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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Quando a sustentabilidade namora com o greenwashing



A mensagem institucional é bonita e, em parte, justa. A Comlurb de fato protege o meio ambiente todos os dias quando coleta e dá destinação adequada a milhares de toneladas de resíduos, preservando rios, lagoas, praias, áreas verdes e a saúde pública. O problema começa quando esse papel estrutural, que já é próprio da limpeza urbana, passa a ser apresentado como prova suficiente de uma sustentabilidade mais ampla, quase como se a Companhia já tivesse mudado de patamar. É aí que meu ceticismo aparece: sem política pública consistente e sem escala real nas ações anunciadas, a sustentabilidade começa a namorar com o greenwashing.

Não estou dizendo que nada exista. O próprio texto cita iniciativas importantes: coleta seletiva, caminhões movidos a biometano, banco de alimentos, valorização de resíduos e economia circular. Tudo isso aponta na direção correta e seria leviano desprezar. O problema não é a existência das ações, mas sua capacidade de alterar de fato o modelo. Há programas que existem mais para demonstrar sensibilidade ambiental do que para reorganizar estruturalmente a operação. Quando isso acontece, a sustentabilidade deixa de ser eixo e vira vitrine.

O caso da coleta seletiva é o mais emblemático. Ela aparece há anos no discurso institucional como sinal de modernidade, responsabilidade ambiental e inclusão produtiva. Mas o sistema protocolar, sem alavancagem e sem a escala necessária para mudar o padrão dominante de destinação, acaba produzindo um resultado frustrante: a ação existe, mas não desloca o centro de gravidade do modelo. É como se a sustentabilidade fosse convidada a posar para a foto, mas não a participar da decisão estratégica.

O mesmo raciocínio vale para os demais exemplos celebrados. Biometano é avanço, sem dúvida. Banco de alimentos também. Mas ações isoladas, por mais meritórias que sejam, não bastam para autorizar a frase mais ambiciosa do texto: a de que a sustentabilidade estaria “no DNA da Comlurb”. DNA institucional não se prova por enumeração de boas iniciativas; prova-se por escala, centralidade orçamentária, indicadores consistentes e capacidade de alterar a lógica dominante da operação. O próprio comunicado fala em “ampliação de projetos sustentáveis” e em “novas oportunidades de geração de receita associadas à economia circular”. Pois bem: é exatamente aí que o discurso precisará ser cobrado.

No fim, reconheço sem dificuldade que a Comlurb exerce diariamente uma função ambiental essencial. Isso é verdadeiro e merece ser dito. Mas uma coisa é proteger o meio ambiente por força do serviço básico de limpeza urbana; outra, bem diferente, é afirmar que a sustentabilidade já se tornou um vetor transformador da Companhia. Enquanto a coleta seletiva seguir protocolar e as demais iniciativas permanecerem sem escala suficiente para modificar o modelo, continuarei achando que a sustentabilidade existe mais para ser mencionada do que para reorganizar a realidade. E quando o discurso cresce mais rápido do que a mudança, o nome disso costuma ser outro.

domingo, 23 de março de 2025

Em dois anos, país aumenta reciclagem de embalagens PET em 14%

Mesmo assim, reciclagem ainda está abaixo do potencial

Bruno Bocchini - repórter da Agência Brasil

Brasília (DF), 24/03/2025 - Centro de reciclagem de garrafa pet. Foto: Edmar Chaperman/Funasa© Edmar Chaperman/Funasa

O Brasil reciclou 410 mil toneladas de embalagens PET em 2024, montante 14% superior às 359 mil toneladas recicladas 2022, segundo a 13ª edição do Censo da Reciclagem do PET no Brasil, divulgado nesta segunda-feira (24) pela Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet).

Apesar do resultado positivo, a entidade ressalvou que a falta de políticas públicas de coleta seletiva dificulta a destinação correta das embalagens descartadas pelos consumidores, o que está gerando ociosidade no setor. 

“As empresas recicladoras chegam a atuar com uma ociosidade média de 23%, chegando a picos de até 40%”,  destaca o presidente da Abipet, Auri Marçon. “Com isso, a indústria de reciclagem do PET está chegando no seu limite, por não ter a matéria-prima necessária para seus processos produtivos, ao mesmo tempo em que toneladas de embalagens são destinadas aos aterros comuns ou descartadas incorretamente no meio ambiente”, acrescenta.

Destino das PETs recicladas

De acordo com o censo, em 2024, o principal destino da resina reciclada das PETs – 37% do total – foi a fabricação de uma nova embalagem, utilizada principalmente pela indústria de água, refrigerantes, energéticos e outras bebidas não alcoólicas. O setor têxtil vem em segundo lugar, com um consumo de 24% da resina reciclada, seguido pela indústria química (13%), lâminas e chapas (13%), e fitas de arquear, utilizadas em empacotamento e fechamento de caixas (10%).

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Coleta seletiva: Rio recicla apenas 0,5% do lixo reciclável que produz

Opinião

O discurso de ampliação da coleta seletiva com recursos públicos apresenta fragilidades significativas quando analisado sob o conceito de logística reversa e a ideia de que a reciclagem deve ser financiada e operada prioritariamente pela iniciativa privada. O modelo atual transfere ao setor público a maior parte dos custos operacionais, enquanto as cooperativas lidam com materiais insuficientes ou de baixa qualidade para gerar renda sustentável, agravando a precariedade do sistema.

A reciclagem não é apenas uma questão de coleta seletiva, mas um mercado de commodities com grande potencial econômico. No entanto, ao negligenciar a participação obrigatória de fabricantes e importadores no financiamento e gestão dos resíduos gerados, o sistema atual falha em criar incentivos para a utilização de materiais reciclados pela indústria e para a sustentabilidade de toda a cadeia de valor. A logística reversa propõe a internalização dos custos ambientais pelas empresas, garantindo que a reciclagem seja financiada por quem coloca os produtos no mercado.

A profissionalização dos catadores é fundamental para transformar o sistema. Eles devem ser vistos como parceiros estratégicos da iniciativa privada, integrados a um modelo de negócios em que participem da coleta e triagem como empreendedores e agentes produtivos. Esse modelo elimina a dependência de subsídios governamentais, promovendo maior autonomia financeira e eficiência operacional. Empresas, por sua vez, poderiam contratar cooperativas para executar atividades dentro da cadeia logística reversa, garantindo remuneração justa e estabilidade.

Portanto, expandir a coleta seletiva sem reavaliar sua estrutura perpetua um sistema caro e ineficiente. É essencial que a iniciativa privada assuma seu papel, financiando a reciclagem, enquanto os catadores evoluem para uma posição de parceiros autossuficientes, possibilitando um sistema sustentável, inovador e alinhado às melhores práticas ambientais.


Segundo Comlurb, a quantidade de recicláveis que chega às cooperativas é muito pequena, são apenas 1.500 toneladas por mês. Apesar dos 21 anos de existência da coleta seletiva de recicláveis no Rio de Janeiro, o serviço ainda é invisível para boa parte da população.

Por Anita Prado, André Trigueiro, RJ2

A cidade do Rio de Janeiro recicla apenas 0,5% de todo o lixo misturado que o município envia por mês para o aterro sanitário de Seropédica, Baixada Fluminense. Segundo Comlurb, a quantidade de recicláveis que chega às cooperativas é muito pequena, são apenas 1.500 toneladas por mês.

Apesar dos 21 anos de existência da coleta seletiva de recicláveis no Rio de Janeiro, o serviço ainda é invisível para boa parte da população. O serviço prestado pela Comlurb é alvo de muita desconfiança.

A frota da coleta seletiva da Companhia Comlurb conta com apenas 16 caminhões para a cidade inteira, que circulam com aproximadamente 30% de espaço ocioso.

Os caminhões azuis que fazem a coleta seletiva podem misturar sem problemas papel, papelão, vidro, plásticos e metais. Misturar o chamado lixo seco não causa nenhum prejuízo à reciclagem. Só não pode misturar os recicláveis com o lixo orgânico, que são os restos de comida.

“Mistura todo o reciclável não é misturar tudo orgânico. Então cuidado, pode parecer que a gente vai lá com o caminhão azul e mistura o orgânico e reciclável, não é”, explica Edison San Romã, coordenador da coleta seletiva da Comlurb.



Entretanto, o RJ2 entrevistou muita gente que não acredita que os caminhões da coleta seletiva levem os recicláveis para o lugar certo.

“Acho que colocam tudo e vai para o aterro sanitário, algo do tipo. Se você não sabe para onde vai, porque você vai fazer na sua casa, se no final não vai ser correspondido teu trabalho em casa”, questiona Thiago Roldão.

“Não sei onde deixam tudo separado porque é lixo, é muito lixo”, diz Anete Braga.

“Você acha que eles separam isso tudo? Claro que não! Claro que não separam. Vai tudo para o lixão comum como sempre vai”, conta Frederico Costa.

“Acho que vai tudo para o mesmo lugar, por mais que a gente separe em casa”, diz Mateus Cabral

Para confirmar o caminho que fazem os materiais recicláveis recolhidos pelo caminhão azul, o RJ2 instalou um rastreador em materiais recicláveis coletados numa Rua do Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, e acompanhou o deslocamento do caminhão azul sem que a Comlurb soubesse.

O veículo seguiu direto até a Rua Matapi, no Jacaré, Zona Norte do Rio, onde fica uma das cooperativas de catadores que participam do projeto.

“Tem a roteirização de todos esses caminhões, então todos os caminhões saem para um roteiro determinado e, no final, a gente também tem determinado qual é a cooperativa que eles vão levar através de um sistema de monitoramento de todos os caminhões via satélite.

 A quantidade do material reciclável que chega às cooperativas mal dá para garantir a renda dos catadores, dizem os coordenadores das cooperativas.

“O material vem, mas meio vazio. A gente precisa mais rotatividade, mais caminhões dentro da população do Rio de Janeiro para fazer essa coleta seletiva e chegar até mesmo às cooperativas. Falta muita campanha mesmo para fazer essa separação e seleção para que chegue material de fato nas cooperativas”, explica Ana Carla Nistaldo, diretora financeira da cooperativa Coopideal.

Um dos diretores da cooperativa Copam, Luiz Carlos Fernandes, diz que a Comlurb precisa aumentar a frota.

“Acho que a Comlurb precisa aumentar a frota de caminhões porque já tivemos número muito maior de pessoas trabalhando e a gente teve que reduzir devido a quantidade de material que chega. O número de resíduos reduziu bastante”.

“A gente tem que dar nosso jeito para correr atras de material. Falta uma conscientização das pessoas sobre a reciclagem. Muitas pessoas não entendem e acabam jogando o material no rejeito. São muitas bandejas de ovo, que é pet, mas não é reciclável, bandeja de uva, esponja, muita embalagem aluminada por dentro. Nada disso é reciclável e gera uma grande quantidade de rejeito na cooperativa. Fica difícil para a gente que depende desse material”, diz Adilson Farias da Silva, representante da triagem da Copam.

“Aqui somos 22 famílias nesse espaço aqui, que depende desse material para viver. A gente depende que esse material seja separado em casa”, disse Luiz Carlos Fernandes.

A diretora da Coopideal fala sobre os catadores.

“São catadores que vieram do antigo lixão de Gramacho, que hoje estão aqui nessa luta pelejando pra que chegue material na cooperativa, pra que eles possam levar seu sustento pra dentro de casa”.

Sem campanhas públicas de estímulo à reciclagem, os interessados em participar da coleta seletiva têm que procurar informações por conta própria no site da Comlurb, onde há um espaço para saber se a rua onde mora está na rota dos 117 bairros cobertos pelo projeto.

Oficialmente, a Prefeitura do Rio estima que a coleta seletiva garanta a separação de pelo menos 10% dos recicláveis. Mas nem o prefeito acredita nesse número. Eduardo Paes falou sobre isso há menos de um mês. Pela quarta vez prefeito da cidade, Paes ainda não encontrou um caminho para popularizar a coleta seletiva.

“A sensação que a gente tem é de muito mais baixo do que isso. Portanto, acho que a gente tem que querer ousar nisso. Avançar, mas não é aquele padrão, não acho que tenha que ser o padrão. Não vamos conseguir trazer o padrão europeu pra cá. Separação em casa, colaboração da população, a gente vai ter que olhar um pouco para nossa realidade e eventualmente a gente pode disparar esse número”, fala o prefeito do Rio.

O diretor da Comlurb (?), Thales Malta, afirma que a solução está na educação de base.

“A gente não vê isso no dia a dia, não vê propaganda, não vê de certa forma de que isso vai funcionar e vai gerar resultado positivo para a sociedade pra no dia a dia. Se a gente tiver na base das crianças uma educação voltada para isso e de alguma forma. Atingir pais e mais velhos em ter consciência de separar resíduo reciclável, isso leva tempo, até haver mudança de cultura. Mas acho que é caminho fundamental. Trabalhei 16 anos da minha vida dentro do lixão e é um sonho que o Rio realmente de fato, com tantas cooperativas que tem município grande, tenha coleta seletiva de verdade. Que tenha caminhões e mais caminhões chegando nas cooperativas, toneladas de materiais recicláveis, dando sustentabilidade a nós catadores”.

A Comlurb disse ao RJ2 que o serviço de coleta seletiva conta com divulgação constante pra população da cidade em feiras livres, praças e pontos de grande movimentação de pessoas, todos os fins de semana. E que além disso, são realizadas campanhas nas redes sociais.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Reciclagem de resíduos chega a 8% no país com trabalho informal, aponta estudo

Folha SP

A reciclagem no Brasil atingiu 8% do total de resíduos sólidos urbanos com o trabalho de catadores informais, de acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos de 2024, lançado nesta semana.

O estudo elaborado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) reúne dados de 2023 e aponta que o Brasil produziu quase 81 milhões de toneladas de resíduos no ano passado, o que dá 382 quilos por brasileiro por ano.

Em 2022, o relatório calculou que o país reciclou 4% de seus resíduos a partir de dados da coleta seletiva dos municípios. Ao incluir dados dos materiais encaminhados pela indústria recicladora também por catadores autônomos, o Panorama 2024 chegou à taxa de 8,3%. Isso quer dizer que, em 2023, 6,7 milhões de toneladas de resíduos como plástico, vidro, metais e papelão foram enviados para a reciclagem no país.

Segundo o estudo, catadores informais de materiais recicláveis são responsáveis ⅔ dos resíduos que chegam à indústria recicladora enquanto a coleta seletiva dos municípios envia ⅓ desses materiais para reciclagem no Brasil.

Reciclagem Resíduos Trabalho Informal

“Isso demonstra que estamos ainda muito atrasados na coleta seletiva”, afirma Pedro Maranhão, presidente da Abrema. “Precisamos incentivar as prefeituras a criar e melhorar a coleta seletiva. Até porque, quando o município implanta esse serviço é porque deixou de desperdiçar resíduos no lixão.”

Segundo Maranhão, como os catadores informais focam na coleta daquilo que tem valor no mercado da reciclagem, o aproveitamento dos materiais selecionados por eles também é maior do que aquele que chega às unidades de triagem via coleta seletiva municipal. O estudo aponta que dos 4,2 milhões de toneladas de resíduos recicláveis coletados pelas prefeituras do país, 52,2% ou cerca de 2,2 milhões de toneladas são de fato aproveitadas para a reciclagem.

Para o presidente da Abrema, os dados evidenciam que a reciclagem tem muito o que avançar no Brasil. Contudo a Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia, mais de 55% dos resíduos são reciclados, segundo dados do Global Waste Management Outlook 2004, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Na América do Sul, apenas 6%. Na América Central e Caribe, 11%.

Segundo Carlos da Silva Filho, consultor da ONU e um dos autores do relatório do Pnuma, 32% dos resíduos sólidos urbanos no Brasil são a chamada “fração seca”, ou seja, os materiais potencialmente recicláveis. “Se 8% do total de resíduos estão sendo reciclados, isso significa que ¼ da fração seca está sendo coletada de maneira diferenciada e desviada do fluxo tradicional dos resíduos. Esse é um indicativo importante”, avalia.

De acordo com Maranhão, o atual regime de tributação do setor é um entrave importante. “É absurdo tributar material reciclado, que fica mais caro que o material virgem. Temos que zerar a tributação da reciclagem porque incentiva o setor e beneficia também os catadores.”

Lixões de um lado, produção de biometano de outro

O Panorama 2024 aponta que, no ano passado, 41% dos resíduos produzidos no Brasil, ou 28,7 milhões de toneladas, tiveram destinação final ambientalmente inadequada. Isso quer dizer que esses resíduos foram parar em lixões, valas, aterros irregulares, córregos e terrenos.

Erradicar os lixões do país foi a meta estabelecida pela legislação brasileira para o último dia 2 de agosto, data em que ainda existiam 1.572 lixões e quase 600 aterros controlados (aqueles sem proteção de solo e tratamento, considerados “lixões com cercas em volta”). Segundo o IBGE, 3 a cada 10 municípios do país ainda usam lixões.

“Estamos na época medieval neste aspecto, com danos para a saúde e para o meio ambiente”, afirma Maranhão. “Os prefeitos precisam entender que seu custo de saúde diminui quando ele encerra um lixão. E que, com lixão, ele perde recursos, perde na saúde, no meio ambiente e no tratamento de água, porque a decomposição dos resíduos permeia o solo e contamina lençóis freáticos.”

Em conclusão no sentido oposto deste atraso estão os aterros produtores de biometano, que capturam o metano emitido no processo de decomposição dos resíduos para a produção de biogás.

Em suma o país tem seis plantas deste tipo e sete outras aguardam aprovação, segundo o relatório.

“O futuro é o aproveitamento do metano para a produção de biogás, que faz de cada aterro ambientalmente correto um poço de petróleo de combustível renovável”, avalia. Segundo Maranhão, o “biometano vai substituir o gás da indústria, do transporte e até o gás de cozinha”. “Isso descarboniza a economia porque substitui combustível fóssil por outro renovável.”

Segundo o presidente da Abrema, o setor deve investir R$ 8 bilhões nos próximos cinco anos para que o país chegue a 60 plantas de produção de biometano.


quarta-feira, 3 de julho de 2024

Lixo urbano: as inovações que vêm da América Latina

Chile usa rastreio para otimizar a reciclagem e evitar o descarte ilegal. Uruguai tem leis contra detritos eletrônicos. Brasil inicia produção de energia limpa via resíduos. Equador e Peru desenvolvem apps com mapas interativos para conectar cidadãos às práticas de catadores

Por Juan Chiummiento, em O Eco


A destinação adequada dos resíduos sólidos representa um desafio urgente para a América Latina. Embora os serviços de coleta atendam a 85% das áreas urbanas da região — porcentagem acima da média global —, muitos países enfrentam dificuldades em seu manejo. Cerca de 45% dos resíduos acaba em locais impróprios, como lixões a céu aberto, que contaminam o solo, corpos d’água e até o ar.

A América Latina e o Caribe geram um total de 541 mil toneladas de resíduos diariamente, quase um quilo por habitante, segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma). Dados do Banco Mundial mostram que a região está entre as que menos produzem resíduos no mundo. Jordi Pon, coordenador regional do Pnuma para a América Latina e o Caribe, diz que o problema não é o volume, mas a gestão desses materiais.

O manejo inadequado dos resíduos traz problemas à saúde e ao meio ambiente, além de representar atrasos na adoção de economias circulares — sistemas que buscam minimizar o desperdício e maximizar o uso de recursos, reintegrando o resíduo aos ciclos produtivos.

Para enfrentar esse problema, são necessárias respostas abrangentes de governos nacionais e locais; e alguns deles de fato estão caminhando nessa direção. O Dialogue Earth analisou cinco projetos em países da região que buscam melhorar a gestão de resíduos e incentivar práticas mais sustentáveis.

Argentina: cooperativas de catadores

Nas últimas décadas, o ato de coletar papelão e outros materiais recicláveis para depois vendê-los ficou conhecido na Argentina como cartonear. Esses catadores de materiais recicláveis que circulam pelas ruas das grandes cidades, os cartoneros, tornaram-se mais comuns após a crise econômica argentina de 2001.

Catador recolhe papelão nas ruas de Buenos Aires, Argentina. Cooperativas de catadores hoje promovem boas práticas e fazem a intermediação com empresas de reciclagem. Imagem: Carol Smiljan / NurPhoto / Alamy.

A expansão da atividade levou à formação de várias organizações setoriais, incluindo a Federação Argentina de Catadores, Carroceiros e Recicladores (FACCyR). A entidade reúne cooperativas de todo o país que se organizam para melhorar as condições de trabalho e as práticas de reciclagem.

Uma dessas cooperativas associadas à FACCyR é a Dignidad Cartonera, criada em 2017 na cidade de Rosário e atualmente com mais de 150 membros ativos. A fundadora, Mónica Castro, ficou desempregada em 2001 e mobilizou vizinhos em situação parecida: “Decidimos criar nossa própria fonte de trabalho, que era sair às ruas e coletar papelão”.

Em 2019, a Dignidad Cartonera colaborou com a prefeitura de Rosário em um projeto-piloto para coletar resíduos domésticos e comerciais que poderiam ser reciclados. Se antigamente a cooperativa atuava na coleta de toda a cidade, o piloto criou um serviço porta a porta no bairro Industrial, na zona oeste da cidade. Assim, os catadores ensinam os moradores a separar corretamente os resíduos recicláveis.

O material coletado nas casas chega diariamente a um depósito administrado pela cooperativa, e daí é enviado a empresas de reciclagem. Trabalhando em parceria com outras cooperativas da FACCyR, a Dignidad Cartonera consegue acumular uma grande quantidade de material, garantindo maior poder de negociação e buscando uma remuneração mais justa pelo trabalho.

Os catadores esperam que seu trabalho ajude a promover mais ações coletivas. “Queremos inspirar outras pessoas a seguir nosso caminho, demonstrando que é possível criar um mundo mais justo e sustentável”, diz Juliana Muchiut, coordenadora da cooperativa.


Chile: blockchain para rastrear cargas de recicláveis

Nos últimos 70 anos, mais de 140 milhões de toneladas de plástico foram despejadas nos ecossistemas aquáticos ao redor do mundo, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. No Chile, o projeto Atando Cabos coleta resíduos plásticos da aquicultura, como redes de náilon e cordas de poliéster, transformando tudo isso em materiais reutilizáveis. A iniciativa usa a tecnologia blockchain para garantir a transparência e a eficiência de suas operações, aumentando a confiança de toda a cadeia de produção. 

O fundador do projeto, Michel Compagnon, é diretor comercial da Comberplast, empresa que usa plástico para moldar produtos. Ele diz que a ideia surgiu após uma viagem à Patagônia em 2016, onde se deparou com uma enorme quantidade de resíduos plásticos e linhas de pesca que poluíam os fiordes da região chilena. Como profissional do setor, ele logo entendeu que “aquilo não era lixo, mas matérias-primas valiosas que poderiam ser recicladas”.

Projeto Atando Cabos, no Chile, coleta resíduos plásticos, como redes de náilon, cordas de poliéster e pallets de plástico, transformando-os em novos itens. Imagem: Atando Cabos.

A equipe do Atando Cabos trabalha junto à população local, principalmente pescadores, que os ajudam a coletar esses resíduos plásticos no sul do Chile. As cargas são enviadas a uma fábrica na capital, Santiago. Lá, o plástico ganha uma nova vida, transformado em produtos como estrados ou caixas de frutas.

A tecnologia blockchain garante que os atores envolvidos na cadeia de valor acompanhem a jornada dos materiais e que os resíduos sejam tratados conforme os melhores padrões ambientais e de qualidade. 

Os dados registrados por meio dessa tecnologia são seguros e inalteráveis. E cada etapa — da coleta à produção de um novo material — é documentada em um livro-razão online, que pode ser acessado por meio de um QR code anexado ao produto. 

Compagnon diz ter sido incentivado a usar esse método para fornecer uma prova compreensível e acessível de que os produtos eram de fato feitos de material reciclado.

Em 2019, Atando Cabos ganhou um prêmio de iniciativas verdes na América Latina. Atualmente, o projeto ajuda na reciclagem de mais de 2,3 mil toneladas de resíduos anuais.


Brasil: lixo transformado em energia no Rio

Em uma grande cidade como o Rio de Janeiro, onde mais da metade dos resíduos gerados são orgânicos — via de regra, descartados em aterros sanitários em forma de rejeito —, a gestão sustentável de resíduos sólidos é vital.

Desde 2018, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb) mantém uma usina de processamento de resíduos orgânicos pioneira na América Latina. A instalação localizada no Caju, na zona norte, processa 12,5 toneladas de resíduos por dia, transformando-os em biogás e adubo.


Funcionários da Comlurb limpam as praias da cidade do Rio de Janeiro após o réveillon, em janeiro de 2023. Mais da metade dos resíduos gerados no Rio é considerado orgânico, e o serviço municipal de limpeza visa transformar parte disso em biogás e composto orgânico. Imagem: Jose Lucena / ZUMA Press / Alamy.

A usina de processamento é autossuficiente graças à geração de biogás e ainda produz adubo para uso no programa Hortas Cariocas, financiado pela ONU. O composto da Comlurb tem seu próprio nome — Fertilurb — e é apresentado como um “super adubo” devido ao seu alto nível de pureza, segundo a Comlurb.

O coordenador de projetos da Comlurb, Bernardo Ornelas, observa que a iniciativa foi o primeiro “programa de coleta seletiva de orgânicos” na cidade e foi lançada inicialmente em escolas municipais e supermercados.

Juntamente com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Comlurb está estudando formas de expandir a reciclagem de resíduos orgânicos no Rio de Janeiro para processar até 150 toneladas diárias. A previsão é de que isso ocorra nos próximos três anos.

Esse montante, no entanto, ainda não chega perto das 8,5 mil toneladas de resíduos destinados diariamente ao aterro sanitário de Seropédica, na região metropolitana do Rio. No aterro, parte do chorume líquido também é tratado para virar água de reuso. 


Uruguai: leis contra resíduos eletrônicos

O Uruguai tem a maior produção per capita de resíduos eletrônicos do Cone Sul, com uma média de 14,8 kg de materiais desse tipo descartados por habitante a cada ano, um recorde regional. Estudos do Ministério do Meio Ambiente do país atribuem esse alto descarte com o alto produto interno bruto per capita do país. 

A criação de uma legislação específica sobre a reciclagem de lixo eletrônico e aparelhos elétricos é fundamental, porque é um dos resíduos sólidos que mais cresce. A norma pode ajudar a monitorar a evolução dessa prática e a definir políticas eficazes para combater o descarte ilegal, promover a reciclagem e criar empregos no setor. Porém, até 2023, apenas cinco países da América Latina tinham regulamentações específicas.

Evento de reciclagem de eletrônicos organizado pelo Ministério do Meio Ambiente do Uruguai no Parque Rodó, em Montevidéu. O governo uruguaio quer regulamentar a gestão e o tratamento dos resíduos eletrônicos. Imagem: Ministério de Meio Ambiente do Uruguai.

Em junho de 2023, o Ministério do Meio Ambiente do Uruguai assinou um acordo com a prefeitura de Montevidéu e a cooperativa de reciclagem Volver a la Vida para expandir sua reciclagem de eletrônicos. O município fornece as instalações e faz a coleta dos resíduos, enquanto a cooperativa é responsável pelo reparo de produtos e pela recuperação de componentes ainda úteis. O projeto visa promover uma economia circular, bem como a inclusão social, empregando e treinando pessoas em condição de vulnerabilidade para atuar na cooperativa de reciclagem.

O governo uruguaio também trabalha na criação de uma regulamentação específica sobre a gestão e o tratamento desses equipamentos com base na Lei de Gestão Integrada de Resíduos, aprovada em 2019. 

A iniciativa da Volver a la Vida segue as diretrizes do Projeto Resíduos Eletrônicos da América Latina (Preal), que incentiva sua redução e o descarte adequado. O Preal defende aumentar a responsabilidade dos produtores de eletrônicos sobre o descarte adequado, disseram María José Crovetto e Gariné Guerguerian, consultores do Ministério do Meio Ambiente, órgão integrante do projeto. Isso poderia obrigar os fabricantes a financiar programas de coleta e reciclagem ou a criar produtos mais fáceis de reciclar, por exemplo.


Equador e Peru: aplicativo para recicladores

Melhorar a gestão de resíduos e promover a inclusão na reciclagem no Equador: esses foram os objetivos que levaram à criação do ReciVeci, aplicativo e plataforma que facilitam a colaboração entre cidadãos e catadores autônomos. Hoje, o app está disponível nas cidades de Quito, Cuenca, Guayaquil e, em 2023, começou sua expansão para o Peru.

“O ReciVeci nasceu da necessidade de resolver dois problemas: a geração de resíduos sólidos e a demanda dos catadores”, explicou Sofía Baque, coordenadora de parcerias da plataforma. 

Por meio de um mapa interativo, o aplicativo permite que os cidadãos localizem catadores para a coleta diretamente em suas residências. Isso permite que os usuários conheçam seus recicladores, “o que cria um vínculo que promove entregas regulares e uma relação de confiança mútua”, disse Baque.

O aplicativo ReciVeci, disponível nas cidades equatorianas de Quito, Cuenca e Guayaquil, permite que os cidadãos localizem catadores para a coleta diretamente em suas residências. Imagem: ReciVeci

O aplicativo, que começou como um projeto voluntário e coletivo, obteve um capital inicial de US$ 10 mil de investidores após vencer um desafio de empreendedorismo urbano em 2018. Esse financiamento permitiu o desenvolvimento de uma nova versão do aplicativo, “mais interativa e que nos permitiu nos consolidar como uma startup”, acrescentou Baque.

Além de conectar os catadores de materiais recicláveis com os cidadãos, os usuários do ReciVeci podem acumular pontos e trocá-los por prêmios, incentivando o público a reciclar ainda mais. O aplicativo também fornece métricas aos usuários, ajudando-os a medir e quantificar seu próprio impacto na gestão de resíduos. 

Segundo Baque, o app já ajudou a coletar 150 toneladas de resíduos e conta com dois mil catadores registrados. Já Lorena Gallardo, fundadora da iniciativa, disse recentemente ao podcast da Forbes Ecuador que eles recuperaram 200 toneladas de material reciclável e, com base em seus cálculos, evitaram a emissão de 300 toneladas de dióxido de carbono.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Reciclagem de roupas em Nice

Na Europa, os pontos de entrega voluntária para reciclagem de roupas são iniciativas comuns em muitos países, visando reduzir o desperdício têxtil e promover a sustentabilidade. Esses pontos podem ser encontrados em diversas localidades, como supermercados, shopping centers, lojas de roupas e áreas residenciais. Eles geralmente consistem em grandes contêineres ou caixas onde as pessoas podem depositar suas roupas usadas, calçados e até mesmo acessórios que não desejam mais.

Esses itens coletados são então encaminhados para triagem, onde são classificados de acordo com seu estado de conservação. Roupas em bom estado são frequentemente doadas para instituições de caridade ou revendidas em brechós, enquanto tecidos danificados podem ser reciclados em novos produtos têxteis, como panos de limpeza ou materiais de isolamento.

Na França, a reciclagem de roupas é uma prática bem estabelecida e promovida por organizações como a Le Relais, que opera centenas de pontos de coleta em todo o país. Em Nice, especificamente, essa iniciativa tem sido bastante significativa. A cidade dispõe de vários pontos de coleta distribuídos estrategicamente para facilitar o acesso dos moradores. Além dos tradicionais contêineres de rua, Nice conta com parcerias entre a prefeitura e ONGs locais que promovem campanhas de conscientização e incentivam a população a participar ativamente do processo de reciclagem.

Os pontos de coleta em Nice são frequentemente encontrados em áreas de alta circulação, como perto de centros comerciais e bairros residenciais. Esses pontos são regularmente esvaziados e o material recolhido é encaminhado para centros de triagem, onde as roupas são separadas para reutilização ou reciclagem. As roupas em boas condições são doadas para instituições de caridade locais, enquanto os tecidos danificados são processados para serem transformados em novos produtos.

A iniciativa em Nice é parte de um esforço maior para criar uma economia circular, onde os resíduos têxteis são minimizados e reaproveitados, contribuindo para um ambiente mais sustentável e uma comunidade mais consciente.




 

sábado, 20 de abril de 2024

Lixo nas ruas do Rio: um prejuízo de milhões para todos.Entenda

Apesar dos esforços e da tecnologia empregados — além da insubstituível vassoura —, parte dos detritos ainda fica pelo caminho, em encostas de morros e às margens de rios e lagoas


Lixo acumulado pela cidade. Na foto, a Rua Fernando Guimarães, em Botafoto. — Foto: Márcia Foletto

Eleita recentemente pela revista Time Out a oitava rua mais legal do mundo, a Arnaldo Quintela, em Botafogo, tem um lado “B” nada glamouroso. Nas primeiras horas do dia, depois que os boêmios se recolhem, quem sofre são os pedestres, obrigados a desviar de pilhas de lixo. A situação não é diferente em outros pontos da cidade. Na Urca, funcionários de um bar diante da mureta à beira da baía — ponto disputado por locais e turistas — recorrem ao “jeitinho’’ enquanto os garis não aparecem: em vez de guardar o material descartado até a coleta passar, varrem os detritos e os deixam esparramados ao lado de uma lixeira.

Na avaliação de especialistas, essa relação do carioca com seu lixo se explica por vários fatores, a começar pela falta de educação.

— O brasileiro, não só o carioca, não se preocupa porque acha que já paga para o lixo ser retirado, e que há alguém para fazer isso por ele. Só que não leva em conta que esse tipo de comportamento pode se reverter contra si, se esse lixo obstruir bueiros e contribuir para enchentes e doenças — diz a psicóloga Claudia Melo, especializada em terapia cognitiva e comportamental.

Na Zona Norte, a aposentada Maria Helena dos Santos, que convive diariamente com a sujeira jogada na Rua Marechal Bittencourt, no Riachuelo, onde mora, tem suas queixas:

— O lixo se acumula aqui por culpa da própria população. Eu separo reciclados, mantenho meu lixo em uma cesta no quintal até o dia de o caminhão passar. Mas tem muito morador que se aproveita do horário irregular da coleta para jogar na rua, usando como desculpa a falta de informação.

A conta dessa sujeira é salgada e quem paga é o próprio carioca. Para cuidar da guimba de cigarro na calçada ao entulho largado em via pública, a Comlurb estima gastar por ano R$ 110 milhões, entre equipamentos e salários de garis. Esse dinheiro seria suficiente para manter dez Unidades de Pronto Atendimento (UPA) por ano ou dois grandes hospitais de emergência.

Reforço nos dias de sol

Em dias de sol forte e praias lotadas, a Comlurb recorre a quatro equipamentos manuais adaptados para a areia, que recolhem o lixo deixado por banhistas em locais como Arpoador, Barra e Piscinão de Ramos. No dia a dia, vias de grande circulação, como os calçadões de comércio de bairros (Madureira, Campo Grande, Bangu), a Rua Olegário Maciel, na Barra, e a orla chegam a ser varridas de três a cinco vezes por dia.

Apesar dos esforços e da tecnologia empregados — além da insubstituível vassoura —, parte do lixo ainda fica pelo caminho, em encostas de morros e às margens de rios e lagoas. Levado pela água, esse material pode chegar à Baía de Guanabara. Usadas para evitar esse dano, as 17 ecobarreiras do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) contêm 4.810 toneladas de detritos por mês. A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) estima que pelo menos 90 toneladas deixam de ser recolhidas por dia na cidade.

— Se um local geralmente é mantido limpo, a tendência é que não se deixe lixo ali. E nem sempre quem joga resíduos em qualquer lugar, como encostas e rios, tem consciência dos problemas ao meio ambiente — diz o coordenador de sustentabilidade da entidade, Carlos Rossini.

Em Botafogo, na Rua Fernandes Guimarães, pilhas de sujeira se acumulam em frente ao Espaço de Desenvolvimento Infantil Casa da Criança, onde estudam as filhas, de 3 e 5 anos, da empresária Michele Back, de 36 anos. Ela diz que, no caminho, sempre fica atenta para que nenhum caco de vidro fique preso nas rodas das mochilas das meninas:

— As pessoas colocam o lixo bem cedo, muito antes de o caminhão de coleta passar. A Comlurb deveria orientar os moradores a deixá-lo em um local que não fosse em frente a uma escola.
A diretora do estabelecimento, Maia Barcelos, de 38 anos, conta que o problema já tem três anos, e que pais, professores e alunos fizeram um abaixo-assinado em 2023 pedindo aos moradores que não jogassem lixo. O documento não surtiu efeito.

— A discussão passa pelo conceito do que o espaço público representa para a população. Não há um senso de pertencimento, de que a rua é de todos — observa o antropólogo Maurício Waldman, autor do livro “Lixo: Cenários e desafios”, acrescentando que eventuais atrasos na passagem dos caminhões, ausência de porteiro ou irregularidades na coleta não são justificativas para o despejo indevido.

Vassouras do jornaleiro

Ainda em Botafogo, na Rua Voluntários da Pátria, o jornaleiro Francisco de Paula, de 40 anos, diz que um dos problemas é o horário irregular da passagem dos caminhões de coleta. Sem alternativa, ele acaba bancando o “gari” da vizinhança:

— Todo dia chego uma hora antes de abrir para varrer a rua. Até fralda usada já jogaram aqui — diz Francisco, que guarda quatro vassouras na banca.

Nas comunidades em encostas, a situação chega a ser tão crítica que a Comlurb tem um time de 25 garis alpinistas. Um dos pontos em que a empresa diz atuar é o Morro da Mineira, no Catumbi. Mesmo assim, O GLOBO registrou semana passada um lixão num dos locais mais altos da favela. O problema não poupa áreas mais acessíveis, como a Favela do Metrô, na Rua São Francisco Xavier, no Maracanã, onde a Comlurb também diz fazer retiradas periódicas. Lá, um terreno baldio é usado como depósito. Os detritos chegam aos trilhos da SuperVia.

— A comunidade tem coleta, mas as pessoas jogam ali. Quando chove, o lixo se espalha pelo chão, e surgem muitos ratos e baratas — conta a merendeira Graziela Almeida, de 33 anos, moradora do Morro da Mangueira, vizinha à do Metrô.

A sujeira nos trilhos perto da Favela do Metrô está longe de ser exceção. Por mês, a concessionária recolhe em toda a rede 1.200m³ de lixo, o que seria suficiente para encher 52 vagões.

O antropólogo Roberto DaMatta afirma que o fenômeno da imundície nas ruas evidencia a necessidade de o país inteiro, e não apenas o Rio, oferecer ensino de melhor qualidade.

— Depois de adulto é difícil alguém mudar os hábitos. A questão de jogar lixo na rua se explica da mesma forma que outras regras de convívio social não respeitadas. É com o lixo, mas pode ser, por exemplo, quando a pessoa conscientemente desrespeita as leis de trânsito — diz.

Reciclagem falha

Outro lado do problema envolve o lixo reciclado, disputado por catadores informais que se antecipam à coleta oficial e, ao separar o material para revenda, muitas vezes abandonam no chão o que não podem aproveitar. Materiais como papelão, latas de alumínio, plástico e vidro só deveriam ser manipulados em instalações da Comlurb, onde catadores de cooperativas credenciadas fazem a triagem final:

— É uma questão social. O último censo da prefeitura sobre população em situação de rua (2023) indicou que, em um universo de 7.242 pessoas, cerca de 40% (2,9 mil) declaram trabalhar como catadores — explicou o coordenador da coleta seletiva da Comlurb, Édson Saint Roman.

Uma iniciativa adotada para tentar reduzir o despejo irregular perdeu força. Quem joga lixo na rua está sujeito a multas que começam em R$ 282,23 e podem passar de R$ 10 mil, conforme o volume. Na teoria. A inadimplência do programa Lixo Zero só aumenta. Em 2013 era de 40%. Em 2023 alcançou 81%













 

domingo, 7 de abril de 2024

Prefeitura inaugura a Fábrica Verde, em Cordovil

Em qualquer projeto a gestão dos stakeholders é fundamental para bons resultados. 

O Projeto da fábrica Verde em nenhum momento considerou que seria necessário interagir com a Gestora do Sistema de Limpeza Urbana da Cidade do Rio de Janeiro, e que é a operadora da coleta seletiva da cidade. 

O Projeto da fábrica Verde não levou em consideração a operação da coleta seletiva da cidade. O modelo adotado pelo Rio de Janeiro não coleta seletivamente têxtil, óleo vegetal, embalagens longa vida, eletrônicos e coco.

A esperança é que a coisa seja entregue para a Iniciativa Privada. Todavia, muito provavél é daqui a algum tempo o stakeholder Gestor do Sistema de Limpeza Urbana da Cidade do Rio de Janeiro seja convocado para ajudar quando a coisa estiver em dificuldades logisticas, assim como aconteceu com o "Recicla Comunidade".

Até um triciclo elétricopara coleta seletiva foi apresentado! Alguém sabe como vai operar? VAi sair de Cordoviu para operar em Santa Cruz, Leblon?






Meio Ambiente Notícias

A Fábrica Verde ocupa uma área de seis mil metros quadrados na Avenida Brasil - Beth Santos/Prefeitura do Rio

O prefeito Eduardo Paes e a secretária municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC), Tainá de Paula, acompanhados do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo, inauguraram, nesta quarta-feira (03/04), a primeira fase da Fábrica Verde, em Cordovil, na Zona Norte. O equipamento vai promover o aumento da reciclagem de resíduos gerados na cidade, assim como a inclusão social e econômica da população de baixa renda por meio da economia circular.

– É muito bom a gente poder fazer essa estrutura aqui na Avenida Brasil para vocês (catadores). O mais importante é que a Fábrica Verde começa a funcionar com a gestão da Secretaria de Meio Ambiente, mas sempre olhando para uma transição, para que isso aqui seja de vocês. Que o governo faça só um impulsionamento, mas que esse espaço seja sustentável e possa caminhar somente com o esforço de vocês – afirmou o prefeito Eduardo Paes.

O processo seletivo das cooperativas que vão atuar no espaço está sendo realizado e a operação deve começar em até duas semanas. Recém-adquirido pela Prefeitura do Rio, o prédio que será a sede da Fábrica Verde tem aproximadamente 6.000m² e fica localizado na Avenida Brasil. Além da reciclagem de resíduos, abrigará projetos de capacitação para cerca de 1.500 profissionais por ano.

 – Hoje, a gente apresenta a primeira fase de nossa fábrica. É a primeira vez que a gente está garantindo o lucro e o pagamento aos catadores. Eles são capazes e se autogovernam, e vão tirar o lucro a partir dos produtos. Não vão precisar terceirizar e entregar o material para as grandes empresas recicladoras. Todos os produtos da Fábrica Verde vão estar à disposição na plataforma de venda online da Prefeitura e nós vamos vender a produção diretamente  ao consumidor, não vamos distribuir lucro com empresas não preservam o meio ambiente – ressaltou a secretária de Meio Ambiente e Clima, Tainá de Paula.

O objetivo é estimular a evolução das atividades e das políticas públicas desenvolvidas em cada espaço voltado para a preservação e a conscientização ambiental.

– Essa experiência aqui da Fábrica Verde enche os olhos e tem que dar certo para ser exportada para o país inteiro. A cadeia produtiva da reciclagem é um trabalho digno como qualquer outro, não pode ser discriminada. Além de tudo, são agentes ambientais porque evitam que uma quantidade de material polua o meio ambiente – disse o ministro Márcio Macêdo.

Qualificação ajuda a ingressar no mercado formal

Os catadores que atuarem do projeto receberão uma bolsa e uma participação pelo material reciclado. Além disso, se participarem das qualificações, também terão condições de buscar oportunidades de acessar o mercado formal. A cooperativa desses trabalhadores recebe como incentivo um direcionamento dos itens recicláveis para a fábrica e apoio logístico para a venda do material.

– Para a gente, esse espaço vai ter um significado muito importante, com a inclusão direta dos catadores e catadoras de material reciclável. Isso valoriza a mão de obra e também vai agregar valor ao nosso trabalho dentro da cadeia produtiva da reciclagem. A gente vai ter um espaço que diminui os custos, porque muitos de nós pagamos aluguel pelo espaço onde são montadas as nossas bases. Tem também outros gastos, como água e luz. Então, quando se tem um parceiro que vai arcar com esses custos, você consegue agregar valor para poder aumentar a renda do catador e da catadora  – disse Claudete Costa, que será a gestora da parte de reciclagem de resíduos da Fábrica Verde.

O espaço também será uma fábrica-escola para gerar produtos finais, com valor agregado. Na medida em que as pessoas forem capacitadas, vão colocar o aprendizado delas nas peças produzidas a partir dos resíduos processados na Fábrica Verde.

A Fábrica Verde é um grande centro não só logístico, mas também para a aplicação dos resíduos em toda a cadeia produtiva da reciclagem. Hoje, a maior parte do trabalho dos catadores consiste na triagem e prensa do material coletado.

A proposta aqui é que o catador consiga, por exemplo, lavar e triturar o plástico, que passa a ter outro valor agregado e, assim, ele vai ganhar mais. Isso é transferência de tecnologia social para que esses catadores consigam agregar mais valor ao produto do seu trabalho – explicou a coordenadora da Fábrica Verde, Lívia Galdino.

Com operação plena, a Fábrica Verde vai desenvolver e gerar produtos nas suas instalações a partir do resíduo coletado. A ideia é que a parte têxtil seja utilizada também para a confecção de roupas, bolsas, estojos que podem servir para algum projeto-piloto em escola do município ou para algum hospital da rede municipal ou posto de saúde.

Outro exemplo é o óleo residencial que será coletado. A ideia é transformá-lo em cosmético. E, futuramente, a previsão é a expansão dessa planta do óleo para geração de biodiesel.

Do material coletado, o alumínio tem maior índice de reciclagem. Noventa e oito por cento do alumínio descartado hoje no Brasil são reciclados e voltam para novas latinhas. Há um volume muito grande, também, de papel, que após reciclagem serve para fazer papel e papelão reciclados.



A Fábrica Verde terá capacidade de produzir:

Triagem de recicláveis

300 toneladas de material reciclado por mês, estreitamento da cadeia de reciclagem direto para a indústria e criação de 32 postos de empregos diretos

Têxtil

Produção de nove mil cobertores e quatro mil peças de vestuário por mês, com a geração de 42 postos de emprego e faturamento de R$ 204 mil por mês.

Óleo vegetal

Produção de dois mil quilos de sabão e sabonetes por mês, com a geração de 12 postos de emprego e faturamento de R$ 15 mil/mês. Evitando a contaminação de aproximadamente 150 milhões de litros de água.

Placas de embalagem longa vida

Produção de seis mil telhas ecológicas por mês, com a geração de 12 postos de emprego e faturamento de R$ 480 mil por mês.

Eletrônicos

Recondicionamento de 50 computadores por mês, com a geração de 20 postos de emprego e faturamento de R$ 80 mil por mês.

Coco

Processamento de 80 mil quilos por mês, produção de 50 mil quilos de fibra e pallets para combustível verde, com a geração de 12 postos de emprego e faturamento de R$ 80 mil/mês.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Do Lixo à Energia: Explorando a Tecnologia da Amager Bakke

A Amager Bakke, uma instalação revolucionária localizada na capital dinamarquesa, transforma resíduos não recicláveis em eletricidade e aquecimento urbano, atendendo às necessidades de residências e empresas.



1. Recebimento de Resíduos Combustíveis

A ARC recebe resíduos combustíveis de aproximadamente 600.000 cidadãos e 68.000 empresas, e fornece electricidade e aquecimento urbano à cidade. Aproximadamente 50% dos resíduos combustíveis que a Amager Bakke recebe dos municípios proprietários provêm de residências particulares. O resto é de empresas.

Amager Bakke aceita apenas resíduos que não podem ser reciclados. Isto é importante porque é muito melhor para o ambiente e para o clima reciclar coisas e materiais do que utilizá-los como energia.


Diariamente de 250-300 caminhões que transportam resíduos são pesados e registados. Cerca de 5% deles são selecionados para verificações aleatórias para garantir que os resíduos são adequados para incineração. Verificamos se os resíduos que transportam estão bem separados e não contêm nada que possa danificar a fábrica ou que seja tóxico.

2. Silo de Resíduos

Na sala de descarga, os resíduos são despejados diretamente em um silo de 30 x 50 metros e 36 metros de altura. O silo pode conter aproximadamente 22 mil toneladas de resíduos, o equivalente a três semanas de resíduos provenientes dos municípios proprietários da Amager Bakke. Duas garras automáticas misturam os resíduos até formar uma massa uniforme. A uniformidade é importante para que o processo de incineração seja o mais estável possível.

Depois que os resíduos são misturados, as garras os levam para as tremonhas de alimentação do incinerador. Cada garra pode suspender até 15 toneladas de resíduos. Para reduzir os odores desagradáveis dos resíduos, a área de carga é mantida a uma pressão inferior à pressão do ar ambiente. O ar extraído do salão é utilizado nos incineradores.

3. Incineradores

As duas plantas incineradoras idênticas da Amager Bakke têm, cada uma, capacidade de 25 a 42 toneladas de resíduos por hora. Quando os resíduos são colocados nas tremonhas de alimentação, eles caem em um poço. Forma aqui um tampão hermético, para manter a pressão negativa no incinerador. A parte inferior do incinerador é composta por 24 fileiras de placas de aço perfuradas. Cada fileira pode se mover, formando uma enorme esteira ondulada, chamada esteira de grelha. À medida que os resíduos avançam, eles se inflamam gradualmente. A queima dos resíduos no incinerador leva de 1,5 a 2 horas a uma temperatura de 950 a 1.100 °C. A temperatura é controlada soprando ar pelos orifícios das grelhas. Quando os resíduos chegam ao final da grelha, praticamente toda a energia foi libertada como fumo aquecido.

Para cada tonelada de resíduos, a Amager Bakke pode produzir 2,7 MWh de aquecimento urbano e 0,8 MWh de eletricidade

4. Escória e Cinzas 

Quando os resíduos são incinerados, 17-20% em peso permanecem como escória. A escória consiste em cinzas de resíduos, cascalho, areia, metais e outros materiais incombustíveis. A escória é coletada em um silo de escória separado e transportada para uma instalação de triagem. É virado e regado por 3-4 meses. Este processo é chamado de maturação. O objetivo é fazer com que as partículas de metais pesados se liguem às partículas de escória para que não possam ser removidas. Após a maturação, os metais são removidos para reciclagem. Para cada 200 kg de escória, podem ser extraídos 10-15 kg de metais, que podem ser reciclados. A escória é então peneirada e pode ser usada para preenchimento de projetos de construção.

As cinzas extraídas da fumaça pelos filtros da planta contêm altas concentrações de metais pesados e outros oligoelementos. Estas substâncias provêm de resíduos que não foram separados corretamente, por exemplo, baterias. Cinzas e outros subprodutos da purificação de fumaça são usados como substitutos da cal para neutralizar resíduos de outras indústrias. A mistura adquire uma dureza semelhante à do cimento e é utilizada para recriar a paisagem de uma pedreira de calcário abandonada.

5. Caldeiras

Amager Bakke possui duas caldeiras, cada uma delas composta por uma caixa com muitos tubos bem ajustados que transportam água sob alta pressão. Os incineradores são integrados às respectivas caldeiras, para que a fumaça quente do incinerador suba e transfira sua energia térmica diretamente para a água nas tubulações. Uma bomba mantém alta pressão nas tubulações, de forma que o vapor produzido tenha pressão de 69 bar e temperatura de 440 graus. Cada caldeira pode produzir até 137 toneladas de vapor por hora. O vapor de ambas as caldeiras é coletado em uma tubulação de vapor comum, chamada de trilho de vapor, e canalizado para a turbina a vapor. Para evitar que os incineradores e caldeiras se expandam ao aquecerem, eles não ficam no chão, mas são suspensos no teto por um berço de aço.

90% da energia dos resíduos é convertida em vapor de alta pressão.

6. Turbinas e Trocadores de Calor

Uma turbina a vapor consiste em uma série de pás impulsoras montadas em um eixo. À medida que o vapor se expande através dos impulsores, é gerada energia cinética e o eixo começa a girar. O eixo está conectado a um gerador, que converte a energia em eletricidade. A produção de eletricidade é de até 63 MW.

Depois que a turbina retira a pressão e o calor do vapor, a energia térmica ainda permanece. Essa energia é utilizada nos trocadores de aquecimento urbano. A água do aquecimento urbano é aquecida nos permutadores e depois bombeada para a rede de aquecimento urbano. Quando o calor da água é aproveitado pelos consumidores, a água é devolvida e aquecida novamente. A produção de aquecimento urbano é de até 247 MW.

Amager Bakke pode adaptar a produção de eletricidade e aquecimento urbano às necessidades dos consumidores. Se for necessária muita eletricidade, todo o vapor será alimentado pela turbina. Mas se for necessário muito aquecimento urbano, o vapor é desviado pela turbina e diretamente para os trocadores de calor. Os resíduos são um recurso, por isso a ARC adapta a produção às necessidades da cidade todos os dias, durante todo o ano. Se for necessária muita energia, a planta converte mais resíduos do que quando a demanda é baixa. Desta forma, a Amager Bakke apoia a energia renovável proveniente da energia eólica e solar.

7. Purificação dos Gases de Combustão

Depois que a fumaça passa pelas caldeiras e libera seu calor, ela deve ser purificada. Cada linha de incinerador possui um sistema separado de purificação de fumaça, que consiste em um filtro elétrico, um catalisador, três lavadores e um filtro de poeira. O sistema de purificação de fumaça da Amager Bakke é um dos melhores do mundo. Amager Bakke é também a primeira central de energia residual na Dinamarca a ser equipada com um catalisador para remover óxidos de azoto (NOx).


A maior parte da poeira e das cinzas da fumaça, o que chamamos de cinzas volantes, é removida pelo filtro elétrico. A fumaça passa então pelo catalisador, que remove o NOx. O primeiro purificador remove ácido clorídrico, mercúrio e outras substâncias indesejáveis, enquanto o segundo remove dióxido de enxofre com cal. O terceiro depurador é um 'depurador de condensação'. O vapor de água é condensado em gotículas de água aqui, para que as bombas de calor possam utilizar o calor residual da fumaça. O calor residual é enviado através de trocadores de calor para a rede de aquecimento urbano. No total, aproximadamente 20% da produção de aquecimento urbano provém das bombas de calor ligadas ao sistema de purificação de fumos. A última etapa de purificação é um filtro de poeira úmido, que remove os últimos restos de poeira da fumaça.

Antes que a fumaça purificada chegue à chaminé, ela passa por uma estação de medição, que registra constantemente o teor de poluentes. Isto significa que a ARC pode garantir que todos os requisitos ambientais sejam cumpridos.

8. Tratamento de Água

Os resíduos contêm muita água, gerando muito vapor d'água na incineração. A maior parte da água é coletada pelo sistema de purificação de fumaça. Em plena carga, nos dois incineradores, são produzidos até 13 m3 de águas residuais por hora. As águas residuais começam com um valor de pH entre 0,5 e 2,5 e são purificadas e neutralizadas em quatro etapas:

Primeiramente, são adicionadas cal e soda cáustica, que neutralizam as águas residuais a um valor de pH entre 7 e 8. Na etapa seguinte, as partículas da água depositam-se como lodo em grandes tanques. O lodo úmido é encaminhado para um filtro-prensa, onde a maior parte da água é espremida. O lodo é coletado em um recipiente e despejado junto com as cinzas volantes. Na terceira etapa, a água passa por filtros de areia e removedores de amônia. As partículas menores que não haviam assentado anteriormente são então filtradas. O excesso de amônia nos decapantes de amônia é reciclado para limpeza de chaminés. A última etapa de limpeza consiste em filtros de carbono e troca iônica. Estes removem os últimos restos de materiais orgânicos e metais.

9. Monitoramento

Toda a usina funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, e o processo é monitorado 24 horas por dia – desde a pesagem até o tratamento da água. Um Sistema de Controle, Regulação e Monitoramento, com aproximadamente 10 mil pontos de alarme e sistemas visuais, permite que os colaboradores da sala de controle acompanhem todo o processo.

Amager Bakke possui 850 bombas, sopradores e compressores, 1.800 válvulas e 3.300 instrumentos de medição.

A Amager Bakke representa um marco na gestão de resíduos e na produção de energia, demonstrando como a tecnologia moderna pode transformar desafios ambientais em soluções sustentáveis.

Inglaterra anuncia novas regras de reciclagem para facilitar o processo

O governo inglês espera que, com as mudanças, as taxas de reciclagem aumentem

Por Redação, do Um Só Planeta


O governo da Inglaterra anunciou novas regras de reciclagem de lixo doméstico e empresarial e afirmou que elas foram concebidas para facilitar o processo, reprimir os “transportadores de resíduos inescrupulosos”, evitar o número excessivo de contentores e proteger o meio ambiente. “Uma reciclagem mais simples irá nos ajudar a reciclar mais facilmente, fazendo a nossa parte para ajudar a salvar o planeta e a fazer o melhor uso dos recursos preciosos que utilizamos todos os dias”, disse Therese Coffey, secretária do Meio Ambiente.

Segundo reportagem da BBC, a Inglaterra recicla atualmente cerca de 44% dos seus resíduos domésticos, um número que pouco mudou desde 2010. Com as mudanças, a expectativa é que este índice aumente.

Uma das novas medidas é que toda população poderá reciclar os mesmos materiais, seja em casa, no trabalho ou na escola, pondo fim à confusão sobre o que pode e o que não pode ser reciclado nas diferentes regiões inglesas. Outra novidade é a recolha semanal de resíduos alimentares para compostagem, que será introduzida gradualmente para a maioria das famílias até 2026.

Além disso, haverá novas isenções para garantir que os coletores de resíduos recolham os materiais recicláveis secos em conjunto, tudo no mesmo recipiente ou saco, assim como os resíduos orgânicos. O objetivo é reduzir o número de contentores necessários.

De acordo com o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais, as reformas introduzirão um sistema mais conveniente e prático, que evita que os municípios sejam atingidos por uma complexidade adicional, garantindo ao mesmo tempo que todas as autoridades locais recolhem os fluxos de resíduos recicláveis necessários: vidro, metal, plástico, papel e cartão, desperdício de comida e resíduos de jardim.

A BBC destaca que os municípios continuarão a ter flexibilidade para escolher se pedem às pessoas que agrupem toda a sua reciclagem a seco ou separem, por exemplo, em vidro, papel ou metal.

“O anúncio de que os conselhos poderão recolher resíduos da forma que decidirem é uma vitória do bom senso”, disse a vereadora Sarah Nelmes, porta-voz ambiental da Rede do Conselho Distrital, à reportagem. “Podemos continuar a contar com soluções locais que aumentaram as taxas de reciclagem”.