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sábado, 18 de abril de 2026

Poliguindaste, Rollon e a inteligência da plataforma multiuso




O Percolado já chamou atenção sobre a importância da versatilidade ao criticar a existência de sistemas “isolados, estanques e não integrados” e defender uma frota mais flexível, capaz de compartilhar usos e reduzir desperdícios operacionais. A ideia continua atual: em vez de pensar o caminhão como equipamento de função única, vale pensá-lo como transportador de módulos. O chassi deixa de ser o fim e passa a ser o meio.

É exatamente isso que os sistemas tipo poliguindaste, hook lift e roll on/roll off permitem. Em páginas técnicas de fabricantes, esses sistemas aparecem associados a uma variedade impressionante de módulos: plataformas planas, caçambas basculantes, tanques de água, contêineres para recicláveis, tanques de líquidos, limpa-fossa, canal jet e até frentes de lavagem de ruas. A lógica é simples: um mesmo veículo pode montar e desmontar rapidamente diferentes carrocerias conforme a necessidade do dia, em vez de obrigar a prefeitura a manter vários veículos especializados, cada um subutilizado em grande parte do tempo.

As imagens anexas ajudam a visualizar essa ideia de forma muito concreta. Numa delas aparecem caixas abertas e um módulo compactador ou de transferência; em outra, uma antiga estação multi compartimentada para recicláveis; na terceira, uma estação mais moderna, compacta e fechada, capaz de funcionar como ponto de entrega e armazenamento controlado. São gerações diferentes de um mesmo raciocínio: a utilidade está no módulo, não apenas no caminhão. E isso não é abstração. Cidades como Oslo e Tilburg operam estações móveis de reciclagem em forma de contêiner, deslocadas para diferentes pontos da cidade em dias e horários definidos, mostrando que o próprio “ecoponto” pode ser entendido como plataforma transportável.

Para uma prefeitura menor, isso tem um apelo enorme. Com uma frota enxuta, seria possível montar um arranjo em que poucos veículos de gancho ou rollon atendessem múltiplas funções: hoje um módulo de transporte de resíduos; amanhã uma plataforma para equipamentos; depois um tanque-pipa; em outra situação, um ponto móvel de coleta seletiva; numa festa popular, um compactador portátil; numa emergência, um módulo de apoio operacional. Fabricantes de hooklift destacam justamente essa rapidez de troca e a possibilidade de um único caminhão atender vários serviços por dia, enquanto os compactadores portáteis sobre gancho mostram outra vantagem: dispensam infraestrutura fixa pesada e podem ser deslocados quando o evento, a obra ou a necessidade mudam de lugar.

Esse raciocínio conversa diretamente com reflexões antigas do próprio blog. Quando o Percolado tratou do sistema roll on/roll off e do conceito de viatura satélite, a questão central já estava posta: faltava discutir um modelo de frota flexível integrada. O exemplo do Jolly Lift, lembrado no blog, ia exatamente nessa direção ao mostrar um veículo satélite apto a transportar unidades roll on/roll off, como caçambas e plataformas multiusos. O problema, muitas vezes, não está na ausência de equipamento, mas na pobreza da imaginação administrativa que enxerga cada veículo como peça rígida, condenada a uma única tarefa.

No fundo, a grande virtude do poliguindaste e do rollon não é mecânica; é gerencial. Eles permitem que uma prefeitura pequena pense grande sem precisar ter uma frota grande. Permitem combinar economia de escala com adaptação local, transformar módulos em resposta operacional e aproximar a gestão pública de uma ideia muito cara ao Percolado: a de que criar uma zona de economia exige rever conceitos antigos e abandonar sistemas estanques. Em vez de muitos veículos para poucos usos, poucos veículos para muitos módulos. Talvez seja essa a forma mais inteligente de modernização: menos espetáculo de frota e mais inteligência de plataforma.

Assédio político-eleitoral: uma mudança importante de postura


 A nova peça do Programa de Integridade da Comlurb contra o assédio político-eleitoral merece registro porque simboliza uma mudança institucional relevante. Em uma companhia que já conviveu com reuniões, cafés da manhã, feijoadas supostamente voluntárias e outros rituais de mobilização política em ambiente de trabalho, chegar a uma comunicação oficial afirmando que opiniões políticas pertencem à esfera pessoal do empregado e que não se admite pressão hierárquica ou constrangimento eleitoral é, sim, uma evolução importante.

A notícia é clara ao afirmar que não são compatíveis com o ambiente de trabalho atitudes como pressionar colegas a apoiar candidatos, fazer comentários ofensivos sobre posicionamentos políticos, usar a posição hierárquica para influenciar escolhas pessoais e criar situações de intimidação. Essa formulação está em linha com o entendimento hoje consolidado na Justiça do Trabalho e no Ministério Público do Trabalho: assédio eleitoral é prática abusiva que visa influenciar ou manipular voto, apoio, orientação ou manifestação política de trabalhadores, violando a liberdade de escolha e a dignidade no trabalho.

O contraste com o passado ajuda a dimensionar essa mudança. Em 2018, o episódio da reunião na quadra da Estácio de Sá com funcionários da Comlurb, para pedido de votos em favor de candidaturas ligadas ao então prefeito, ganhou ampla repercussão pública, gerou questionamentos políticos e foi citado inclusive em denúncia político-administrativa na Câmara do Rio e em cobertura da Agência Brasil. Não se trata aqui de revisitar o escândalo por gosto retrospectivo, mas de notar a distância entre aquele ambiente e o texto que hoje a própria Companhia divulga oficialmente.

Essa mudança de postura é importante também porque o assédio político-eleitoral costuma se esconder sob formas aparentemente banais. Nem sempre ele aparece como ordem explícita. Muitas vezes vem como convite insistente, reunião “espontânea”, sugestão de lealdade, comentário intimidatório ou uso velado da hierarquia para induzir comportamento. As cartilhas do MPT e dos tribunais trabalhistas insistem exatamente nisso: o problema está no constrangimento e na influência indevida sobre a liberdade política do trabalhador, ainda que o gesto venha disfarçado de cordialidade, integração ou adesão informal.

Mas, como em outras formas de assédio, campanha e cartaz não bastam por si mesmos. Eles têm valor pedagógico, ajudam a nomear a conduta abusiva e oferecem canais de denúncia, o que já é bastante. Ainda assim, a transformação cultural só se consolida quando a organização demonstra que a regra vale de verdade, inclusive para quem ocupa posições de mando. O assédio político-eleitoral não se combate apenas com comunicação institucional; combate-se com prevenção, acolhimento, apuração séria e responsabilização de quem instrumentaliza o ambiente de trabalho para fins eleitorais.

No fim, o cartaz da Comlurb vale menos pela obviedade do que diz e mais pelo que revela sobre a trajetória da própria Companhia. Sair de um cenário em que a fronteira entre trabalho e mobilização política parecia perigosamente porosa para outro em que se afirma, de forma explícita, o direito do empregado à sua liberdade política, é um avanço institucional real. O desafio, agora, é fazer com que essa boa formulação não seja apenas uma peça de integridade, mas um critério efetivo de convivência e comando dentro da empresa.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Containers em Kandersteg: menos romantização, mais sistema





As imagens de Kandersteg têm um mérito especial porque ajudam a desmontar uma idealização frequente sobre a limpeza urbana europeia. Não aparece nelas um cenário de perfeição cenográfica. Os containers são grandes, cinzentos, gastos, com marcas de uso, alguma pichação e implantação bastante simples, às vezes apenas junto ao meio-fio, outras vezes protegidos por soluções rudimentares de madeira ou concreto. E, no entanto, funcionam dentro de uma lógica clara. Talvez essa seja a lição mais interessante: a qualidade do sistema não depende apenas da beleza do recipiente, mas da combinação entre regra, rotina e adequação ao lugar. Em Kandersteg, os containers não precisam ser elegantes para cumprir sua função num vilarejo alpino de baixa densidade e forte presença paisagística.

O detalhe decisivo está nos avisos afixados nos próprios recipientes: “for taxed garbage bags only”. Isso coincide exatamente com a orientação oficial da comuna, que informa coleta semanal às terças-feiras e determina que os sacos de lixo só sejam colocados para fora na manhã da coleta, porque animais silvestres e cães podem rasgá-los. A mesma documentação municipal orienta o uso de sacos oficiais taxados ou com selo tarifário, em linha com o modelo suíço de pay-as-you-throw, no qual o descarte do lixo comum é cobrado por saco, enquanto a separação de recicláveis é estimulada por outras vias. Ou seja, o container é apenas a peça visível de um sistema econômico e normativo mais amplo.

Há ainda um pequeno detalhe de urbanidade que vale registro: ao lado dos containers aparece a papeleira verde para dejetos caninos, outra evidência de que a organização do espaço público é feita por camadas de funções específicas. O conjunto não busca esconder completamente o resíduo, mas enquadrá-lo. No Percolado, isso interessa porque reforça uma ideia recorrente: o problema do lixo não se resolve só com equipamento novo ou solução milagrosa. Resolve-se, antes, com sistema, clareza de uso e desenho compatível com o território. Em Kandersteg, os containers são quase prosaicos. E talvez seja justamente por isso que ensinam tanto.

Viatura satélite em Siena: quando a limpeza urbana entende a cidade





As imagens feitas em Siena dizem muito mais do que parece à primeira vista. Em plena rua estreita, histórica e tomada por pedestres, vê-se uma pequena viatura de coleta operando sem interromper completamente a vida urbana. Para quem pensa limpeza urbana, a cena é didática: há cidades em que o equipamento precisa se adaptar ao tecido urbano, e não o contrário. O centro histórico de Siena, reconhecido pela UNESCO como exemplar de cidade medieval preservada, com traçado antigo mantido ao longo dos séculos, não comporta a lógica bruta da grande viatura entrando onde pode e impondo sua escala ao espaço.

Nas fotos, o que aparece é o que, entre nós, faz todo sentido chamar de viatura satélite. A função sugerida pelas imagens é muito clara: trata-se de um equipamento de pequeno porte, compatível com rua estreita, alta densidade de pedestres e forte sensibilidade paisagística. É o tipo de solução adequada para fazer a coleta fina, de proximidade, onde a grande viatura seria desproporcional, incômoda ou simplesmente inviável. Nas imagens, a própria escala do veículo em meio à multidão já conta essa história.

Essa leitura se torna ainda mais plausível quando se observa o sistema de resíduos do centro histórico de Siena. O serviço oficial informa que, no Centro Storico, a coleta é porta a porta, com uso de sacos específicos por fração e horários determinados para exposição dos resíduos, em janelas da manhã entre 6h e 8h30, variando conforme a zona. O município e a Sei Toscana também vêm reforçando a distribuição de sacos e a reorganização desse modelo no centro histórico. Ou seja: não se trata de uma coleta apoiada em grandes contêineres permanentes na rua, mas de uma operação mais delicada, ritmada e ajustada à morfologia urbana. Nessa circunstância, a pequena viatura não é detalhe; é peça central da compatibilização entre serviço e cidade.

O conceito de viatura satélite sempre me pareceu um dos mais inteligentes da limpeza urbana, justamente porque ele reconhece que nem toda coleta precisa ser feita diretamente pelo caminhão principal. Em certos ambientes, a solução mais racional é fragmentar a operação: um veículo menor entra onde a região densa ou congestionada exige delicadeza; depois, em algum ponto de apoio, aquilo que foi recolhido segue para a etapa de remoção em escala maior. É uma lógica operacional de transbordo em miniatura, aplicada ao espaço urbano difícil. O ganho não é apenas de acesso. É também de convivência com o entorno.

Siena ajuda a enxergar isso com nitidez porque seu centro histórico não é apenas antigo; ele continua intensamente vivo, comercial, turístico e pedonal. As imagens mostram exatamente essa convivência tensa entre fruição urbana e necessidade operacional: lojas abertas, fluxo intenso de pessoas, fachadas preservadas e, ao mesmo tempo, a limpeza acontecendo. A qualidade da solução está em não transformar a operação em agressão visual e funcional. A viatura pequena passa quase como um corpo tolerável dentro da rua. Ela não desaparece, mas tampouco sequestra a cena. Em lugares assim, o bom equipamento não é o maior nem o mais impressionante. É o que consegue cumprir sua função sem violentar a escala do lugar.

Talvez essa seja a principal lição dessas fotos de Siena. Limpeza urbana de qualidade não depende apenas de mais máquinas ou de maior capacidade volumétrica. Depende de inteligência tipológica. Há territórios para compactadores pesados, há territórios para coleta manual, e há territórios — como os centros históricos vivos — em que a viatura satélite parece ser a síntese mais civilizada entre operação e cidade. Quando a limpeza urbana compreende a forma urbana, deixa de ser apenas serviço e se torna também uma expressão de respeito ao lugar.

Estações de recebimento na Toscana: o resíduo como parte do desenho urbano




As imagens da Toscana mostram um tipo de solução que sempre me chama atenção: a estação de recebimento de resíduos pensada não apenas como equipamento funcional, mas como parte do espaço urbano. Não se vê ali um amontoado casual de recipientes. Vê-se um conjunto padronizado, compacto, claramente identificado por frações — vidro, papel e papelão, multimaterial, orgânico e rejeito — que organiza o descarte e, ao mesmo tempo, procura reduzir o impacto visual na rua. É uma lição simples: o acondicionamento também é urbanismo.

Na área da Toscana Sul, esse tipo de coleta é operado pela Sei Toscana, gestora do ciclo integrado de resíduos urbanos em 104 municípios. A própria empresa explica que, em muitos municípios, a coleta diferenciada convive com sistemas de recebimento em via pública, enquanto em outros há coleta porta a porta. Nos casos de estações como as das fotos, a lógica é a da proximidade: o cidadão encontra, num mesmo ponto, as várias possibilidades de separação, com comunicação visual direta e cores que ajudam a reduzir erro de descarte.

O aspecto mais interessante talvez esteja na combinação entre padronização e evolução. A reorganização recente dos serviços em municípios da Toscana Sul tem substituído antigos cassonetti por modelos mais modernos, com melhor impacto visual, maior capacidade e, em vários casos, sistemas informatizados preparados para uso com cartão de acesso. Em algumas localidades, uma mudança importante foi separar o vidro do multimaterial, reforçando a qualidade da coleta diferenciada. Isso aparece nas imagens de forma muito clara: cada fração ganha seu próprio corpo, sua própria boca de recebimento e sua própria mensagem de orientação.

Esse tipo de estação revela uma visão madura sobre limpeza urbana. Em vez de esconder o problema ou tratá-lo apenas como etapa final da coleta, o sistema assume que o ponto de entrega é parte decisiva da cadeia. Se o local de descarte é claro, acessível e bem desenhado, a adesão do usuário tende a melhorar. O recipiente deixa de ser apenas um depósito e passa a ser também um instrumento pedagógico. Há aí uma ideia cara ao Percolado: o equipamento não resolve tudo sozinho, mas pode induzir comportamento quando é bem inserido no contexto urbano.

No fim, essas imagens da Toscana valem menos como exotismo europeu e mais como referência de racionalidade. Não há nelas exuberância tecnológica desnecessária. O que existe é organização, clareza de frações, cuidado visual e tentativa de tornar o descarte compatível com a rua. É uma boa lembrança de que a coleta seletiva não começa no caminhão nem termina na usina. Ela começa muito antes, no modo como a cidade oferece ao cidadão um lugar inteligível para separar e entregar o que descarta.

Em Kandersteg, o resíduo ganhou abrigo




As imagens de Kandersteg, na Suíça, mostram algo aparentemente banal: um pequeno abrigo de madeira para resíduos. Mas é justamente nessa banalidade que está a lição. Numa vila alpina do Oberland Bernês, marcada por chalés tradicionais e forte vocação turística, o acondicionamento dos resíduos não aparece como apêndice feio da paisagem, mas como parte dela. Em vez de sacos expostos, caçambas improvisadas ou recipientes sem mediação urbana, vê-se um pequeno volume arquitetônico que dialoga com o entorno e quase se confunde com ele. Kandersteg é apresentada pelo turismo suíço como uma vila de chalés centenários e paisagem alpina preservada; o abrigo de resíduos, ali, parece obedecer à mesma lógica de sobriedade e integração.

O mais interessante é que o abrigo não é apenas cenográfico. Nas fotos, vê-se um compartimento simples, com grandes aberturas, onde estão posicionados contêineres móveis, metálicos e plásticos, protegidos da vista direta da rua e do impacto climático. Os adesivos laranja indicam que o espaço é destinado a sacos tarifados, o que coincide com a orientação oficial do município: em Kandersteg, o lixo domiciliar deve ser colocado em sacos oficiais da AVAG ou em sacos com selo de tarifa, podendo ser destinado ao abrigo de contêiner mais próximo ou ao ponto de coleta do bairro. Não se trata, portanto, apenas de guardar recipientes; trata-se de organizar um sistema de descarte com regra, tipologia e lugar definido.

A função prática do abrigo aparece com ainda mais clareza quando se lê a orientação municipal sobre a coleta. A comuna informa que a coleta do lixo comum é semanal, às terças-feiras, e recomenda que os sacos só sejam colocados do lado de fora na manhã do próprio dia, porque animais silvestres e cães gostam de rasgá-los. Esse detalhe ajuda a entender a inteligência do abrigo. Em uma localidade alpina, com presença de fauna, inverno rigoroso e forte preocupação com a ordem do espaço público, o problema não é apenas recolher o resíduo. É evitar que ele apareça prematuramente, se espalhe ou degrade a paisagem antes da coleta. O abrigo é, nesse sentido, uma solução de acondicionamento, proteção e urbanidade ao mesmo tempo.

Esse pequeno equipamento também expressa algo maior do sistema suíço de gestão de resíduos. A Suíça mantém uma ampla rede de pontos gratuitos para papel, papelão, vidro, PET, latas e outros recicláveis, ao mesmo tempo em que utiliza um modelo de pay-as-you-throw, isto é, cobrança por saco de lixo domiciliar, para estimular a separação na origem e reduzir o volume do rejeito comum. Em Kandersteg, isso aparece de forma muito concreta: o lixo domiciliar segue para sacos tarifados e abrigos específicos; outros materiais têm canais próprios de entrega. O abrigo da foto não é, portanto, apenas um “container house”. Ele é a expressão física de uma política pública que usa infraestrutura e regra econômica para induzir comportamento.

Há uma lição interessante aí para quem pensa limpeza urbana a partir da experiência brasileira. Muitas vezes, entre nós, a discussão sobre acondicionamento de resíduos fica presa ao recipiente: plástico ou metal, 240 ou 1.200 litros, carga lateral ou traseira, durabilidade ou vandalismo. Tudo isso importa, mas não basta. As fotos de Kandersteg lembram que acondicionamento também é desenho urbano. O abrigo não aumenta a sofisticação do sistema por exuberância tecnológica; ele melhora a relação entre o resíduo e o espaço público. Esconde sem negar, protege sem monumentalizar, organiza sem transformar o lixo em paisagem.

No fim, o que essas imagens mostram é uma forma madura de tratar uma necessidade prosaica. O resíduo continua existindo, os contêineres continuam lá, a coleta continua necessária. Nada foi magicamente resolvido. Mas houve o cuidado de criar uma mediação entre o descarte e a rua. Em Kandersteg, até o lixo parece lembrar que a cidade — ou a vila — não é apenas lugar de circulação de coisas, mas também de preservação da paisagem. Talvez essa seja a melhor síntese: civilidade urbana começa muito antes do caminhão de coleta; começa no modo como se decide onde e como o resíduo vai esperar por ele.

Papeleiras na Toscana: pequeno equipamento, grande mensagem


As imagens mostram algo que costuma passar despercebido na limpeza urbana: a papeleira como instrumento de educação e não apenas de descarte. Em vez de um recipiente genérico para “qualquer lixo”, vê-se um conjunto com identificação clara por fração — nas fotos, pelo menos multimateriale e indifferenziato — em linha com a lógica de separação adotada por Sei Toscana, gestora do serviço de resíduos em boa parte da Toscana sul. No site da operadora, a coleta diferenciada é apresentada justamente como separação por tipo e natureza do resíduo, e o multimaterial aparece como uma fração específica do sistema. A lição é simples: até a papeleira de rua pode ser pensada como extensão pedagógica da coleta seletiva, e não como um simples recipiente residual.

O que mais me interessa, porém, é o desenho discreto do equipamento. As papeleiras não tentam chamar atenção por exuberância; elas procuram conviver com o lugar. Em um ambiente de pedra, muralha e tecido urbano histórico, o mobiliário é sóbrio, compacto e funcional. No Percolado, isso conversa com uma ideia recorrente: limpeza urbana não se resume ao caminhão ou à varrição; ela também depende da inteligência do ponto de entrega. Quando a papeleira informa, orienta e se integra ao espaço, ela ajuda a transformar comportamento sem precisar de discurso grandioso. É um detalhe pequeno, mas desses detalhes é feita a civilidade urbana.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Inovação para um problema que quase não existe

Rio vai testar drone para evitar afogamentos e bicicletas aquáticas para limpar lagoas

Classificado em primeiro lugar no processo seletivo organizado pelo município, o projeto da BiClean levou dois anos entre a concepção e a obtenção da patente. A ideia do inventor é iniciar os testes com quatro unidades em uma base na altura do Parque dos Patins na Lagoa Rodrigo de Freitas, em data ainda a ser definida pelo município que vai autorizar os testes para criar um marco regulatório.

A eletricidade para operar os equipamentos que vão coletar resíduos e recolher amostras de água virá de um painel solar e da disposição de curiosos em pedalar para testar o aparelho.

— Um dos objetivos é promover a educação e a consciência ambiental de que o lixo despejado irregularmente vai parar em rios e lagoas. Devemos oferecer algum brinde com base no volume de lixo recolhido — explicou o criador do BiClean, Marcius Victório da Costa.



A proposta da BiClean pode ser simpática como peça de inovação urbana, mas parte de uma premissa que, para quem frequenta a Lagoa Rodrigo de Freitas diariamente, parece frágil. Como remador, percorro suas águas praticamente todos os dias, por cerca de uma hora, e afirmo com tranquilidade: não existe resíduo sólido flutuante na Lagoa em volume que justifique tanta preocupação com equipamentos embarcados de limpeza. A imagem de um espelho d’água tomado por lixo simplesmente não corresponde à realidade observável. Por isso, antes de celebrar a novidade, convém perguntar se o problema que ela pretende resolver existe de fato na escala sugerida.

A notícia informa que o projeto selecionado pelo Sandbox.Rio pretende testar bicicletas aquáticas elétricas para coleta de resíduos flutuantes e microplásticos, com base na altura do Parque dos Patins, unindo limpeza, lazer e educação ambiental. Como conceito, a ideia é engenhosa. Como resposta operacional à Lagoa, nem tanto. O ponto principal não é discutir se o equipamento funciona, mas se há demanda real para ele. E, do ponto de vista de quem conhece a Lagoa por dentro, remando sobre suas águas e observando sua superfície dia após dia, a resposta parece ser negativa: o lixo flutuante é raro, eventual e insuficiente para justificar a criação de uma nova camada de aparato náutico.

Essa percepção prática ajuda a relativizar também a lógica da já conhecida “marinha laranja”. Há algum tempo se insiste em dispor embarcações, catamarãs e equipamentos de limpeza como se a Lagoa exigisse vigilância constante contra resíduos sólidos flutuantes. Não exige. A exceção costuma ocorrer depois de chuvas fortes, quando algum material vegetal, galhos ou detritos carreados chegam ao espelho d’água. Mesmo nesses casos, o vento da tarde normalmente empurra esse material para as margens, onde a remoção pode ser feita de forma simples e proporcional. Transformar essa exceção em justificativa para manter uma rotina de limpeza embarcada permanente parece menos uma necessidade ambiental e mais uma superestimação do problema.

É importante notar que essa crítica não nega a utilidade de intervenções pontuais. Se houver episódio extraordinário, chuva intensa, acúmulo localizado ou necessidade específica de manejo, a atuação embarcada pode fazer sentido. O que não parece razoável é tratar a Lagoa como se houvesse ali um passivo contínuo de resíduos sólidos flutuantes, quando a observação direta indica exatamente o contrário. A inovação, nesse caso, corre o risco de repetir um vício comum da gestão pública: criar solução vistosa para um problema pequeno. O equipamento passa a existir não porque a necessidade o impõe, mas porque a narrativa da inovação pede um objeto visível, fotogênico e facilmente comunicável.

A questão da qualidade da água existe, claro, mas é outra discussão. A própria Prefeitura mantém monitoramento sistemático da Lagoa, com boletins regulares sobre parâmetros físico-químicos e biológicos. Esse acompanhamento é importante e ajuda a compreender a dinâmica ambiental do sistema lagunar. Mas não se deve confundir qualidade da água com presença visível de resíduos sólidos flutuantes. Uma coisa é monitorar a saúde ambiental do corpo hídrico; outra, bem diferente, é sugerir que há lixo boiando em quantidade tal que justifique novas embarcações de limpeza. O problema principal da BiClean, portanto, não é tecnológico. É de diagnóstico.

No fim, a melhor contribuição que alguém pode dar a esse debate talvez seja justamente a da experiência cotidiana. Quem observa a Lagoa da margem vê uma paisagem. Quem a percorre remando todos os dias vê a realidade do espelho d’água. E essa realidade, ao menos hoje, não revela um ambiente carregado de lixo flutuante. Revela uma Lagoa limpa, com ocorrências episódicas e localizadas, que não parecem justificar nem a antiga ênfase da “marinha laranja” nem o entusiasmo imediato com a BiClean. Antes de multiplicar equipamentos, convinha reconhecer um dado simples: o resíduo sólido flutuante na Lagoa Rodrigo de Freitas não é, hoje, um problema na escala que essas soluções fazem supor.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

PNPC: uma boa notícia e um legado que resiste



A notícia é realmente boa. A participação da Comlurb no Programa Nacional de Prevenção à Corrupção (PNPC) tem valor institucional porque insere formalmente a Companhia em uma iniciativa coordenada pelo Tribunal de Contas da União, voltada ao fortalecimento de mecanismos de integridade no setor público. Segundo o próprio programa, a condição de participante decorre do preenchimento integral do questionário de autoavaliação no sistema e-Prevenção, o que autoriza o uso da marca de participante. Não é um detalhe banal. É um movimento concreto de aproximação com uma referência externa de integridade.

Enquanto estive à frente da Diretoria de Compliance, até sua extinção em 2025, busquei exatamente isso: alguma chancela externa que mostrasse que o Programa de Integridade e Transparência da Comlurb não era apenas um discurso interno bem-intencionado. Naquele período, o maior reconhecimento veio com a participação no Seminário de Boas Práticas de Governança e Gestão da Prefeitura do Rio de Janeiro, realizado pela Controladoria Geral do Município e pelo Tribunal de Contas do Município, em que o programa da Companhia foi apresentado como iniciativa estruturada para fomentar conformidade legal, ética na conduta dos empregados e governança moderna e transparente.

É importante, porém, compreender corretamente o alcance do PNPC. A marca de participante não equivale a um selo de excelência nem a uma certificação final de maturidade institucional. O próprio TCU esclarece que a participação decorre da resposta integral ao questionário de autoavaliação, a partir do qual a organização recebe um diagnóstico sobre seu nível de exposição a fraude e corrupção e pode estruturar um roteiro de atuação para aprimorar práticas distribuídas em mecanismos como prevenção, detecção, investigação, correção e monitoramento. Em outras palavras, trata-se menos de um ponto de chegada e mais de um ingresso formal em um processo estruturado de aperfeiçoamento.

Justamente por isso, a adesão atual parece, ainda que extemporânea, uma evidência do legado deixado pela antiga DCO. Programas de integridade não surgem do nada apenas porque alguém resolve preencher um questionário. Eles dependem de linguagem institucional, canais, procedimentos, treinamentos, normativos, visão de risco e alguma sedimentação cultural prévia. Quando a Comlurb apresentou publicamente seu Programa de Integridade e Transparência em 2024, isso já indicava a existência de uma arquitetura mínima de governança sobre a qual movimentos posteriores poderiam se apoiar. A participação no PNPC parece menos um gesto isolado do presente e mais uma consequência tardia de uma construção anterior.

Há, nisso, uma pequena ironia institucional. A Diretoria de Compliance foi extinta, mas parte de sua agenda continua produzindo efeitos. A estrutura desaparece; o repertório permanece. E talvez esse seja um dos melhores testes de qualquer iniciativa de integridade: sobreviver ao desaparecimento formal de quem a conduziu. Se a participação no PNPC servir apenas para ornamentar a comunicação corporativa, será pouco. Mas, se funcionar como diagnóstico sério e ponto de partida para novos planos de ação, então estaremos diante de algo mais relevante: a prova de que um trabalho de integridade pode deixar raízes mesmo quando a moldura organizacional que o abrigava já não existe.

Por isso, a notícia merece ser recebida com satisfação, mas também com medida. Ela não significa que a Comlurb tenha chegado a um estágio acabado de excelência em integridade. Significa algo mais sóbrio e talvez mais importante: a Companhia entrou, oficialmente, em uma trilha nacional de autoavaliação e melhoria. Para quem trabalhou na construção interna desse tema, isso tem sabor de reconhecimento tardio. E, para a instituição, pode ser a confirmação de que certos legados não desaparecem quando deixam de ter uma diretoria; às vezes apenas reaparecem, mais adiante, com outro nome e outra chancela.