Cheguei ao KISC como helper sabendo que faria parte da operação. O que eu não sabia era exatamente quais tarefas apareceriam a cada dia. E talvez tenha sido justamente isso que tornou a experiência interessante: durante alguns dias, deixei de olhar o trabalho a partir de quem planeja, distribui ou acompanha e voltei ao lado de quem recebe uma tarefa e precisa simplesmente fazê-la.
Logo no início, ajudei a consertar um banco do espaço de campfire, troquei lâmpadas em dois prédios, participei da recuperação de um carrinho aproveitando rodas de outros equipamentos e varri um dos galpões. No dia seguinte, organizamos o mesmo galpão, descartando aquilo que já não tinha utilidade, e fizemos duas viagens de caminhão para levar ao centro de reciclagem de Kandersteg o material acumulado no KISC.
Depois vieram outras tarefas. Limpei núcleos de banheiros com vasos e chuveiros, ajudei na marcenaria aplainando madeira, movimentei botijões de gás e continuei trabalhando na organização de materiais e espaços. Em outro momento, fiquei responsável por um turno no centro de reciclagem e também por verificar novamente a limpeza dos banheiros, intervindo onde fosse necessário.
Nada disso era particularmente complexo. Mas trabalho operacional nem sempre é complexo. Muitas vezes ele é repetitivo, físico e pouco visível. O banheiro precisa continuar limpo. O material precisa estar no lugar. A barraca precisa estar preparada para a próxima temporada. O botijão precisa chegar onde será usado.
Depois de tantos anos em funções de gestão, voltar a esse tipo de trabalho produziu uma sensação conhecida. Minha formação como gestor também começou na operação. Na limpeza urbana, aprendi cedo que existe uma diferença considerável entre aquilo que parece simples quando se olha de longe e aquilo que precisa ser feito todos os dias, nas condições reais.
Quem está na gestão tende, com o tempo, a enxergar a operação por meio de indicadores, relatórios, prazos e resultados. Isso é necessário. O problema começa quando o resultado passa a esconder o trabalho que o produz.
Um banco consertado aparece apenas como um banco disponível. Um banheiro limpo é percebido apenas quando deixa de estar. Uma barraca preparada não chama atenção de quem vai utilizá-la. A boa operação tem essa característica ingrata: quando funciona, grande parte do esforço que a sustenta se torna invisível.
Kandersteg me devolveu, por alguns dias, a esse lado da operação. Não como exercício de humildade — expressão que me parece um pouco fácil —, mas como reencontro com uma perspectiva.
Quem executa conhece detalhes que o planejamento não consegue antecipar completamente. Conhece o peso, o tempo, a repetição, a pequena dificuldade que não aparece no procedimento e a solução prática que muitas vezes nasce durante o próprio trabalho.
Gestão precisa de distância para enxergar o conjunto.
Mas distância demais também deforma.
De vez em quando, voltar ao lado de quem executa é uma boa maneira de recuperar a medida real das coisas.




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