Sou remador e frequento a Lagoa Rodrigo de Freitas com enorme regularidade. Por isso, minha avaliação sobre a chamada Marinha Laranja não vem de uma visita eventual à margem. Vejo a Lagoa a partir da água, vejo o lixo quando existe e vejo as embarcações trabalhando — ou procurando trabalho. E cheguei a uma conclusão incômoda: manter quatro embarcações contratadas para a limpeza rotineira da Lagoa é, diante da demanda que observo, um desperdício notório de recursos públicos.
Duas dessas embarcações possuem dispositivos para recolhimento de resíduos flutuantes. O problema é elementar: quase nunca há resíduos em quantidade que justifique a operação. Depois de chuvas fortes pode aparecer algum material, mas o vento e a própria dinâmica da Lagoa tendem a levá-lo para as margens. O que vejo com frequência são embarcações percorrendo o espelho d’água praticamente sem recolher nada. Outra transporta uma equipe que desembarca para retirar resíduos acumulados junto à margem — serviço que, em muitos trechos, poderia ser realizado por terra, utilizando a ciclovia e meios operacionais incomparavelmente mais simples. Não é preciso ser engenheiro naval para perceber o problema: contratamos água para executar parte de um serviço que poderia chegar pela calçada.
Houve um tempo em que a situação era diferente. Mortandades de peixes exigiam mobilização extraordinária, e as fotografias antigas registram operações reais de retirada. Também havia grande quantidade de vegetação aquática sendo removida. Mas as intervenções de saneamento e a melhoria das condições ambientais alteraram esse cenário. A última grande mortandade documentada ocorreu em 2019, e os boletins recentes de monitoramento apontam condições de equilíbrio para a proteção da fauna aquática, embora persistam outros problemas de qualidade da água. A contingência que justificava uma grande capacidade de resposta deixou, há anos, de ser rotina.
Resta a embarcação destinada justamente à vegetação aquática. E aí a contradição fica ainda mais visível. Nesta semana, remando, encontrei novamente acúmulos de algas e vegetação. É precisamente o tipo de serviço para o qual esse equipamento deveria existir. Entretanto, minha percepção é a de que a embarcação passa longe dos pontos onde a demanda está. Não sei se isso decorre de restrição contratual, orientação operacional, preservação do equipamento ou simples ausência de supervisão. Mas, para quem está sobre a água, o resultado é o mesmo: o equipamento especializado existe e a vegetação continua lá.
É aí que o problema deixa de ser náutico e passa a ser gerencial. Se as embarcações são contratadas, alguém precisa medir sua produção. Quantas horas efetivamente produtivas cada uma realiza? Quantos quilos de resíduos os dois catamarãs recolhem? Quantas ocorrências justificam a chata? Quanto de vegetação o ceifador remove? Qual é o custo mensal de cada serviço? E, principalmente, qual seria o custo de atender a demanda real com uma estrutura menor, reforçada apenas quando necessária?
As fotografias que acompanham este texto são de outros tempos. Em uma delas, vê-se uma embarcação carregada de vegetação retirada da Lagoa. Na outra, uma grande mortandade de peixes sendo enfrentada a partir da margem, com meios relativamente simples. São imagens importantes porque mostram que embarcações fazem sentido quando existe trabalho para elas — e que mesmo uma emergência pode ser enfrentada sem transformar capacidade excepcional em rotina permanente.
Não proponho abandonar a limpeza náutica. Proponho algo muito mais elementar: dimensioná-la pela demanda. Uma embarcação para vegetação, capacidade de resposta para contingências e meios terrestres para aquilo que chega às margens podem ser mais racionais do que quatro barcos contratados circulando diariamente em busca de serviço.
Há desperdícios escondidos em planilhas. Este não.
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