção dos canais de denúncia e da política de não retaliação continua sendo um ponto forte, porque nenhuma campanha séria sobre assédio se sustenta sem proteção efetiva a quem denuncia.

Mas a nova cartilha também expõe uma ausência que merece comentário. A edição de 2023 tinha, logo na abertura, não apenas a mensagem do presidente Flávio Lopes, mas também uma página específica com a mensagem do Diretor de Compliance, dando densidade técnica e institucional ao tema. Na cartilha de 2026, a abertura fica concentrada na mensagem do presidente Renato Rodrigues, sem a presença de uma voz equivalente da área de compliance. Essa mudança não anula os avanços do material, mas altera seu enquadramento. A versão anterior transmitia mais claramente a ideia de que o combate ao assédio era também um tema estruturante de integridade pública, com patrocínio técnico próprio. A atual reforça o compromisso institucional, mas com menor visibilidade dessa dimensão especializada.

Isso ajuda a lembrar que cartilhas são instrumentos importantes, mas não autossuficientes. Elas orientam, nomeiam condutas, reduzem zonas de ambiguidade e oferecem meios de reação. Tudo isso é valioso. Ainda assim, a transformação cultural depende de algo mais difícil: coerência entre discurso e prática, preparo das lideranças, acolhimento seguro das denúncias e responsabilização de quem insiste em tratar o assédio como método de mando, brincadeira aceitável ou deformação inevitável do ambiente de trabalho. O mérito da nova cartilha está em manter o assunto vivo e atualizado; seu limite está em não poder, sozinha, produzir a mudança que apenas a prática institucional consistente pode entregar.

No fim, a nova versão da cartilha merece reconhecimento. Ela mostra que a campanha contra o assédio não morreu depois do lançamento inicial e que a Comlurb continua tentando transformar informação em cultura. Isso já é mais do que muitas organizações conseguem fazer. Mas a comparação entre 2023 e 2026 também revela que campanhas amadurecem, mudam de ênfase e deixam rastros institucionais visíveis, inclusive em suas ausências. A cartilha nova é melhor em vários aspectos. Pena apenas que, junto com as novidades, tenha desaparecido a presença explícita da antiga referência de compliance que ajudava a dar ao tema uma moldura ainda mais robusta de integridade.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Assédio, campanha e responsabilização

A campanha da Comlurb contra o assédio tem um mérito que não deve ser subestimado: ela ajuda a dizer em voz alta aquilo que durante muito tempo foi naturalizado, tolerado ou empurrado para o silêncio. As peças recentes sobre assédio sexual, assédio moral e o slogan “Assédio não é frescura” mostram que o tema segue vivo na agenda institucional, o que é importante numa companhia em que o problema já se revelava crônico e exigia enfrentamento mais explícito desde 2023.

Há coerência entre o conteúdo da campanha e as definições mais consolidadas sobre o tema. Materiais oficiais do governo federal e do Ministério Público do Trabalho descrevem o assédio moral como exposição repetitiva e prolongada a situações humilhantes e constrangedoras no ambiente de trabalho, com dano à dignidade e ao ambiente laboral, e tratam o assédio sexual como conduta de cunho sexual sem consentimento, incompatível com um ambiente seguro e respeitoso. Nesse sentido, a campanha da Comlurb não inventa um problema nem exagera sua gravidade: ela está alinhada ao entendimento institucional já difundido em órgãos públicos e no sistema de proteção ao trabalho.

Mas campanhas, sozinhas, não mudam cultura. Elas informam, sinalizam, educam e até encorajam a denúncia, mas não bastam quando a organização não demonstra, na prática, que o comportamento abusivo terá consequência. Guias e políticas públicas recentes insistem justamente nisso: prevenção, acolhimento, apuração, responsabilização e monitoramento precisam caminhar juntos, com compromisso visível da alta administração e das lideranças. Em outras palavras, a campanha é necessária, mas ela só produz transformação real quando combinada com mudança sincera de postura e com punição efetiva de quem, mesmo sabendo o que é assédio, insiste em mantê-lo como método de convivência ou de mando.


É nesse ponto que o cartaz “Assédio não é frescura” merece comentário. A intenção parece clara: confrontar uma linguagem cotidiana que minimiza o sofrimento da vítima e trata a denúncia como exagero, sensibilidade excessiva ou incapacidade de suportar o ambiente de trabalho. Como frase de impacto, pode funcionar, porque fala com um público que muitas vezes ouviu exatamente isso ao longo da vida profissional. Mas há uma ambivalência aí. Ao usar a palavra “frescura”, a campanha tenta desmontar a banalização do problema, mas ao mesmo tempo revela o quanto essa banalização já está entranhada na cultura institucional e social. A frase é forte porque o preconceito que ela combate também é forte.

Talvez por isso a peça tenha algum valor pedagógico, desde que não fique só no efeito retórico. O melhor uso dessa linguagem não é chocar por chocar, mas abrir espaço para uma conversa mais séria: assédio não é estilo duro de gestão, não é brincadeira, não é traço de personalidade, não é informalidade de ambiente masculino e muito menos “mimimi”. É violência institucional de baixa ou alta intensidade, que corrói a dignidade de quem sofre e envenena o ambiente de trabalho para todos. O próprio MPT tem insistido que o assédio afeta o meio ambiente laboral como um todo, e não apenas a vítima direta, o que reforça a necessidade de tratá-lo como tema de governança e não apenas de comportamento individual.

No fim, o avanço real não estará apenas em produzir boas peças de comunicação, mas em fazer com que elas correspondam a uma prática organizacional nova. A campanha da Comlurb tem utilidade e merece ser reconhecida por manter o tema aceso. Mas o teste decisivo é outro: quando o assédio aparecer, a Companhia reagirá apenas com discurso ou com responsabilização concreta? Cultura institucional não muda só quando se explica o problema. Muda quando a organização demonstra, por atos, que já não aceita conviver com ele.




sábado, 18 de abril de 2026

Poliguindaste, Rollon e a inteligência da plataforma multiuso




O Percolado já chamou atenção sobre a importância da versatilidade ao criticar a existência de sistemas “isolados, estanques e não integrados” e defender uma frota mais flexível, capaz de compartilhar usos e reduzir desperdícios operacionais. A ideia continua atual: em vez de pensar o caminhão como equipamento de função única, vale pensá-lo como transportador de módulos. O chassi deixa de ser o fim e passa a ser o meio.

É exatamente isso que os sistemas tipo poliguindaste, hook lift e roll on/roll off permitem. Em páginas técnicas de fabricantes, esses sistemas aparecem associados a uma variedade impressionante de módulos: plataformas planas, caçambas basculantes, tanques de água, contêineres para recicláveis, tanques de líquidos, limpa-fossa, canal jet e até frentes de lavagem de ruas. A lógica é simples: um mesmo veículo pode montar e desmontar rapidamente diferentes carrocerias conforme a necessidade do dia, em vez de obrigar a prefeitura a manter vários veículos especializados, cada um subutilizado em grande parte do tempo.

As imagens anexas ajudam a visualizar essa ideia de forma muito concreta. Numa delas aparecem caixas abertas e um módulo compactador ou de transferência; em outra, uma antiga estação multi compartimentada para recicláveis; na terceira, uma estação mais moderna, compacta e fechada, capaz de funcionar como ponto de entrega e armazenamento controlado. São gerações diferentes de um mesmo raciocínio: a utilidade está no módulo, não apenas no caminhão. E isso não é abstração. Cidades como Oslo e Tilburg operam estações móveis de reciclagem em forma de contêiner, deslocadas para diferentes pontos da cidade em dias e horários definidos, mostrando que o próprio “ecoponto” pode ser entendido como plataforma transportável.

Para uma prefeitura menor, isso tem um apelo enorme. Com uma frota enxuta, seria possível montar um arranjo em que poucos veículos de gancho ou rollon atendessem múltiplas funções: hoje um módulo de transporte de resíduos; amanhã uma plataforma para equipamentos; depois um tanque-pipa; em outra situação, um ponto móvel de coleta seletiva; numa festa popular, um compactador portátil; numa emergência, um módulo de apoio operacional. Fabricantes de hooklift destacam justamente essa rapidez de troca e a possibilidade de um único caminhão atender vários serviços por dia, enquanto os compactadores portáteis sobre gancho mostram outra vantagem: dispensam infraestrutura fixa pesada e podem ser deslocados quando o evento, a obra ou a necessidade mudam de lugar.

Esse raciocínio conversa diretamente com reflexões antigas do próprio blog. Quando o Percolado tratou do sistema roll on/roll off e do conceito de viatura satélite, a questão central já estava posta: faltava discutir um modelo de frota flexível integrada. O exemplo do Jolly Lift, lembrado no blog, ia exatamente nessa direção ao mostrar um veículo satélite apto a transportar unidades roll on/roll off, como caçambas e plataformas multiusos. O problema, muitas vezes, não está na ausência de equipamento, mas na pobreza da imaginação administrativa que enxerga cada veículo como peça rígida, condenada a uma única tarefa.

No fundo, a grande virtude do poliguindaste e do rollon não é mecânica; é gerencial. Eles permitem que uma prefeitura pequena pense grande sem precisar ter uma frota grande. Permitem combinar economia de escala com adaptação local, transformar módulos em resposta operacional e aproximar a gestão pública de uma ideia muito cara ao Percolado: a de que criar uma zona de economia exige rever conceitos antigos e abandonar sistemas estanques. Em vez de muitos veículos para poucos usos, poucos veículos para muitos módulos. Talvez seja essa a forma mais inteligente de modernização: menos espetáculo de frota e mais inteligência de plataforma.

Assédio político-eleitoral: uma mudança importante de postura


 A nova peça do Programa de Integridade da Comlurb contra o assédio político-eleitoral merece registro porque simboliza uma mudança institucional relevante. Em uma companhia que já conviveu com reuniões, cafés da manhã, feijoadas supostamente voluntárias e outros rituais de mobilização política em ambiente de trabalho, chegar a uma comunicação oficial afirmando que opiniões políticas pertencem à esfera pessoal do empregado e que não se admite pressão hierárquica ou constrangimento eleitoral é, sim, uma evolução importante.

A notícia é clara ao afirmar que não são compatíveis com o ambiente de trabalho atitudes como pressionar colegas a apoiar candidatos, fazer comentários ofensivos sobre posicionamentos políticos, usar a posição hierárquica para influenciar escolhas pessoais e criar situações de intimidação. Essa formulação está em linha com o entendimento hoje consolidado na Justiça do Trabalho e no Ministério Público do Trabalho: assédio eleitoral é prática abusiva que visa influenciar ou manipular voto, apoio, orientação ou manifestação política de trabalhadores, violando a liberdade de escolha e a dignidade no trabalho.

O contraste com o passado ajuda a dimensionar essa mudança. Em 2018, o episódio da reunião na quadra da Estácio de Sá com funcionários da Comlurb, para pedido de votos em favor de candidaturas ligadas ao então prefeito, ganhou ampla repercussão pública, gerou questionamentos políticos e foi citado inclusive em denúncia político-administrativa na Câmara do Rio e em cobertura da Agência Brasil. Não se trata aqui de revisitar o escândalo por gosto retrospectivo, mas de notar a distância entre aquele ambiente e o texto que hoje a própria Companhia divulga oficialmente.

Essa mudança de postura é importante também porque o assédio político-eleitoral costuma se esconder sob formas aparentemente banais. Nem sempre ele aparece como ordem explícita. Muitas vezes vem como convite insistente, reunião “espontânea”, sugestão de lealdade, comentário intimidatório ou uso velado da hierarquia para induzir comportamento. As cartilhas do MPT e dos tribunais trabalhistas insistem exatamente nisso: o problema está no constrangimento e na influência indevida sobre a liberdade política do trabalhador, ainda que o gesto venha disfarçado de cordialidade, integração ou adesão informal.

Mas, como em outras formas de assédio, campanha e cartaz não bastam por si mesmos. Eles têm valor pedagógico, ajudam a nomear a conduta abusiva e oferecem canais de denúncia, o que já é bastante. Ainda assim, a transformação cultural só se consolida quando a organização demonstra que a regra vale de verdade, inclusive para quem ocupa posições de mando. O assédio político-eleitoral não se combate apenas com comunicação institucional; combate-se com prevenção, acolhimento, apuração séria e responsabilização de quem instrumentaliza o ambiente de trabalho para fins eleitorais.

No fim, o cartaz da Comlurb vale menos pela obviedade do que diz e mais pelo que revela sobre a trajetória da própria Companhia. Sair de um cenário em que a fronteira entre trabalho e mobilização política parecia perigosamente porosa para outro em que se afirma, de forma explícita, o direito do empregado à sua liberdade política, é um avanço institucional real. O desafio, agora, é fazer com que essa boa formulação não seja apenas uma peça de integridade, mas um critério efetivo de convivência e comando dentro da empresa.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Containers em Kandersteg: menos romantização, mais sistema





As imagens de Kandersteg têm um mérito especial porque ajudam a desmontar uma idealização frequente sobre a limpeza urbana europeia. Não aparece nelas um cenário de perfeição cenográfica. Os containers são grandes, cinzentos, gastos, com marcas de uso, alguma pichação e implantação bastante simples, às vezes apenas junto ao meio-fio, outras vezes protegidos por soluções rudimentares de madeira ou concreto. E, no entanto, funcionam dentro de uma lógica clara. Talvez essa seja a lição mais interessante: a qualidade do sistema não depende apenas da beleza do recipiente, mas da combinação entre regra, rotina e adequação ao lugar. Em Kandersteg, os containers não precisam ser elegantes para cumprir sua função num vilarejo alpino de baixa densidade e forte presença paisagística.

O detalhe decisivo está nos avisos afixados nos próprios recipientes: “for taxed garbage bags only”. Isso coincide exatamente com a orientação oficial da comuna, que informa coleta semanal às terças-feiras e determina que os sacos de lixo só sejam colocados para fora na manhã da coleta, porque animais silvestres e cães podem rasgá-los. A mesma documentação municipal orienta o uso de sacos oficiais taxados ou com selo tarifário, em linha com o modelo suíço de pay-as-you-throw, no qual o descarte do lixo comum é cobrado por saco, enquanto a separação de recicláveis é estimulada por outras vias. Ou seja, o container é apenas a peça visível de um sistema econômico e normativo mais amplo.

Há ainda um pequeno detalhe de urbanidade que vale registro: ao lado dos containers aparece a papeleira verde para dejetos caninos, outra evidência de que a organização do espaço público é feita por camadas de funções específicas. O conjunto não busca esconder completamente o resíduo, mas enquadrá-lo. No Percolado, isso interessa porque reforça uma ideia recorrente: o problema do lixo não se resolve só com equipamento novo ou solução milagrosa. Resolve-se, antes, com sistema, clareza de uso e desenho compatível com o território. Em Kandersteg, os containers são quase prosaicos. E talvez seja justamente por isso que ensinam tanto.

Viatura satélite em Siena: quando a limpeza urbana entende a cidade





As imagens feitas em Siena dizem muito mais do que parece à primeira vista. Em plena rua estreita, histórica e tomada por pedestres, vê-se uma pequena viatura de coleta operando sem interromper completamente a vida urbana. Para quem pensa limpeza urbana, a cena é didática: há cidades em que o equipamento precisa se adaptar ao tecido urbano, e não o contrário. O centro histórico de Siena, reconhecido pela UNESCO como exemplar de cidade medieval preservada, com traçado antigo mantido ao longo dos séculos, não comporta a lógica bruta da grande viatura entrando onde pode e impondo sua escala ao espaço.

Nas fotos, o que aparece é o que, entre nós, faz todo sentido chamar de viatura satélite. A função sugerida pelas imagens é muito clara: trata-se de um equipamento de pequeno porte, compatível com rua estreita, alta densidade de pedestres e forte sensibilidade paisagística. É o tipo de solução adequada para fazer a coleta fina, de proximidade, onde a grande viatura seria desproporcional, incômoda ou simplesmente inviável. Nas imagens, a própria escala do veículo em meio à multidão já conta essa história.

Essa leitura se torna ainda mais plausível quando se observa o sistema de resíduos do centro histórico de Siena. O serviço oficial informa que, no Centro Storico, a coleta é porta a porta, com uso de sacos específicos por fração e horários determinados para exposição dos resíduos, em janelas da manhã entre 6h e 8h30, variando conforme a zona. O município e a Sei Toscana também vêm reforçando a distribuição de sacos e a reorganização desse modelo no centro histórico. Ou seja: não se trata de uma coleta apoiada em grandes contêineres permanentes na rua, mas de uma operação mais delicada, ritmada e ajustada à morfologia urbana. Nessa circunstância, a pequena viatura não é detalhe; é peça central da compatibilização entre serviço e cidade.

O conceito de viatura satélite sempre me pareceu um dos mais inteligentes da limpeza urbana, justamente porque ele reconhece que nem toda coleta precisa ser feita diretamente pelo caminhão principal. Em certos ambientes, a solução mais racional é fragmentar a operação: um veículo menor entra onde a região densa ou congestionada exige delicadeza; depois, em algum ponto de apoio, aquilo que foi recolhido segue para a etapa de remoção em escala maior. É uma lógica operacional de transbordo em miniatura, aplicada ao espaço urbano difícil. O ganho não é apenas de acesso. É também de convivência com o entorno.

Siena ajuda a enxergar isso com nitidez porque seu centro histórico não é apenas antigo; ele continua intensamente vivo, comercial, turístico e pedonal. As imagens mostram exatamente essa convivência tensa entre fruição urbana e necessidade operacional: lojas abertas, fluxo intenso de pessoas, fachadas preservadas e, ao mesmo tempo, a limpeza acontecendo. A qualidade da solução está em não transformar a operação em agressão visual e funcional. A viatura pequena passa quase como um corpo tolerável dentro da rua. Ela não desaparece, mas tampouco sequestra a cena. Em lugares assim, o bom equipamento não é o maior nem o mais impressionante. É o que consegue cumprir sua função sem violentar a escala do lugar.

Talvez essa seja a principal lição dessas fotos de Siena. Limpeza urbana de qualidade não depende apenas de mais máquinas ou de maior capacidade volumétrica. Depende de inteligência tipológica. Há territórios para compactadores pesados, há territórios para coleta manual, e há territórios — como os centros históricos vivos — em que a viatura satélite parece ser a síntese mais civilizada entre operação e cidade. Quando a limpeza urbana compreende a forma urbana, deixa de ser apenas serviço e se torna também uma expressão de respeito ao lugar.

Estações de recebimento na Toscana: o resíduo como parte do desenho urbano




As imagens da Toscana mostram um tipo de solução que sempre me chama atenção: a estação de recebimento de resíduos pensada não apenas como equipamento funcional, mas como parte do espaço urbano. Não se vê ali um amontoado casual de recipientes. Vê-se um conjunto padronizado, compacto, claramente identificado por frações — vidro, papel e papelão, multimaterial, orgânico e rejeito — que organiza o descarte e, ao mesmo tempo, procura reduzir o impacto visual na rua. É uma lição simples: o acondicionamento também é urbanismo.

Na área da Toscana Sul, esse tipo de coleta é operado pela Sei Toscana, gestora do ciclo integrado de resíduos urbanos em 104 municípios. A própria empresa explica que, em muitos municípios, a coleta diferenciada convive com sistemas de recebimento em via pública, enquanto em outros há coleta porta a porta. Nos casos de estações como as das fotos, a lógica é a da proximidade: o cidadão encontra, num mesmo ponto, as várias possibilidades de separação, com comunicação visual direta e cores que ajudam a reduzir erro de descarte.

O aspecto mais interessante talvez esteja na combinação entre padronização e evolução. A reorganização recente dos serviços em municípios da Toscana Sul tem substituído antigos cassonetti por modelos mais modernos, com melhor impacto visual, maior capacidade e, em vários casos, sistemas informatizados preparados para uso com cartão de acesso. Em algumas localidades, uma mudança importante foi separar o vidro do multimaterial, reforçando a qualidade da coleta diferenciada. Isso aparece nas imagens de forma muito clara: cada fração ganha seu próprio corpo, sua própria boca de recebimento e sua própria mensagem de orientação.

Esse tipo de estação revela uma visão madura sobre limpeza urbana. Em vez de esconder o problema ou tratá-lo apenas como etapa final da coleta, o sistema assume que o ponto de entrega é parte decisiva da cadeia. Se o local de descarte é claro, acessível e bem desenhado, a adesão do usuário tende a melhorar. O recipiente deixa de ser apenas um depósito e passa a ser também um instrumento pedagógico. Há aí uma ideia cara ao Percolado: o equipamento não resolve tudo sozinho, mas pode induzir comportamento quando é bem inserido no contexto urbano.

No fim, essas imagens da Toscana valem menos como exotismo europeu e mais como referência de racionalidade. Não há nelas exuberância tecnológica desnecessária. O que existe é organização, clareza de frações, cuidado visual e tentativa de tornar o descarte compatível com a rua. É uma boa lembrança de que a coleta seletiva não começa no caminhão nem termina na usina. Ela começa muito antes, no modo como a cidade oferece ao cidadão um lugar inteligível para separar e entregar o que descarta.

Em Kandersteg, o resíduo ganhou abrigo




As imagens de Kandersteg, na Suíça, mostram algo aparentemente banal: um pequeno abrigo de madeira para resíduos. Mas é justamente nessa banalidade que está a lição. Numa vila alpina do Oberland Bernês, marcada por chalés tradicionais e forte vocação turística, o acondicionamento dos resíduos não aparece como apêndice feio da paisagem, mas como parte dela. Em vez de sacos expostos, caçambas improvisadas ou recipientes sem mediação urbana, vê-se um pequeno volume arquitetônico que dialoga com o entorno e quase se confunde com ele. Kandersteg é apresentada pelo turismo suíço como uma vila de chalés centenários e paisagem alpina preservada; o abrigo de resíduos, ali, parece obedecer à mesma lógica de sobriedade e integração.

O mais interessante é que o abrigo não é apenas cenográfico. Nas fotos, vê-se um compartimento simples, com grandes aberturas, onde estão posicionados contêineres móveis, metálicos e plásticos, protegidos da vista direta da rua e do impacto climático. Os adesivos laranja indicam que o espaço é destinado a sacos tarifados, o que coincide com a orientação oficial do município: em Kandersteg, o lixo domiciliar deve ser colocado em sacos oficiais da AVAG ou em sacos com selo de tarifa, podendo ser destinado ao abrigo de contêiner mais próximo ou ao ponto de coleta do bairro. Não se trata, portanto, apenas de guardar recipientes; trata-se de organizar um sistema de descarte com regra, tipologia e lugar definido.

A função prática do abrigo aparece com ainda mais clareza quando se lê a orientação municipal sobre a coleta. A comuna informa que a coleta do lixo comum é semanal, às terças-feiras, e recomenda que os sacos só sejam colocados do lado de fora na manhã do próprio dia, porque animais silvestres e cães gostam de rasgá-los. Esse detalhe ajuda a entender a inteligência do abrigo. Em uma localidade alpina, com presença de fauna, inverno rigoroso e forte preocupação com a ordem do espaço público, o problema não é apenas recolher o resíduo. É evitar que ele apareça prematuramente, se espalhe ou degrade a paisagem antes da coleta. O abrigo é, nesse sentido, uma solução de acondicionamento, proteção e urbanidade ao mesmo tempo.

Esse pequeno equipamento também expressa algo maior do sistema suíço de gestão de resíduos. A Suíça mantém uma ampla rede de pontos gratuitos para papel, papelão, vidro, PET, latas e outros recicláveis, ao mesmo tempo em que utiliza um modelo de pay-as-you-throw, isto é, cobrança por saco de lixo domiciliar, para estimular a separação na origem e reduzir o volume do rejeito comum. Em Kandersteg, isso aparece de forma muito concreta: o lixo domiciliar segue para sacos tarifados e abrigos específicos; outros materiais têm canais próprios de entrega. O abrigo da foto não é, portanto, apenas um “container house”. Ele é a expressão física de uma política pública que usa infraestrutura e regra econômica para induzir comportamento.

Há uma lição interessante aí para quem pensa limpeza urbana a partir da experiência brasileira. Muitas vezes, entre nós, a discussão sobre acondicionamento de resíduos fica presa ao recipiente: plástico ou metal, 240 ou 1.200 litros, carga lateral ou traseira, durabilidade ou vandalismo. Tudo isso importa, mas não basta. As fotos de Kandersteg lembram que acondicionamento também é desenho urbano. O abrigo não aumenta a sofisticação do sistema por exuberância tecnológica; ele melhora a relação entre o resíduo e o espaço público. Esconde sem negar, protege sem monumentalizar, organiza sem transformar o lixo em paisagem.

No fim, o que essas imagens mostram é uma forma madura de tratar uma necessidade prosaica. O resíduo continua existindo, os contêineres continuam lá, a coleta continua necessária. Nada foi magicamente resolvido. Mas houve o cuidado de criar uma mediação entre o descarte e a rua. Em Kandersteg, até o lixo parece lembrar que a cidade — ou a vila — não é apenas lugar de circulação de coisas, mas também de preservação da paisagem. Talvez essa seja a melhor síntese: civilidade urbana começa muito antes do caminhão de coleta; começa no modo como se decide onde e como o resíduo vai esperar por ele.

Papeleiras na Toscana: pequeno equipamento, grande mensagem


As imagens mostram algo que costuma passar despercebido na limpeza urbana: a papeleira como instrumento de educação e não apenas de descarte. Em vez de um recipiente genérico para “qualquer lixo”, vê-se um conjunto com identificação clara por fração — nas fotos, pelo menos multimateriale e indifferenziato — em linha com a lógica de separação adotada por Sei Toscana, gestora do serviço de resíduos em boa parte da Toscana sul. No site da operadora, a coleta diferenciada é apresentada justamente como separação por tipo e natureza do resíduo, e o multimaterial aparece como uma fração específica do sistema. A lição é simples: até a papeleira de rua pode ser pensada como extensão pedagógica da coleta seletiva, e não como um simples recipiente residual.

O que mais me interessa, porém, é o desenho discreto do equipamento. As papeleiras não tentam chamar atenção por exuberância; elas procuram conviver com o lugar. Em um ambiente de pedra, muralha e tecido urbano histórico, o mobiliário é sóbrio, compacto e funcional. No Percolado, isso conversa com uma ideia recorrente: limpeza urbana não se resume ao caminhão ou à varrição; ela também depende da inteligência do ponto de entrega. Quando a papeleira informa, orienta e se integra ao espaço, ela ajuda a transformar comportamento sem precisar de discurso grandioso. É um detalhe pequeno, mas desses detalhes é feita a civilidade urbana.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Inovação para um problema que quase não existe

Rio vai testar drone para evitar afogamentos e bicicletas aquáticas para limpar lagoas

Classificado em primeiro lugar no processo seletivo organizado pelo município, o projeto da BiClean levou dois anos entre a concepção e a obtenção da patente. A ideia do inventor é iniciar os testes com quatro unidades em uma base na altura do Parque dos Patins na Lagoa Rodrigo de Freitas, em data ainda a ser definida pelo município que vai autorizar os testes para criar um marco regulatório.

A eletricidade para operar os equipamentos que vão coletar resíduos e recolher amostras de água virá de um painel solar e da disposição de curiosos em pedalar para testar o aparelho.

— Um dos objetivos é promover a educação e a consciência ambiental de que o lixo despejado irregularmente vai parar em rios e lagoas. Devemos oferecer algum brinde com base no volume de lixo recolhido — explicou o criador do BiClean, Marcius Victório da Costa.



A proposta da BiClean pode ser simpática como peça de inovação urbana, mas parte de uma premissa que, para quem frequenta a Lagoa Rodrigo de Freitas diariamente, parece frágil. Como remador, percorro suas águas praticamente todos os dias, por cerca de uma hora, e afirmo com tranquilidade: não existe resíduo sólido flutuante na Lagoa em volume que justifique tanta preocupação com equipamentos embarcados de limpeza. A imagem de um espelho d’água tomado por lixo simplesmente não corresponde à realidade observável. Por isso, antes de celebrar a novidade, convém perguntar se o problema que ela pretende resolver existe de fato na escala sugerida.

A notícia informa que o projeto selecionado pelo Sandbox.Rio pretende testar bicicletas aquáticas elétricas para coleta de resíduos flutuantes e microplásticos, com base na altura do Parque dos Patins, unindo limpeza, lazer e educação ambiental. Como conceito, a ideia é engenhosa. Como resposta operacional à Lagoa, nem tanto. O ponto principal não é discutir se o equipamento funciona, mas se há demanda real para ele. E, do ponto de vista de quem conhece a Lagoa por dentro, remando sobre suas águas e observando sua superfície dia após dia, a resposta parece ser negativa: o lixo flutuante é raro, eventual e insuficiente para justificar a criação de uma nova camada de aparato náutico.

Essa percepção prática ajuda a relativizar também a lógica da já conhecida “marinha laranja”. Há algum tempo se insiste em dispor embarcações, catamarãs e equipamentos de limpeza como se a Lagoa exigisse vigilância constante contra resíduos sólidos flutuantes. Não exige. A exceção costuma ocorrer depois de chuvas fortes, quando algum material vegetal, galhos ou detritos carreados chegam ao espelho d’água. Mesmo nesses casos, o vento da tarde normalmente empurra esse material para as margens, onde a remoção pode ser feita de forma simples e proporcional. Transformar essa exceção em justificativa para manter uma rotina de limpeza embarcada permanente parece menos uma necessidade ambiental e mais uma superestimação do problema.

É importante notar que essa crítica não nega a utilidade de intervenções pontuais. Se houver episódio extraordinário, chuva intensa, acúmulo localizado ou necessidade específica de manejo, a atuação embarcada pode fazer sentido. O que não parece razoável é tratar a Lagoa como se houvesse ali um passivo contínuo de resíduos sólidos flutuantes, quando a observação direta indica exatamente o contrário. A inovação, nesse caso, corre o risco de repetir um vício comum da gestão pública: criar solução vistosa para um problema pequeno. O equipamento passa a existir não porque a necessidade o impõe, mas porque a narrativa da inovação pede um objeto visível, fotogênico e facilmente comunicável.

A questão da qualidade da água existe, claro, mas é outra discussão. A própria Prefeitura mantém monitoramento sistemático da Lagoa, com boletins regulares sobre parâmetros físico-químicos e biológicos. Esse acompanhamento é importante e ajuda a compreender a dinâmica ambiental do sistema lagunar. Mas não se deve confundir qualidade da água com presença visível de resíduos sólidos flutuantes. Uma coisa é monitorar a saúde ambiental do corpo hídrico; outra, bem diferente, é sugerir que há lixo boiando em quantidade tal que justifique novas embarcações de limpeza. O problema principal da BiClean, portanto, não é tecnológico. É de diagnóstico.

No fim, a melhor contribuição que alguém pode dar a esse debate talvez seja justamente a da experiência cotidiana. Quem observa a Lagoa da margem vê uma paisagem. Quem a percorre remando todos os dias vê a realidade do espelho d’água. E essa realidade, ao menos hoje, não revela um ambiente carregado de lixo flutuante. Revela uma Lagoa limpa, com ocorrências episódicas e localizadas, que não parecem justificar nem a antiga ênfase da “marinha laranja” nem o entusiasmo imediato com a BiClean. Antes de multiplicar equipamentos, convinha reconhecer um dado simples: o resíduo sólido flutuante na Lagoa Rodrigo de Freitas não é, hoje, um problema na escala que essas soluções fazem supor.