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domingo, 20 de setembro de 2026

O escotismo forma bons profissionais?

 Em 2016 publiquei no Percolado um texto dos Escoteiros do Brasil com um título bastante afirmativo: “Por que contratar uma pessoa que já foi escoteira”. O argumento era que a experiência escoteira desenvolvia qualidades valorizadas profissionalmente, como trabalho em equipe, criatividade, liderança, empatia, capacidade de definir objetivos e disposição para resolver problemas. 

Dez anos depois, minha passagem por Kandersteg me fez voltar ao assunto. Desta vez não a partir de uma lista de competências, mas observando jovens trabalhando.


O que vi ajuda a entender por que aquela associação entre escotismo e vida profissional parece tão plausível. O próprio método escoteiro é construído sobre experiências que se aproximam de situações encontradas no trabalho: aprender fazendo, atuar em pequenos grupos, assumir responsabilidades progressivamente, tomar decisões, resolver problemas e avaliar o que aconteceu depois. A Organização Mundial do Movimento Escoteiro define o escotismo como educação não formal e destaca justamente o learning by doing, a cooperação e a progressão pessoal como elementos do processo educativo. 

Isso é diferente de ensinar liderança em uma sala para que ela talvez seja praticada no futuro. No escotismo, o jovem pode precisar organizar uma atividade, cuidar de equipamentos, dividir tarefas, orientar colegas, ser orientado por eles e encontrar uma solução quando aquilo que foi planejado não funciona. A WOSM inclui comunicação, resolução de conflitos, solução de problemas e trabalho em equipe entre as competências transferíveis desenvolvidas nessa experiência.

Em Kandersteg, encontrei essas características numa escala internacional.

Num dos dias, participei do transporte de barracas com escoteiros africanos. Éramos pessoas de países, idades e histórias diferentes diante de uma tarefa pouco sofisticada: retirar material de um galpão, transportar, organizar peso e deixar tudo preparado para o trabalho seguinte. Não houve uma aula sobre cooperação. A cooperação apareceu porque era a maneira natural de realizar a tarefa.


Minha pequena sondagem também traz um dado que merece atenção. Dos quinze voluntários que responderam, quatorze declararam ter mais de dez anos de experiência escoteira antes de chegar ao KISC. É um grupo, portanto, que traz consigo uma longa exposição a esse tipo de formação. KISC Through an Outsider’s Eyes…

Quando perguntei o que permitia que pessoas de países, culturas e línguas diferentes trabalhassem juntas, apareceram comunicação, respeito, disposição para ouvir, confiança, objetivos compartilhados e referências comuns do escotismo. KISC Through an Outsider’s Eyes… São qualidades que qualquer gestor gostaria de encontrar numa equipe.

Mas aqui é preciso algum cuidado.

Minha experiência no KISC não permite concluir que o escotismo produz bons profissionais. Nem a sondagem permite isso. Eu observei um grupo muito particular: pessoas que permaneceram anos no movimento escoteiro, escolheram voluntariamente viver uma experiência internacional e foram parar justamente num centro que valoriza serviço, cooperação e convivência. Há um forte efeito de seleção aí.

Também seria exagerado imaginar que autonomia, responsabilidade ou liderança tenham uma única origem. Família, escola, universidade, trabalho, personalidade e inúmeras outras experiências participam dessa formação.

Por isso, hoje eu escreveria com menos certeza do que o texto que publiquei em 2016.

Não diria que encontrar escotismo num currículo garante determinadas qualidades. Diria que determinadas experiências escoteiras oferecem oportunidades particularmente boas para praticá-las.

Essa diferença importa.

Existe ainda uma característica que talvez explique boa parte dessa transferência para a vida profissional: no escotismo, muitas dessas competências são treinadas antes de receberem nomes sofisticados.

Um adolescente que organiza seu grupo para montar acampamento provavelmente não pensa que está desenvolvendo “competência de gestão de equipes”. Quando precisa decidir quem fará cada tarefa, está distribuindo responsabilidades. Quando algo dá errado e precisa improvisar, está resolvendo problemas. Quando assume a liderança numa atividade e em outra obedece a um colega, aprende que liderança e subordinação são posições circunstanciais, não identidades permanentes.

O vocabulário corporativo chega depois.

A experiência veio antes.

Talvez por isso eu tenha saído de Kandersteg pensando que a pergunta do título estava ligeiramente errada.

O escotismo forma bons profissionais?

Não necessariamente. Nenhuma experiência educativa oferece essa garantia.

Mas ele coloca jovens, repetidamente, diante de situações em que precisam cooperar, decidir, assumir responsabilidade, liderar, ser liderados, resolver problemas e conviver com pessoas diferentes. E faz isso num período da vida em que essas formas de comportamento ainda estão sendo construídas.

Isso não garante o profissional que surgirá depois.

Mas certamente oferece um bom campo de treinamento para algumas das capacidades que esse profissional um dia precisará ter.

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