Translate

domingo, 20 de setembro de 2026

O pequeno elétrico que fazia de tudo

 Durante os dias em que trabalhei no KISC, havia um veículo que aparecia em quase todo lugar.

André usava muito aquele pequeno utilitário elétrico. Servia para circular pelo centro, transportar ferramentas e materiais, puxar reboques, movimentar contêineres e atender pequenas demandas espalhadas por uma área relativamente grande.

Não era o equipamento mais impressionante do KISC. Talvez por isso tenha me interessado tanto.


Pelas identificações visíveis e pelas características do veículo, trata-se de um CFMOTO U6 EV, um UTV elétrico — Utility Task Vehicle, literalmente um veículo utilitário para tarefas. A definição é melhor do que parece: ele não foi concebido essencialmente para transportar pessoas de um lugar para outro. Foi feito para trabalhar.

O fabricante informa motor elétrico de 35 kW, torque máximo de 74 Nm, tração selecionável 2x4/4x4, caçamba com capacidade para 250 kg e capacidade de reboque declarada de até 800 kg. A bateria de 15,29 kWh permite, nas condições de ensaio informadas pela empresa, autonomia de até 110 km. 

Mas esses números explicam menos o equipamento do que vê-lo trabalhando.

Num momento, estava levando pessoas e ferramentas. Em outro, puxava um pequeno reboque com um contentor. Em outra tarefa, apareceu com uma carreta maior transportando um recipiente metálico do KISC.



Foi aí que percebi a qualidade que mais me interessava: versatilidade.

Em operações de manutenção, limpeza ou infraestrutura, há uma infinidade de deslocamentos que não justificam um caminhão e são pesados demais para serem feitos manualmente. Uma ferramenta precisa ir para outro ponto. Um contentor precisa ser deslocado. Material precisa chegar a uma equipe. Alguma coisa quebrou do outro lado da propriedade.

Individualmente, são pequenas tarefas.

Somadas, consomem uma parte importante do dia.

O pequeno utilitário ocupa justamente esse espaço entre o carrinho de mão e o veículo de maior porte.

Para quem trabalhou muitos anos com serviços urbanos, a questão não é trivial. Existe uma tendência natural de olhar para os equipamentos maiores: caminhões, máquinas, compactadores. São eles que aparecem nas planilhas de investimentos e nas fotografias institucionais.

Mas uma operação pode perder muito mais tempo nos pequenos deslocamentos do que imaginamos.

O equipamento adequado não é necessariamente o maior. É aquele que reduz esforço e tempo sem levar capacidade ociosa junto.


O fato de ser elétrico acrescenta algumas vantagens particularmente adequadas ao KISC. O veículo opera sem emissões pelo escapamento e com menos ruído e vibração que um equivalente a combustão — características interessantes num centro de atividades ao ar livre onde trabalho, hospedagem e convivência acontecem praticamente no mesmo espaço. A própria CFMOTO cita manutenção de áreas, hotelaria e gestão de locais turísticos entre as aplicações previstas para o modelo.

Eu evitaria, entretanto, transformar isso num elogio genérico à eletrificação.

A pergunta operacional vem antes da tecnologia.

Qual é a distância percorrida? Quanto precisa carregar? Quanto precisa rebocar? Há disponibilidade para recarga? Quantas horas trabalha por dia? Qual equipamento ele substitui?

Se as respostas forem favoráveis, o elétrico passa a fazer sentido não porque é moderno, mas porque é adequado.

Essa distinção me parece importante.

Passei boa parte da vida profissional vendo equipamentos serem escolhidos pelas suas características técnicas. Potência, capacidade, velocidade, autonomia. Tudo isso importa. Mas o equipamento só mostra seu valor quando encontramos o lugar certo para ele dentro do processo.

Em Kandersteg, aquele pequeno UTV tinha encontrado o seu.

Não fazia uma única grande tarefa.

Fazia dezenas de pequenas tarefas que permitiam que as grandes acontecessem.

Talvez seja uma boa definição de apoio operacional.

O equipamento que quase nunca é protagonista, mas cuja ausência todo mundo percebe.

Quando o contêiner já nasce pensando na operação

 Entre as coisas que me chamaram a atenção em Kandersteg, uma das mais simples foi também uma das mais inteligentes: um par de contêineres de resíduos preparado para ser movimentado em conjunto.

À primeira vista, eram apenas dois contentores sobre rodas, como tantos outros. Mas, olhando melhor, aparecia algo diferente. Cada unidade tinha, na sua base, uma estrutura metálica galvanizada. De um lado, um engate com pino e mola; do outro, uma barra articulada. Quando conectados, os dois contêineres passavam a formar um pequeno conjunto rebocável.

Não era um improviso. Era equipamento pensado para operação.



O princípio é simples. Em vez de deslocar cada contentor isoladamente, ou empurrar manualmente recipientes pesados por distâncias maiores, o sistema permite reunir duas unidades e puxá-las como um só conjunto, provavelmente por um pequeno veículo de serviço. Isso reduz esforço físico, economiza tempo e dá mais previsibilidade à movimentação.

O detalhe importante é que a solução não depende de um grande veículo compactador nem de uma infraestrutura sofisticada. Ela atua num ponto anterior da cadeia: a logística interna do resíduo. Antes de recolher, transportar para o destino final ou descarregar, alguém precisa mover o material de um ponto ao outro. E é justamente nessa etapa intermediária que muitas operações perdem eficiência.

Em geral, quando se pensa em gestão de resíduos, a atenção vai para os grandes elementos: coleta, destinação, reciclagem, custos. Mas o funcionamento cotidiano depende muito desses pequenos dispositivos que quase nunca aparecem. Um contêiner com engate não resolve o sistema inteiro. Resolve uma etapa. E, às vezes, é isso que faz diferença.


Pela imagem, dá para perceber que a barra de reboque é articulada e possui um sistema de retenção com corrente. A corrente parece funcionar como elemento de segurança e de fixação quando o equipamento está parado. Não se trata apenas de puxar; trata-se de puxar com controle, evitando desacoplamentos acidentais ou deslocamentos indesejados.

Há também outro dado importante: o engate não foi incorporado a um contêiner especial de fábrica, pelo menos não aparentemente. O que se vê é um acessório metálico instalado sobre contentores plásticos padronizados, o que sugere uma lógica de adaptação operacional. Em vez de substituir tudo, agrega-se inteligência ao equipamento já existente.

Esse ponto merece atenção. Muitas vezes se associa melhoria operacional a grandes investimentos ou a soluções tecnologicamente sofisticadas. Aqui, o ganho parece vir de outra fonte: desenhar melhor o uso de um objeto banal.


O engate com mola também é revelador. Ele sugere alguma elasticidade mecânica no acoplamento, provavelmente útil para absorver pequenas variações de tração, irregularidades do piso ou movimentos de partida e parada. Não afirmo aqui a especificação técnica do sistema, apenas o que a observação permite concluir: o conjunto foi construído para suportar uso frequente em ambiente de serviço, não para ser uma gambiarra eventual.

Os refletores triangulares vermelhos reforçam essa leitura. Eles introduzem visibilidade e segurança num equipamento que pode circular em áreas compartilhadas, próximas a vias de serviço, pátios ou zonas de manobra. Os freios amarelos nas rodas também aparecem como parte desse cuidado: o contentor precisa ser fácil de mover, mas também fácil de imobilizar.

Ou seja, o equipamento expressa uma lógica muito clara: mobilidade com controle.

Isso me pareceu interessante porque mostra uma forma madura de pensar a operação. Não se espera que o trabalhador “dê um jeito”. Não se transfere para a força física ou para a improvisação aquilo que pode ser resolvido pelo desenho do equipamento. O objeto já incorpora uma resposta para um problema recorrente.

Em ambientes de alta rotina, isso vale muito. Quando uma tarefa se repete todos os dias, qualquer pequena melhoria se multiplica. Um minuto economizado por operação, um esforço evitado, um risco reduzido, uma movimentação mais estável — tudo isso, isoladamente, parece pouco. Mas é justamente desse acúmulo de pequenas racionalidades que nasce uma operação bem ajustada.

Há uma lição discreta aqui. Em serviços urbanos, muitas vezes se fala em inovação como se ela estivesse apenas em softwares, sensores ou grandes máquinas. Mas há inovação também quando alguém olha para um contêiner e pergunta: por que ele ainda está sendo movido do jeito mais difícil?

No fim, o que vi ali foi isso: não um equipamento espetacular, mas uma solução concreta para um problema concreto.

E talvez seja exatamente esse o tipo de inteligência de que mais precisamos nos serviços do dia a dia.

A lixeira que agradece — e faz muito mais do que isso

 Depois de mais de trinta anos trabalhando com limpeza urbana, é difícil uma lixeira me surpreender.

Mas uma, numa trilha próxima ao Oeschinensee, conseguiu.

À primeira vista, parecia apenas um equipamento robusto, revestido com uma fotografia da paisagem e instalado de maneira bastante discreta no caminho. Depois reparei no painel solar sobre a tampa, no pedal junto à base e num pequeno visor.

Quando o usuário descartava o resíduo, aparecia uma mensagem simples:

THANKS.

Fui procurar saber o que havia por trás daquele “obrigado”.

Pelas características visíveis, o equipamento pertence à família Ultra Fill, da fabricante holandesa Mr. Fill: lixeiras urbanas autocompactadoras alimentadas por energia solar. O desenho coincide com os modelos de 120 litros da linha — painel solar superior, abertura frontal de aço inoxidável, pedal galvanizado, visor eletrônico e indicador luminoso de nível. Sem acesso à placa técnica da unidade fotografada, prefiro não afirmar qual variante específica estava instalada ali. Mr-Fill

A lógica do equipamento é interessante porque transforma uma lixeira, normalmente o ponto mais simples de um sistema de limpeza, numa pequena instalação operacional autônoma.

O pedal não aciona a compactação. Ele abre a portinhola sem necessidade de contato com as mãos. O usuário deposita o resíduo, a portinhola fecha e o material cai no recipiente interno. Sensores acompanham o nível de enchimento. Quando o volume atinge determinado ponto, o compactador elétrico entra em funcionamento automaticamente. A energia vem do painel solar e fica armazenada numa bateria interna. Mr-Fill

O fabricante informa força de prensagem de 6000 N nos modelos de 120 litros e capacidade efetiva várias vezes superior à de uma lixeira convencional, justamente porque o resíduo é comprimido dentro do próprio equipamento. Na linha Ultra Fill 120 Little, por exemplo, a capacidade equivalente declarada chega a 600–840 litros. Mr-Fill

Ou seja: a lixeira não ficou maior.

Ela aprendeu a aproveitar melhor o espaço que já tinha.


Há outro aspecto que, para quem já administrou coleta, talvez seja ainda mais interessante.

Quando o equipamento entende que não consegue mais compactar o conteúdo, registra a condição de cheio, bloqueia a abertura e envia a informação para uma plataforma de gestão. O sistema permite monitoramento remoto e comunicação do nível de enchimento, criando a possibilidade de programar a coleta pela necessidade real, em vez de simplesmente visitar cada ponto numa frequência fixa para descobrir se precisa ser esvaziado. 

Aqui a tecnologia começa a mexer na parte cara da limpeza urbana.

Lixeira é barata perto de rota, veículo, combustível, manutenção e hora de trabalho. Se o recipiente aumenta sua capacidade pela compactação e ainda informa quando necessita atendimento, o ganho potencial não está apenas em evitar transbordamento. Está em reduzir viagens desnecessárias.

É uma mudança pequena na aparência e grande na lógica operacional.

Durante boa parte da minha carreira, a pergunta era: com que frequência precisamos passar para esvaziar esta lixeira?

Nesse sistema, a pergunta pode ser outra:

quais lixeiras precisam ser esvaziadas hoje?

Não parece uma diferença monumental. Para quem monta uma operação de coleta, é.


E então voltamos ao “THANKS”.

O visor não existe apenas para ser simpático. O manual prevê mensagens ao usuário, indicação de recipiente cheio, travamento e informações de funcionamento. A comunicação faz parte do equipamento. O fabricante inclusive oferece módulos capazes de agradecer pela utilização. 

Isso me agradou porque fecha o ciclo de uma maneira curiosa.

Por dentro, há sensores, bateria, painel solar, comunicação remota e um compactador com alguns milhares de newtons de força.

Por fora, a interface é quase infantil:

aperte o pedal, jogue o lixo.

E receba um obrigado.

Há muita tecnologia que se apresenta ao usuário exigindo que ele aprenda a utilizá-la. Essa faz o contrário. Esconde a complexidade para tornar o gesto mais simples.

Talvez seja aí que esteja a parte mais inteligente daquela lixeira.

Não no painel solar.

Não no sensor.

Nem sequer no compactador.

Mas no fato de que toda essa engenharia trabalha para que o usuário continue fazendo exatamente aquilo que deveria fazer numa lixeira comum.

Jogar o lixo dentro.

O resto é problema do sistema.

E, quando um serviço está bem desenhado, talvez seja exatamente assim que deva ser.

O orgânico não aceita desaforo

 No KISC, a separação dos resíduos não termina no papel, no vidro ou nos metais. Os hóspedes recebem orientação para separar também os restos de alimentos, que seguem um fluxo próprio no sistema de reciclagem do centro. O próprio KISC informa que os grupos acampados recebem um kit para separar lixo comum, plásticos, papel, garrafas e food waste antes de levar tudo ao centro de reciclagem. 

Containers para material orgânico

Essa separação tem uma razão que vai além da limpeza. Resíduo orgânico separado corretamente deixa de ser apenas algo a ser eliminado e pode voltar ao sistema como recurso.

Na região existe, por exemplo, a Biogasanlage Frutigland, em Frutigen, que recebe resíduos alimentares de estabelecimentos gastronômicos e instituições do Kandertal e os trata por digestão anaeróbia. O processo produz biogás, utilizado para gerar eletricidade e calor; uma parte é ainda purificada e transformada em combustível. A própria instalação informa que procura trabalhar majoritariamente com materiais da região para reduzir as distâncias de transporte. 

Não encontrei, entretanto, documentação pública suficiente para afirmar que o resíduo alimentar específico do KISC seja destinado a essa instalação. O que pude confirmar é a separação do food waste no centro e a existência desse fluxo regional de valorização para resíduos da gastronomia. É uma distinção importante entre aquilo que observei e aquilo que consigo documentar.

Há ainda outro fluxo orgânico na região. Os resíduos verdes recebidos pela AVAG seguem para o Biomassezentrum Spiez, onde são submetidos à fermentação para produção de energia e, depois, utilizados na produção de composto de qualidade. 

É justamente nesse ponto que aparece uma característica que me interessou particularmente: resíduo orgânico só tem valor quando continua sendo resíduo orgânico.

Plástico, vidro, metal ou outros materiais misturados à fração comprometem o processo. A AVAG é bastante explícita sobre isso. Sacos plásticos, inclusive alguns vendidos como compostáveis, podem permanecer depois do processo e acabar no composto e, posteriormente, no solo. Por essa razão, a empresa recomenda que nem mesmo esses sacos sejam utilizados na coleta de resíduos verdes. 

A contaminação também tem consequência econômica. Nas condições de recebimento da AVAG, uma carga de material verde contaminada pode deixar de ser aceita como Grüngut e passar a ser cobrada pela tarifa de lixo comum e resíduos volumosos.

Esse detalhe diz muito sobre o sistema.

No texto anterior, mostrei como separar recicláveis antes de entregá-los transfere parte da responsabilidade para quem gera o resíduo. Com os orgânicos, a exigência vai um pouco além: não basta colocar alguma coisa no recipiente certo. É preciso preservar a qualidade daquela fração.

Uma casca de legume pode ser matéria-prima para outro processo. A mesma casca misturada a plástico, embalagem ou objeto inadequado passa a carregar um problema junto com ela.

Durante muitos anos de trabalho com resíduos, vi a coleta seletiva ser tratada como uma decisão binária: separar ou não separar. Kandersteg me lembrou de uma etapa seguinte.

É possível separar mal.

E separar mal pode significar perder justamente o valor que justificava a separação.

A economia circular depende de tecnologia, instalações e mercado para os materiais recuperados. Mas começa antes de tudo isso, num gesto muito menos sofisticado: não contaminar aquilo que ainda pode ser aproveitado.

No caso dos orgânicos, a lição é particularmente clara.

Não basta separar. É preciso separar direito.

Reciclar é separar antes de sair de casa

 No meu segundo dia como helper, fiz com André duas viagens de caminhão levando o material reciclável acumulado no KISC até o centro de reciclagem de Kandersteg. Alguns dias depois, cumpri também um turno no centro de reciclagem do próprio KISC, recebendo e organizando os resíduos trazidos pelos grupos hospedados. Foram duas experiências complementares: primeiro vi a separação acontecer dentro de um grande gerador; depois acompanhei o material seguindo para o sistema da cidade. 



A primeira correção que precisei fazer nas minhas próprias anotações foi conceitual. Minha impressão inicial era dizer que Kandersteg “não tinha coleta seletiva”, porque eu não via um caminhão passando de casa em casa recolhendo recicláveis separados.

Na verdade, há um sistema seletivo; o que muda é a forma de coleta.

Em vez de o serviço buscar grande parte das frações recicláveis na porta do morador, utiliza-se fortemente a lógica de entrega voluntária, conhecida em alemão como Bringsystem. O gerador separa o material e o leva até o ponto de recebimento. O sistema regional da AVAG, que atende municípios da região, estabelece como princípio que os resíduos sejam entregues já separados e mantém fluxos específicos para papel, papelão, metais, PET de bebidas, vidro e várias outras frações. 

Essa diferença parece apenas logística, mas altera bastante a responsabilidade de quem gera o resíduo.

No centro que visitei em Kandersteg, vi moradores chegarem de carro ou com pequenos volumes e descarregarem materiais que já haviam separado em casa. Papel seguia para um local, papelão para outro, metais e alumínio tinham seus recipientes, assim como vidro e outras frações. Havia até destinação específica para cápsulas de café. No caso do KISC, como o volume gerado era muito maior, o mesmo princípio exigia caminhão em vez de porta-malas. 



Não havia ali a ideia de entregar uma mistura de recicláveis para que alguém, mais adiante, descobrisse o que havia dentro dela. A separação começava antes.

Isso me chamou atenção porque grande parte da discussão brasileira sobre coleta seletiva costuma se concentrar na etapa da coleta: qual caminhão passa, em que dia, com que frequência e qual população é atendida. São questões fundamentais, principalmente em cidades grandes e socialmente complexas. Mas Kandersteg me fez olhar novamente para uma etapa anterior: quanto da responsabilidade pela qualidade do material permanece com quem o gerou?

No Bringsystem, a resposta é bastante clara. O usuário não entrega apenas “recicláveis”. Entrega papel, papelão, vidro, metal ou outra fração segundo as regras estabelecidas. A conveniência é menor do que colocar tudo diante de casa, mas o material chega ao sistema com um grau de segregação que facilita os passos seguintes.


O centro de reciclagem do KISC reproduzia essa mesma lógica em escala interna. Durante o turno em que trabalhei ali, os grupos levavam seus resíduos e os colocavam nas categorias previstas. O trabalho não era abrir sacos misturados para recuperar materiais depois. Era orientar e manter uma separação que deveria acontecer desde o descarte. 

Esse detalhe liga este texto ao anterior sobre a cobrança do lixo comum. Quando colocar tudo no rejeito tem um custo visível e existem alternativas para entregar materiais separados, o sistema cria dois sinais na mesma direção: misturar custa; separar reduz o que precisa entrar no fluxo mais caro.

Isso não significa que o modelo de Kandersteg possa ser transportado simplesmente para uma grande cidade brasileira. Distâncias, densidade urbana, disponibilidade de automóvel, desigualdade social e escala operacional mudam completamente a discussão. O que funciona numa pequena comunidade alpina pode ser impraticável em bairros onde levar recicláveis até um ponto de entrega significaria caminhar quilômetros.

Mas o mecanismo vale a observação.

Coleta seletiva não começa necessariamente no caminhão.

Começa quando o gerador entende que “reciclável” não é uma categoria única e que separar é parte do serviço, não apenas uma gentileza prestada ao sistema.

Em Kandersteg, antes de o material chegar ao centro de reciclagem, uma parte importante do trabalho já foi feita.

Foi feita dentro de casa.




Quando jogar fora custa dinheiro

 Uma das primeiras coisas que me chamou atenção na gestão de resíduos em Kandersteg não estava no centro de reciclagem. Estava no lixo comum.

Na região, o descarte do resíduo doméstico não é percebido pelo morador como um serviço inteiramente diluído nos impostos. Há uma cobrança variável ligada à quantidade descartada. Em Kandersteg são utilizados os sacos oficiais da AVAG ou sacos identificados com a correspondente marca de taxa. O próprio material de informação local orienta que o lixo doméstico seja colocado nesses sacos ou identificado com a marca apropriada.

A lógica é simples: quanto mais lixo comum você produz, mais sacos tarifados precisa comprar.


Esse modelo não é apenas uma peculiaridade local. Ele traduz o princípio do poluidor-pagador adotado na política suíça de resíduos. A legislação determina que os custos da destinação dos resíduos municipais sejam repassados aos responsáveis por sua geração por meio de tarifas ou outras cobranças, considerando, entre outros fatores, a natureza e a quantidade do resíduo entregue. O órgão ambiental federal também registra a cobrança sobre sacos de lixo como uma das formas utilizadas para financiar os resíduos municipais não separados. 

Na área atendida pela AVAG, essa cobrança ganha uma forma muito concreta. A empresa coordena a produção e a arrecadação dos sacos e das etiquetas tarifadas. Depois de descontados os custos administrativos do sistema, a receita retorna aos municípios e ajuda a financiar coleta, transporte e tratamento térmico dos resíduos. A AVAG informa atualmente, por exemplo, preços de CHF 1,90 para o saco ou etiqueta de 35 litros e CHF 3,20 para 60 litros. Existe ainda a possibilidade de uma taxa básica definida por cada município, independente dessa cobrança variável. 

Esse último detalhe é importante. Não se trata simplesmente de “pagar pela coleta comprando um saco”. O sistema de financiamento é mais amplo. O que interessa, para a reflexão, é que uma parcela do custo varia de maneira visível conforme o volume de lixo comum produzido.

Foi isso que me chamou atenção.

Durante boa parte da minha vida profissional trabalhei com campanhas para estimular redução, separação e reciclagem. É natural que seja assim. Educação ambiental é necessária. Mas ela trabalha principalmente com uma mensagem moral: separe porque é correto, recicle porque é bom para o ambiente, produza menos resíduos porque a sociedade precisa disso.

Kandersteg acrescenta outro argumento.

Se você produzir menos lixo comum, também paga menos.

Não é preciso escolher entre consciência ambiental e incentivo econômico. Os dois podem trabalhar juntos. A pessoa pode separar porque acredita que é correto fazê-lo e, simultaneamente, porque percebe uma consequência financeira em não colocar no saco tarifado aquilo que poderia seguir outro caminho.



Esse mecanismo também altera uma percepção muito comum sobre os serviços de limpeza urbana. Para o usuário, o custo do lixo normalmente é invisível. Depois que colocamos um saco para fora de casa, ele desaparece e, com ele, desaparece também a percepção da cadeia de coleta, transporte e tratamento que alguém precisa financiar.

O saco tarifado devolve uma parte dessa conta ao momento da decisão.

Cada novo volume de lixo comum passa a ter preço.

Naturalmente, isso não significa que bastaria adotar sacos pagos em qualquer cidade para resolver o problema dos resíduos. Um sistema desse tipo depende de fiscalização, alternativas adequadas de separação e reciclagem, infraestrutura e condições sociais que não podem ser ignoradas. O mecanismo observado em Kandersteg pertence a um contexto específico.

Mas o princípio merece atenção.

Na gestão pública, frequentemente tentamos alterar comportamentos dizendo às pessoas o que deveriam fazer. Às vezes esquecemos que o desenho econômico do serviço também transmite mensagens.

Se misturar tudo e descartar custa mais, enquanto separar corretamente permite reduzir o volume tarifado, o sistema deixa de pedir apenas consciência.

Ele cria uma consequência.

Talvez seja essa a diferença que mais me interessou: em Kandersteg, jogar fora não é apenas um gesto ambiental. É também uma decisão econômica.

O que uma organização pode aprender com Kandersteg — e o que não pode copiar

 Depois de alguns dias trabalhando no KISC, é tentador sair com uma lista de “boas práticas”. Briefings frequentes, procedimentos escritos, aprendizagem pelo trabalho, liderança próxima, forte identidade coletiva. Tudo isso existe e ajuda a explicar por que aquela organização consegue funcionar com tanta gente chegando e partindo. 

Mas copiar essas práticas seria, talvez, a maneira mais pobre de aprender com Kandersteg.

O KISC funciona dentro de condições muito particulares. Grande parte de seus voluntários escolheu estar ali, já possui longa ligação com o escotismo e chega predisposta a viver uma experiência internacional. Há uma cultura comum anterior à própria organização, forte convivência entre as pessoas e um período de permanência que, embora produza rotatividade, também dá à experiência um caráter excepcional. 

Uma empresa pública, uma secretaria municipal ou uma grande organização privada não pode partir dessas mesmas condições. As pessoas não foram necessariamente selecionadas por afinidade com uma causa. Permanecem por anos ou décadas. Têm vínculos, interesses, histórias profissionais e expectativas diferentes. A organização precisa funcionar não apenas quando existe entusiasmo, mas também quando ele falta.



Por isso, o aprendizado mais interessante não está em perguntar “o que o KISC faz?”, mas “que problema aquela prática está tentando resolver?”

O briefing da manhã não precisa ser copiado às oito horas em ponto; interessa perceber que uma operação dispersa precisa criar um momento em que todos compartilhem a mesma informação. O checklist plastificado não deve virar mais um formulário numa organização já burocratizada; interessa entender que, quando pessoas mudam, alguma parte do conhecimento precisa permanecer. O handover não vale porque tem nome em inglês, mas porque quem sai possui informações que quem chega ainda não tem.

A diferença é importante.

Copiar a forma preservando o ritual e esquecendo a função é uma boa maneira de fabricar aquilo que costumo chamar de sentinelas: práticas que continuam sendo executadas muito depois de todos terem esquecido por que foram criadas.



Há outros princípios que me parecem atravessar contextos com mais facilidade. Aproximar quem decide de quem executa. Criar canais curtos de retorno sobre o trabalho. Fazer com que quem sabe ensine quem está chegando. Dar às pessoas alguma compreensão de como a tarefa individual interfere no resultado coletivo. Rever procedimentos sem perder o conhecimento que eles guardam.

Nada disso exige uniforme rosa, montanhas suíças ou formação escoteira.

Mas até esses princípios precisam ser adaptados.

No KISC, por exemplo, uma parte relevante da confiança cotidiana se apoia numa identidade escoteira compartilhada. Em outra organização, essa confiança talvez precise ser sustentada por mecanismos diferentes: qualificação profissional, clareza de responsabilidades, supervisão, incentivos, estabilidade das equipes ou uma cultura construída ao longo de muitos anos. O mecanismo pode ser transferido. A condição que o torna possível, nem sempre. 

O mesmo vale para o próprio voluntariado. Seria equivocado olhar para jovens que atravessaram países para viver alguns meses em Kandersteg e concluir que uma organização deveria conseguir dos seus empregados o mesmo nível de disposição apenas oferecendo “propósito”. São relações diferentes. A motivação de quem escolhe uma experiência temporária não pode ser usada como régua para julgar quem constrói uma carreira inteira dentro de uma instituição.

Essa talvez tenha sido uma das conclusões mais úteis da experiência.

Kandersteg não me ofereceu um modelo.

Ofereceu comparações.

Fez-me olhar novamente para problemas conhecidos — comunicação, memória institucional, liderança, treinamento, motivação, procedimentos — a partir de uma organização construída em condições muito diferentes daquelas em que trabalhei durante décadas.

É justamente essa diferença que torna a comparação útil.

Quando copiamos uma solução, corremos o risco de importar também circunstâncias que não existem. Quando entendemos por que aquela solução surgiu, podemos procurar outra resposta para o mesmo problema dentro da nossa realidade.

Foi assim que voltei de Kandersteg: não com vontade de reproduzir o KISC em outra organização, mas com algumas perguntas melhores.

E, em gestão, perguntas melhores costumam ser mais transferíveis do que modelos prontos.

Como o KISC transforma valores em trabalho cotidiano

 Foi essa a pergunta que levei comigo para Kandersteg: como uma organização formada em grande parte por jovens voluntários de diferentes países, com elevada renovação de pessoas, consegue transformar valores compartilhados em trabalho cotidiano e manter uma operação funcionando? Ela orientou minhas observações, as conversas que tive e a pequena sondagem com quinze voluntários. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Depois de trabalhar alguns dias como helper, minha resposta é menos simples do que eu imaginava. O KISC não funciona porque encontrou um mecanismo extraordinário de gestão. Funciona porque conseguiu combinar vários mecanismos bastante conhecidos de uma maneira coerente. Propósito, seleção, procedimentos, aprendizagem prática, liderança próxima, comunicação frequente e transmissão de conhecimento se apoiam mutuamente. Quando um deles falha, os outros ajudam a sustentar a operação.



Tudo começa antes mesmo de a pessoa executar a primeira tarefa. Quem vai trabalhar no KISC não chega por acaso. Há uma afinidade anterior com o escotismo e, na maior parte dos casos que observei, uma decisão deliberada de viver aquela experiência. Nas respostas que recebi, apareceram vontade de servir ao movimento, conhecer pessoas e culturas, enfrentar desafios, aprender, viver uma aventura e fazer parte daquela comunidade. Quando perguntei por que o KISC funciona, as respostas voltaram repetidamente a uma ideia muito elementar: as pessoas querem que funcione. Falaram em missão comum, responsabilidade, dedicação, tradição e orgulho de continuar algo construído por gerações anteriores. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Mas vontade não organiza uma operação.

Esse talvez tenha sido um dos pontos mais importantes da experiência. O KISC não aposta apenas no entusiasmo dos voluntários. O propósito é cercado por estrutura.

A rotina do trabalho é marcada por encontros frequentes. Pela manhã há briefing geral e depois as equipes se reúnem por área. Antes do almoço, voltam para informar o que foi concluído, o que ficou pendente e os problemas encontrados. À tarde ocorre nova distribuição de tarefas e, no final do dia, o debriefing. São momentos curtos que mantêm a informação circulando e permitem correções sem transformar a supervisão em vigilância permanente. Relato de Experiência no Kander…

Ao mesmo tempo, há procedimentos por toda parte. Check-in, reciclagem, equipamentos, barracas, horários e rotinas possuem instruções visíveis. Num ambiente em que pessoas de países diferentes chegam com referências diferentes e parte da equipe será substituída poucos meses depois, o procedimento cria uma base comum. Ele reduz a quantidade de coisas que precisam ser reinventadas cada vez que alguém novo chega. Relato de Experiência no Kander…


Ainda assim, os documentos não explicam sozinhos como as pessoas aprendem. Na sondagem, aprender fazendo foi a resposta que apareceu com maior força quando perguntei como os voluntários haviam aprendido “como as coisas são feitas aqui”. Vieram depois a orientação das lideranças e o contato com pessoas mais experientes. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Isso cria uma espécie de corrente de transmissão. Quem chegou antes ensina quem chegou depois. Quem sai faz o handover. O staff de permanência mais longa atravessa as diferentes temporadas. Os procedimentos registram uma parte da experiência. E o restante circula durante o próprio trabalho. Quando perguntei o que evitava que o conhecimento desaparecesse com a rotatividade, justamente esses mecanismos apareceram com maior frequência: voluntários experientes ensinando os novos, passagem de informações entre equipes, continuidade dada por quem fica mais tempo e procedimentos escritos. KISC Through an Outsider’s Eyes…

O mais interessante, porém, talvez seja aquilo que acontece quando chega o trabalho pouco atraente.

Qualquer organização consegue parecer orientada por valores durante uma cerimônia. A dificuldade é manter esses valores quando alguém precisa limpar, carregar, arrumar ou repetir uma tarefa pela terceira vez.

Foi nesse ponto que a cultura ficou mais visível para mim.

Quando perguntei o que leva as pessoas a realizar trabalhos difíceis, repetitivos ou desagradáveis, a responsabilidade perante a equipe apareceu mais do que a supervisão do chefe. Senso de serviço, ajuda entre colegas e a própria dimensão social do trabalho também tiveram forte presença. A simples atribuição da tarefa por uma liderança apareceu muito pouco. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Ou seja, o valor deixa de ser abstrato quando a pessoa entende que sua tarefa interfere no trabalho dos demais.

Serviço deixa de ser uma palavra quando alguém faz o que precisa ser feito mesmo sem glamour. Cooperação aparece quando se divide o trabalho. Responsabilidade aparece quando a pessoa retorna e informa que cumpriu — ou que não conseguiu cumprir — aquilo que assumiu.

A liderança participa desse sistema, mas também de uma maneira menos hierárquica do que eu esperava. Na sondagem, escutar e tratar bem as pessoas e liderar pelo exemplo apareceram muito mais como fontes de respeito do que a posição formal de autoridade. KISC Through an Outsider’s Eyes… O cargo continua definindo responsabilidades, mas a legitimidade cotidiana parece depender da proximidade, do comportamento e da disposição de trabalhar junto.

Há ainda a questão multicultural. Pessoas de línguas e costumes diferentes não passam automaticamente a trabalhar bem juntas apenas porque compartilham o escotismo. Nas respostas abertas surgiram comunicação clara, respeito, disposição para ouvir, adaptação da linguagem, confiança e objetivos comuns. Um respondente descreveu inclusive a necessidade de simplificar palavras ou recorrer a gestos quando o inglês de alguém não era suficiente. KISC Through an Outsider’s Eyes…

O que o KISC parece ter criado, portanto, é um terreno comum. Não apaga diferenças; dá a elas algumas referências compartilhadas: idioma de trabalho, valores escoteiros, regras, procedimentos, rituais e uma missão reconhecível.

Nada disso torna a organização imune aos problemas que existem em qualquer lugar. Os próprios voluntários falaram em excesso de processos, rigidez, cansaço, conflitos interpessoais, treinamento insuficiente em algumas situações e dificuldade para implementar mudanças durante permanências curtas. KISC Through an Outsider’s Eyes… Isso é importante porque impede uma conclusão cômoda segundo a qual “propósito resolve tudo”. Não resolve.

Talvez a resposta à pergunta que levei para Kandersteg esteja justamente nessa combinação.

O KISC começa com pessoas predispostas a compartilhar determinada experiência, mas não depende apenas de sua boa vontade. Transforma valores em rotinas, rotinas em procedimentos, procedimentos em aprendizagem prática e aprendizagem em responsabilidade diante do grupo. Mantém pessoas mais experientes ao lado das novas, cria momentos frequentes de comunicação e faz com que a cultura seja reforçada tanto pelos símbolos quanto pelas pequenas obrigações do cotidiano.

Não existe uma peça isolada responsável pelo funcionamento.

Existe um sistema.

Depois de décadas trabalhando em organizações operacionais, isso talvez tenha sido o que mais me interessou em Kandersteg. Valores compartilhados ajudam muito, mas só passam a sustentar uma organização quando encontram formas concretas de chegar ao trabalho.

O propósito diz por que vale a pena fazer.

O procedimento ajuda a dizer como.

A experiência ensina aquilo que o procedimento não consegue ensinar.

A liderança mantém o grupo orientado.

E a responsabilidade diante dos outros faz com que alguém execute a tarefa mesmo quando ninguém está olhando.

Talvez seja assim que uma organização com tanta gente chegando e partindo consegue continuar.

As pessoas passam. O trabalho permanece. Para que a instituição permaneça também, é preciso transformar aquilo em que se acredita naquilo que se faz todos os dias.

Propósito não resolve tudo

 Ao longo dos dias em Kandersteg, foi fácil entender por que tantas pessoas criam uma ligação forte com o KISC. Há propósito, comunidade, tradição, identidade escoteira e uma disposição evidente para fazer o centro funcionar. Seria igualmente fácil, por isso, sair de lá com uma interpretação excessivamente generosa: a de que basta reunir pessoas identificadas com uma missão para que os problemas habituais das organizações desapareçam.

Eles não desaparecem.

Essa percepção ficou mais clara à medida que os dias de trabalho avançavam. A novidade diminui, o corpo começa a sentir a repetição das tarefas e aquilo que no primeiro dia parece uma experiência diferente passa a ser simplesmente trabalho. Limpar, carregar, organizar, mover equipamentos, preparar materiais e cumprir uma rotina continuam exigindo esforço mesmo quando se acredita no que se está fazendo.


A sondagem que fiz com os voluntários ajudou a equilibrar minhas próprias impressões. Quando pedi que completassem a frase “KISC às vezes não funciona tão bem quanto poderia porque...”, apareceram críticas bastante concretas. Houve referências a excesso de processos, pouca flexibilidade, volume de trabalho capaz de gerar cansaço, conflitos interpessoais, pouca formação formal para alguns helpers e a dificuldade permanente de receber pessoas novas e inexperientes. Também apareceu a percepção de que voluntários de curta permanência nem sempre dispõem de tempo ou recursos para transformar em mudança aquilo que percebem que poderia ser melhorado. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Nada disso contradiz o que escrevi anteriormente sobre procedimentos, cultura ou propósito. Na verdade, mostra o outro lado das mesmas forças.

Os procedimentos ajudam uma organização com grande renovação de pessoas a preservar conhecimento e estabelecer padrões. Mas podem se acumular até o ponto em que a regra começa a disputar espaço com o bom senso. A tradição cria identidade e continuidade, mas pode produzir resistência quando alguém pergunta por que determinada coisa continua sendo feita daquela maneira. A convivência intensa cria vínculos, mas também cria atritos. E o entusiasmo que leva alguém a se oferecer como voluntário não elimina o cansaço quando o trabalho é muito, o dia foi longo e ainda há coisas por fazer.

Uma resposta da sondagem sobre erros e divergências foi particularmente interessante. A maioria descreveu um ambiente de conversa, orientação e aprendizado quando alguém comete um erro. Mas apareceu também uma observação de que questionar “a maneira como as coisas sempre foram feitas” poderia ser recebido com mais dificuldade. É uma resposta isolada e não deve ser transformada em diagnóstico da organização, mas aponta para uma tensão conhecida: organizações podem ser muito abertas para corrigir erros dentro do sistema e bem menos abertas para discutir o próprio sistema. KISC Through an Outsider’s Eyes…



A formação dos helpers também apareceu como fragilidade. Eu próprio cheguei por pouco tempo e aprendi grande parte das tarefas trabalhando ao lado de quem já as conhecia. Esse modelo funciona bastante bem quando há tempo, disponibilidade e pessoas experientes por perto. Mas também possui uma vulnerabilidade evidente: quem chega precisa aprender depressa enquanto a operação continua funcionando. Se muitas pessoas novas chegam simultaneamente, o treinamento passa a disputar os mesmos recursos humanos necessários para executar o trabalho.

A alta renovação produz ainda outro paradoxo. Gente nova traz energia, ideias e olhares menos acostumados às rotinas existentes. Mas quem permanece pouco tempo pode descobrir um problema, imaginar uma melhoria e partir antes de conseguir implementá-la. Alguns voluntários mencionaram exatamente essa dificuldade. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Não encontrei nisso nada particularmente surpreendente. Talvez o surpreendente fosse encontrar uma organização sem esses problemas.

O que me parece importante é resistir à tentação de explicar o funcionamento do KISC apenas por suas qualidades mais atraentes. Propósito ajuda muito. Pertencimento ajuda. Liderança próxima, cooperação e valores compartilhados ajudam. Mas nenhum deles revoga as limitações humanas e organizacionais.

Pessoas motivadas também se cansam.

Pessoas comprometidas também entram em conflito.

Procedimentos necessários também podem se tornar excessivos.

Tradições importantes também podem virar resistência.

Talvez essa seja uma das lições mais úteis da experiência.

Durante anos vi organizações recorrerem ao propósito quase como uma resposta para problemas de gestão. Faltou engajamento? Reforce o propósito. Há dificuldade de cooperação? Relembre a missão. As pessoas estão cansadas? Mostre a importância do trabalho.

Há um limite para isso.

Propósito pode dar significado ao esforço. Não substitui estrutura adequada, treinamento, capacidade de ouvir, revisão de processos, condições razoáveis de trabalho e espaço para mudança.

Transformá-lo em solução universal é apenas uma maneira mais elegante de evitar problemas concretos.

O KISC me interessou justamente porque não parece uma utopia gerencial. É uma organização real, com uma cultura forte e mecanismos que funcionam muito bem, mas também com desgaste, conflitos, excessos e dificuldades que seus próprios voluntários conseguem enxergar.

Isso não diminui o que observei ali.

Ao contrário.

Romantizar uma organização não ajuda a compreendê-la. Propósito pode fazer muita coisa. Só não faz tudo.

Cultura é aquilo que chega ao trabalho cotidiano

Organizações gostam de declarar valores. Eles aparecem em sites, códigos de conduta, apresentações institucionais e, não raramente, nas paredes. O problema é que palavras como cooperação, responsabilidade, respeito e serviço são fáceis de escrever. A questão começa quando é preciso descobrir o que elas significam numa terça-feira comum, diante de uma tarefa que precisa ser feita.

O KISC explicita valores ligados ao escotismo, ao desenvolvimento dos jovens, à perspectiva global e à sustentabilidade. Também deixa bastante claro o que espera de quem passa pelo centro: respeito aos demais, cuidado com os espaços utilizados e disposição para colaborar. Na própria apresentação institucional há uma frase reveladora: os hóspedes devem ajudar na limpeza das instalações porque aquele é um centro escoteiro “onde ajudamos uns aos outros”.

Mas o que me interessou em Kandersteg não foi encontrar esses princípios escritos. Foi perceber onde eles apareciam quando ninguém estava falando sobre valores.


Eles apareciam, por exemplo, quando alguém terminava o almoço e não simplesmente abandonava pratos e resíduos para que outra pessoa resolvesse. Apareciam quando um grupo dividia uma tarefa física, quando alguém mais experiente parava para mostrar a um recém-chegado como fazer alguma coisa, quando uma pessoa pedia ajuda e outra interrompia por alguns minutos o próprio trabalho para ajudá-la.

Nada disso é extraordinário.

E talvez esse seja justamente o ponto.

Na sondagem que fiz com os voluntários, perguntei diretamente o que transformava valores como serviço, cooperação, amizade e responsabilidade em comportamento durante um dia normal de trabalho. As respostas não recorreram a grandes conceitos. Falaram em trabalho em equipe, colaboração, divisão de tarefas, feedback, ajuda mútua, responsabilidade pela qualidade do que se faz e respeito pelo trabalho dos demais. Um dos respondentes resumiu a ideia dizendo que isso acontece “nas pequenas ações”. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Essa resposta me pareceu particularmente precisa.

Cultura organizacional não é aquilo em que uma instituição afirma acreditar. É aquilo que as pessoas aprendem a considerar normal.

Quando alguém vê uma tarefa e entende que deve fazê-la bem porque outros dependem daquele resultado, a responsabilidade deixou de ser palavra. Quando uma pessoa ajuda outra sem transformar a ajuda em favor excepcional, a cooperação virou rotina. Quando quem coordena também executa e quem sabe ensina quem chegou depois, o serviço deixa de ser discurso.

A mesma diferença apareceu quando perguntei o que levava as pessoas a realizar trabalhos difíceis, repetitivos ou desagradáveis. Responsabilidade perante a equipe, senso de serviço, ajuda entre colegas e a própria dimensão social do trabalho apareceram muito mais do que supervisão direta ou simples obediência a uma regra. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Isso não significa que o KISC dispense procedimentos ou liderança. Pelo contrário: como já relatei, há bastante estrutura, instruções escritas e responsabilidades definidas. A questão é outra. O procedimento estabelece o que precisa ser feito; a cultura ajuda a explicar como as pessoas se comportam quando começam a fazê-lo.

É aí que valores institucionais enfrentam seu teste real.

Em qualquer organização é possível exigir que alguém cumpra uma tarefa. Mais difícil é construir um ambiente no qual a pessoa perceba que a qualidade do seu trabalho interfere no trabalho dos outros e no resultado coletivo.



Passei muitos anos vendo organizações investirem considerável esforço na formulação de missão, visão e valores. Esse trabalho pode ser útil. Ele dá linguagem a princípios que a instituição deseja preservar.

Mas há uma condição.

Esses princípios precisam conseguir sair do quadro.

Se “cooperação” desaparece quando surge uma tarefa desagradável, se “respeito” termina na primeira divergência e se “responsabilidade” só funciona quando alguém está supervisionando, não temos propriamente cultura. Temos decoração institucional.

Kandersteg me lembrou de uma medida mais simples.

Um valor só pertence realmente a uma organização quando consegue atravessar a distância entre a parede e o trabalho cotidiano.

O escotismo forma bons profissionais?

 Em 2016 publiquei no Percolado um texto dos Escoteiros do Brasil com um título bastante afirmativo: “Por que contratar uma pessoa que já foi escoteira”. O argumento era que a experiência escoteira desenvolvia qualidades valorizadas profissionalmente, como trabalho em equipe, criatividade, liderança, empatia, capacidade de definir objetivos e disposição para resolver problemas. 

Dez anos depois, minha passagem por Kandersteg me fez voltar ao assunto. Desta vez não a partir de uma lista de competências, mas observando jovens trabalhando.


O que vi ajuda a entender por que aquela associação entre escotismo e vida profissional parece tão plausível. O próprio método escoteiro é construído sobre experiências que se aproximam de situações encontradas no trabalho: aprender fazendo, atuar em pequenos grupos, assumir responsabilidades progressivamente, tomar decisões, resolver problemas e avaliar o que aconteceu depois. A Organização Mundial do Movimento Escoteiro define o escotismo como educação não formal e destaca justamente o learning by doing, a cooperação e a progressão pessoal como elementos do processo educativo. 

Isso é diferente de ensinar liderança em uma sala para que ela talvez seja praticada no futuro. No escotismo, o jovem pode precisar organizar uma atividade, cuidar de equipamentos, dividir tarefas, orientar colegas, ser orientado por eles e encontrar uma solução quando aquilo que foi planejado não funciona. A WOSM inclui comunicação, resolução de conflitos, solução de problemas e trabalho em equipe entre as competências transferíveis desenvolvidas nessa experiência.

Em Kandersteg, encontrei essas características numa escala internacional.

Num dos dias, participei do transporte de barracas com escoteiros africanos. Éramos pessoas de países, idades e histórias diferentes diante de uma tarefa pouco sofisticada: retirar material de um galpão, transportar, organizar peso e deixar tudo preparado para o trabalho seguinte. Não houve uma aula sobre cooperação. A cooperação apareceu porque era a maneira natural de realizar a tarefa.


Minha pequena sondagem também traz um dado que merece atenção. Dos quinze voluntários que responderam, quatorze declararam ter mais de dez anos de experiência escoteira antes de chegar ao KISC. É um grupo, portanto, que traz consigo uma longa exposição a esse tipo de formação. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Quando perguntei o que permitia que pessoas de países, culturas e línguas diferentes trabalhassem juntas, apareceram comunicação, respeito, disposição para ouvir, confiança, objetivos compartilhados e referências comuns do escotismo. KISC Through an Outsider’s Eyes… São qualidades que qualquer gestor gostaria de encontrar numa equipe.

Mas aqui é preciso algum cuidado.

Minha experiência no KISC não permite concluir que o escotismo produz bons profissionais. Nem a sondagem permite isso. Eu observei um grupo muito particular: pessoas que permaneceram anos no movimento escoteiro, escolheram voluntariamente viver uma experiência internacional e foram parar justamente num centro que valoriza serviço, cooperação e convivência. Há um forte efeito de seleção aí.

Também seria exagerado imaginar que autonomia, responsabilidade ou liderança tenham uma única origem. Família, escola, universidade, trabalho, personalidade e inúmeras outras experiências participam dessa formação.

Por isso, hoje eu escreveria com menos certeza do que o texto que publiquei em 2016.

Não diria que encontrar escotismo num currículo garante determinadas qualidades. Diria que determinadas experiências escoteiras oferecem oportunidades particularmente boas para praticá-las.

Essa diferença importa.

Existe ainda uma característica que talvez explique boa parte dessa transferência para a vida profissional: no escotismo, muitas dessas competências são treinadas antes de receberem nomes sofisticados.

Um adolescente que organiza seu grupo para montar acampamento provavelmente não pensa que está desenvolvendo “competência de gestão de equipes”. Quando precisa decidir quem fará cada tarefa, está distribuindo responsabilidades. Quando algo dá errado e precisa improvisar, está resolvendo problemas. Quando assume a liderança numa atividade e em outra obedece a um colega, aprende que liderança e subordinação são posições circunstanciais, não identidades permanentes.

O vocabulário corporativo chega depois.

A experiência veio antes.

Talvez por isso eu tenha saído de Kandersteg pensando que a pergunta do título estava ligeiramente errada.

O escotismo forma bons profissionais?

Não necessariamente. Nenhuma experiência educativa oferece essa garantia.

Mas ele coloca jovens, repetidamente, diante de situações em que precisam cooperar, decidir, assumir responsabilidade, liderar, ser liderados, resolver problemas e conviver com pessoas diferentes. E faz isso num período da vida em que essas formas de comportamento ainda estão sendo construídas.

Isso não garante o profissional que surgirá depois.

Mas certamente oferece um bom campo de treinamento para algumas das capacidades que esse profissional um dia precisará ter.

Quem manda e quem lidera

 Durante minha passagem pelo KISC, uma das coisas que observei com mais atenção foi a maneira como a liderança aparecia na rotina. Não estava apenas nos cargos ou no organograma. Aparecia, sobretudo, nos pequenos encontros que organizavam o trabalho ao longo do dia.

Às oito da manhã, depois do café, toda a equipe se reunia para o briefing geral. Ali circulavam as informações importantes: movimento de hóspedes, chegadas e partidas de voluntários, acontecimentos previstos e avisos do dia. Depois, cada equipe seguia para sua reunião específica. No campsite, André distribuía as tarefas e combinava quem faria o quê. Antes do almoço, o grupo se encontrava novamente para informar o que havia sido feito, o que não havia sido concluído e os problemas encontrados. À tarde, o processo recomeçava.




À primeira vista, poderia parecer apenas um sistema de controle. Mas não foi essa a impressão que tive. Os encontros eram curtos e frequentes. Em vez de concentrar a supervisão numa cobrança posterior, permitiam ajustar o trabalho enquanto ele acontecia. A liderança estava presente, mas sem precisar acompanhar permanentemente cada pessoa.

Esse ponto ficou mais interessante quando comparei minha observação com as respostas da sondagem.

Perguntei aos quinze voluntários o que fazia alguém ser genuinamente respeitado como líder no KISC. O item mais escolhido foi escutar e tratar bem as pessoas, indicado por oito respondentes. Em seguida apareceu liderar pelo exemplo, com sete respostas. Conhecimento técnico, capacidade de decisão e capacidade de organizar o trabalho receberam quatro indicações cada. Apenas uma pessoa escolheu a posição formal ou a autoridade como fonte de respeito.

É uma diferença importante.

O cargo atribui responsabilidade e poder de decisão. Isso continua necessário. Alguém precisa definir prioridades, distribuir recursos, decidir diante de conflitos e responder pelo resultado. Mas o cargo não garante, por si só, que as pessoas reconheçam naquele ocupante alguém que vale a pena seguir.



Talvez seja por isso que a ideia de liderar pelo exemplo tenha aparecido com tanta força. No KISC, a distância entre quem coordena e quem executa parece relativamente curta. O trabalho é muito concreto. Há banheiros para limpar, barracas para movimentar, materiais para organizar, hóspedes para atender e problemas que surgem durante o dia. Nesse ambiente, torna-se difícil sustentar uma liderança baseada exclusivamente na autoridade.

A legitimidade precisa ser renovada no cotidiano.

As respostas sobre aprendizagem apontam na mesma direção. Quando perguntei como as pessoas aprendiam, ao chegar, “como as coisas são feitas aqui”, a forma mais citada foi aprender fazendo, seguida pela orientação das lideranças e pelo contato com voluntários mais experientes. Isso coloca o líder não apenas como quem determina o trabalho, mas também como parte do processo pelo qual os outros aprendem a realizá-lo.

Há ainda outro aspecto. Nas respostas abertas sobre o que permite que pessoas de tantos países e culturas trabalhem juntas, apareceram repetidamente comunicação, respeito, escuta, confiança e disposição para compreender o outro. Num ambiente internacional, essas características deixam de ser apenas qualidades desejáveis de liderança. Tornam-se ferramentas operacionais.

Uma ordem mal compreendida continua sendo uma ordem. Só não produz necessariamente o resultado esperado.


Isso não significa romantizar o modelo. A própria sondagem trouxe críticas a excesso de processos, pouca flexibilidade e dificuldades quando alguém questiona formas tradicionais de fazer as coisas. Liderança baseada em valores compartilhados também pode se acomodar. Um grupo muito coeso pode começar a confundir concordância com comprometimento.

Talvez por isso briefing e debriefing tenham me parecido mais importantes do que inicialmente imaginei. Eles não servem apenas para transmitir ordens. Criam momentos em que trabalho, informação e problemas voltam ao espaço coletivo. O que estava disperso durante a execução retorna para a conversa.

Depois de muitos anos em funções de gestão, saí de Kandersteg com uma distinção simples.

Autoridade é uma condição do cargo.

Liderança é uma relação construída com as pessoas.

O cargo permite mandar. A organização precisa disso em determinados momentos. Mas a disposição das pessoas para confiar, perguntar, aprender, colaborar e seguir uma orientação nasce de outra fonte.

O cargo pode ser concedido pela organização. A legitimidade precisa ser conquistada todos os dias.

O que quinze voluntários me disseram sobre o KISC

 Durante minha permanência em Kandersteg, fiz uma pequena sondagem com quinze voluntários. Não foi uma pesquisa científica nem pretendi transformar quinze respostas em retrato estatístico do KISC. Queria apenas confrontar minhas impressões de observador externo com a experiência de quem estava vivendo aquela organização por dentro.

As respostas ajudaram a enxergar algumas linhas de força — e também algumas contradições.




A primeira constatação é que as pessoas não chegam a Kandersteg por uma única razão. Conhecer pessoas e culturas diferentes apareceu com frequência, assim como contribuir para o escotismo, viver uma aventura, buscar desenvolvimento pessoal e retornar a um lugar com o qual já existia algum vínculo. A motivação parece nascer justamente dessa combinação: serviço, experiência internacional, desafio, diversão e pertencimento.

Mais interessante, para mim, foi descobrir como aprendem o trabalho. A resposta predominante não foi treinamento formal nem manual: foi aprender fazendo. Em seguida vieram a orientação das lideranças e o apoio de voluntários mais experientes. Os procedimentos escritos existem e são visíveis, mas a aprendizagem real acontece em grande parte durante a execução, observando, perguntando e trabalhando ao lado de quem já conhece a rotina.

Isso ajuda a compreender outro resultado. Quando há uma tarefa difícil, repetitiva ou pouco agradável, as razões apontadas foram principalmente a responsabilidade perante os demais, o senso de serviço, a ajuda mútua e a percepção de que aquele trabalho faz parte da experiência. A ordem do chefe ou a existência de uma regra apareceram muito menos. Há uma diferença importante entre fazer alguma coisa apenas porque alguém mandou e fazê-la porque se entende que alguém precisa fazê-la para que o conjunto funcione.



A mesma lógica apareceu quando perguntei o que faz alguém ser respeitado como líder. Escutar e tratar bem as pessoas e liderar pelo exemplo foram mais citados do que conhecimento técnico, capacidade de decidir ou organizar o trabalho. A autoridade formal praticamente não apareceu como fonte de respeito. O cargo continua sendo necessário para definir responsabilidades, mas o reconhecimento parece depender muito mais do comportamento de quem o ocupa.

Num ambiente em que pessoas chegam e partem com frequência, perguntei também como o conhecimento consegue permanecer. Não surgiu uma solução única. Voluntários experientes ensinando os recém-chegados, o handover entre quem sai e quem entra, a permanência do staff de maior duração e os procedimentos escritos formam, juntos, uma espécie de rede de memória. É um ponto interessante: a continuidade não depende de impedir a rotatividade, mas de criar mecanismos para que a experiência atravesse as trocas de pessoas.

A diversidade talvez seja o teste mais evidente desse sistema. Nas respostas abertas apareceram repetidamente comunicação clara, respeito, disposição para ouvir, confiança, um idioma comum, objetivos compartilhados e capacidade de adaptação. Vários voluntários mencionaram também o escotismo como uma base cultural comum. Não é que as diferenças desapareçam. Elas precisam ser negociadas todos os dias — inclusive ajustando linguagem, explicando melhor e tentando compreender posições diferentes.



Também perguntei o que acontece quando alguém erra. A maior parte das respostas descreveu conversa, orientação, feedback e tentativa de aprender com o ocorrido. Alguns falaram explicitamente em um ambiente seguro para cometer erros, o que faz sentido numa organização que coloca pessoas jovens e muitas vezes inexperientes em funções novas. Mas apareceu também uma observação crítica: erros seriam mais facilmente aceitos do que questionamentos à maneira tradicional de fazer as coisas. Essa resposta isolada não autoriza uma conclusão geral, mas é importante porque introduz uma tensão que reapareceu em outra parte da sondagem.

Quando pedi que completassem a frase “KISC às vezes não funciona tão bem quanto poderia porque...”, desapareceram as respostas cerimoniosas. Surgiram excesso de processos, falta de flexibilidade, dificuldade de adaptação, cansaço provocado pela carga de trabalho, conflitos interpessoais, treinamento insuficiente em algumas situações, renovação constante de pessoas e pouco tempo para implementar mudanças. Houve até referências a preferências pessoais e nepotismo.

Essa talvez tenha sido a parte mais útil da sondagem.

Os mesmos elementos que ajudam a organização a funcionar carregam seus riscos. Procedimentos preservam conhecimento, mas podem endurecer. Tradições criam identidade, mas podem dificultar mudanças. A forte convivência aproxima, mas também produz conflitos. A renovação traz energia, mas obriga a organização a reaprender continuamente. O compromisso das pessoas permite realizar muito, mas também pode levá-las ao cansaço.

No fim, perguntei o que um observador externo precisaria compreender para entender por que o KISC funciona. As respostas voltaram várias vezes à mesma ideia, ainda que por caminhos diferentes: as pessoas querem estar ali. Falaram em dedicação, responsabilidade, escotismo, propósito comum, comunidade, tradição e orgulho de participar. Uma resposta resumiu Kandersteg não apenas como local de trabalho, mas como cultura e modo de vida.

Foi provavelmente a melhor síntese das quinze respostas.

O KISC não funciona apenas porque possui procedimentos, lideranças ou uma estrutura organizada. Tampouco funciona apenas porque reúne pessoas motivadas.

Funciona porque essas coisas se sustentam umas às outras.

E talvez o dado mais interessante da sondagem esteja justamente nas imperfeições. Os voluntários que demonstraram forte ligação com Kandersteg também foram capazes de apontar seus excessos, seus conflitos e suas dificuldades.

Pertencer a uma organização não significa deixar de enxergar seus defeitos.

Às vezes, significa enxergá-los melhor.