Quando cheguei ao Kandersteg International Scout Centre, nos Alpes suíços, levei algum tempo para entender exatamente que tipo de lugar era aquele.
Há um grande chalé, áreas de camping, alojamentos, espaços para atividades e uma movimentação constante de jovens de diferentes países. À primeira vista, seria possível defini-lo como um centro de hospedagem e atividades para escoteiros.
Mas essa definição explica a estrutura e deixa de fora a ideia.
O KISC nasceu de um sonho de Robert Baden-Powell: criar um lugar onde o espírito de fraternidade internacional vivido nos grandes encontros escoteiros não desaparecesse quando o evento terminasse.
Para quem, como eu, não pertence ao movimento escoteiro, é preciso começar explicando o que é um Jamboree.
O Jamboree Mundial é um grande encontro internacional de escoteiros. Jovens de diferentes países acampam, participam de atividades, conhecem outras culturas e convivem durante vários dias. O primeiro foi realizado em Londres, em 1920, reunindo cerca de oito mil escoteiros de 27 países.
O momento histórico ajuda a compreender o significado daquele encontro. A Primeira Guerra Mundial havia terminado havia pouco tempo. Reunir jovens de diferentes nacionalidades, algumas delas recentemente em lados opostos de uma guerra, dava à convivência escoteira um sentido que ia além de jogos ou acampamentos.
Foi naquele Jamboree que Baden-Powell expressou o desejo de que existisse um lugar onde aquele sentimento de fraternidade mundial, paz e amizade internacional pudesse ser vivido durante todo o ano.
O Jamboree terminava.
A experiência não precisava terminar com ele.
Quando o sonho encontrou Kandersteg
Dois anos depois, em 1922, o dirigente escoteiro suíço Walther von Bonstetten encontrou em Kandersteg um chalé abandonado, construído originalmente durante as obras ferroviárias da região. Percebeu naquele lugar a possibilidade de transformar a ideia de Baden-Powell em algo concreto.
Baden-Powell visitou Kandersteg e apoiou o projeto. Em 21 de maio de 1923, o centro foi inaugurado. Nascia o que passou a ser conhecido como Permanent Mini Jamboree.
A expressão pode causar alguma confusão. Não significa que exista permanentemente em Kandersteg um gigantesco Jamboree nos moldes dos encontros mundiais.
O que se pretende manter permanente é o espírito do Jamboree.
Escoteiros chegam com seus grupos, ficam hospedados no centro, participam de atividades e encontram pessoas de outras nacionalidades. A programação procura favorecer justamente esse encontro. O próprio KISC organiza boa parte de suas atividades em torno de três ideias: International Friendship, Eco e High Adventure — amizade internacional, consciência ambiental e aventura.
Durante minha passagem pelo centro, esse conceito deixou de parecer uma expressão institucional e tornou-se bastante concreto. Havia línguas diferentes sendo faladas, bandeiras de vários países, grupos que chegavam de lugares distantes e atividades concebidas para colocar essas pessoas em contato. Meu relato da experiência registra justamente essa percepção: o centro procura reproduzir continuamente a essência de um Jamboree — pessoas de diferentes partes do mundo encontrando-se e fazendo coisas juntas.
Um lugar feito para o encontro
Talvez seja essa a melhor maneira de compreender o KISC.
O chalé, o camping, a hospedagem e as atividades não constituem simplesmente um destino turístico para escoteiros. São a infraestrutura necessária para que o encontro aconteça.
Os voluntários internacionais também fazem parte dessa lógica. Eles próprios vêm de diferentes países e culturas e ajudam a manter a experiência funcionando ao longo das estações. O encontro internacional não acontece apenas entre os hóspedes; ele está presente também entre aqueles que trabalham no centro.
Da mesma forma, atividades, tradições e rituais escoteiros reforçam uma identidade comum entre pessoas que muitas vezes chegaram falando línguas diferentes e trazendo costumes diferentes. Não é necessário que todos sejam iguais. Basta que reconheçam alguma coisa que os une.
Mais de cem anos depois da inauguração, o próprio KISC continua se apresentando como o Permanent Mini Jamboree, o sonho de Baden-Powell.
Talvez seja justamente essa permanência que mais impressione.
Um evento dura alguns dias. Depois as barracas são desmontadas, as pessoas voltam para casa e o lugar fica vazio.
Kandersteg tentou preservar outra coisa: não o evento, mas a possibilidade de que o encontro se repetisse.
Ano após ano, novas pessoas chegam. As anteriores já foram embora. As línguas mudam, os países mudam, os rostos mudam.
Os encontros terminam, o espírito do Jamboree permanece.



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