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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Quando a varrição sai da intuição


Há áreas da limpeza urbana que ainda são administradas com excesso de hábito e escassez de medida. A varrição é uma delas. O conceito apresentado no material anexo me parece valioso justamente porque tenta responder, de forma simples e estrutural, a uma pergunta que a operação costuma evitar ou tratar por impressão: a quantidade de garis e varredeiras hoje alocada é suficiente para varrer todos os logradouros dentro da frequência planejada? O mérito do índice proposto está em recolocar a discussão no lugar certo. Antes de julgar o resultado visível da limpeza, é preciso saber se a capacidade instalada guarda alguma proporção com a demanda assumida.

A imagem central do modelo é boa: uma balança. De um lado, a capacidade — gente e máquina. Do outro, a demanda — tudo aquilo que precisa ser varrido, com a frequência programada. Quando os dois lados se equilibram, a operação está, ao menos em tese, dimensionada. Quando a capacidade fica abaixo da demanda, falta recurso. Quando fica acima, sobra recurso. Parece elementar, e talvez seja justamente esse o ponto. Muitas vezes a gestão pública se complica em relatórios sofisticados para não enfrentar o básico: saber se colocou recurso de menos, de mais ou na medida certa.

O ganho conceitual fica ainda mais interessante porque o índice não parte de uma abstração genérica da cidade. Ele exige cadastro atualizado de logradouros, com extensão de sarjeta, perfil territorial, estado da sarjeta e frequência planejada. Ou seja: a capacidade não é medida contra uma cidade imaginária, mas contra a cidade concreta. Isso é fundamental. A produtividade de um gari não pode ser pensada da mesma forma em uma área formal de alta densidade, em uma periferia rarefeita ou em um trecho informal com pavimento precário e obstáculos fixos. O modelo tem a virtude de reconhecer que a cidade não é homogênea e que a varrição tampouco pode ser tratada como se fosse.

Outra qualidade do conceito está em não reduzir a análise à mão de obra. A capacidade manual aparece combinada com a capacidade mecanizada, o que ajuda a enxergar a operação como um sistema misto, e não como a velha oposição simplória entre gari e máquina. Mais importante ainda: o material deixa claro que a substituição entre um e outro não é automática. Há vias mecanizáveis e vias que não são. Há máquinas de portes distintos. E há um ponto que considero decisivo: a máquina pode ampliar capacidade, mas não necessariamente preservar a mesma qualidade real da limpeza em cantos, sarjetas obstruídas ou áreas com interferências. Gestão séria não trata mecanização como milagre; trata como escolha condicionada pelo território.

Mas talvez o coração mais maduro da proposta esteja na relação entre o Índice de Atendimento de Varrição (V) e o Índice de Limpeza (IPL). Isso é o que impede que o indicador vire fetiche numérico. O próprio material afirma que V é indicador de meio e IPL é indicador de resultado. Um mostra se há recurso suficiente. O outro mostra se a limpeza entregue está boa. Cruzar os dois evita um erro clássico da gestão operacional: confundir falta de recurso com má execução, ou má execução com falta de recurso. Se o V está equilibrado e o IPL está ruim, o problema não é quantidade: é operação, supervisão, treinamento, equipamento ou rotina mal conduzida. Se o V está baixo e o IPL também, aí sim temos déficit de cobertura. Essa matriz de leitura é muito mais útil do que o hábito de atribuir toda sujeira visível, indistintamente, à “falta de gente”.

Gosto também do fato de o modelo admitir duas alavancas possíveis para alterar o resultado: mexer nos recursos ou mexer nas frequências planejadas. Essa é uma distinção importante e politicamente delicada. Aumentar gente e máquina eleva capacidade. Reduzir frequências diminui demanda. Ambos podem melhorar o índice, mas não produzem o mesmo efeito para a cidade. A tentação burocrática de “fechar a conta” rebaixando a frequência sempre existirá. Por isso o índice, sozinho, não deve ser usado como álibi de ajuste contábil. Ele é bom justamente quando obriga o gestor a revelar qual escolha está fazendo: reforçar a operação ou apenas rebaixar a ambição do planejamento.

No fundo, o conceito apresentado no anexo faz algo que considero raro e necessário: devolve inteligência de planejamento à varrição. A cidade costuma olhar para a varrição como serviço menor, repetitivo, quase automático. Não é. Varrer bem uma cidade é equacionar território, frequência, sarjeta, densidade, estado do pavimento, quantidade de gente, mecanização disponível e qualidade percebida. Quando tudo isso some sob o manto da rotina, sobra apenas intuição gerencial — e intuição, sozinha, costuma ser a antecâmara do desperdício. O índice não substitui o olhar do gerente experiente. Mas oferece a esse olhar um espelho mais honesto.

Por isso considero o material importante. Não pelas fórmulas, que deixo ao anexo, mas pelo conceito que ele sustenta: varrição deve ser pensada como relação entre capacidade programada e demanda real, sempre confrontada com o resultado efetivamente percebido na rua. Parece pouco. Não é. Em uma organização que muitas vezes mede demais o que é fácil e de menos o que é decisivo, recolocar a varrição nesse patamar já é um avanço intelectual. E, em gestão operacional, quase sempre é o avanço intelectual que antecede o avanço prático.



Índice de Atendimento de Varrição - Base 01062026 by Gustavo Puppi

Gestão de Produtividade - Varrição by Gustavo Puppi

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Trabalhador em Eminönü, Istambul na Turquia

O coração estampado no uniforme lembra 16 milhões de pessoas que vivem em Istambul.


 

domingo, 26 de novembro de 2023

Equipamentos de varrição em Bruxelas na Bélgica

Passagem de trabalhadores de varrição nas ruas de Bruxelas na Bélgica

Destaque para o lutocar utilizando armação para fixação de dois tipos de sacos plásticos para coleta diferenciadas. O equipamento possui compartimento rígido provavelmente para guarda de sacos e utensílios.

Os trabalhadores estão equipados com pá quadrada de cabo longo e vassoura de piaçava com cabo de fixação central.






 

terça-feira, 18 de julho de 2023

Considerações sobre a limpeza urbana em Richmond - Reino Unido - III

Os varredores usam lutocares duplos que já testamos uma vez sem sucesso na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Nossos garis achavam o equipamento muito desconfortável e pesado para movimentar, apesar da vantagem operacional de reduzir a quantidade de pontos de sacos de lixo de varrição.

Os garis aqui varrem pouco e catam muito com os apanhadores.Também já testamos os apanhadores de lixo pequeno no Rio de Janeiro, no entanto, nossos garis são fãs da vassoura e pá até para gimba de cigarro. 




Existem poucas papeleiras e as encontradas são aquelas grandes de metal estilo londrino.



segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Trabalhadores de Varrição em Londres

Já testamos esse carrinho de varrição (lutocar) na Cidade do Rio de Janeiro.

Os trabalhadores criticaram por ser pesado e muito grande dificultando a manobra das calçadas.



 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Terra do Fogo

Varredor em Ushuaia - Argentina


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Varrição em Fins de Semana

Fins de semana e Feriados são momentos que exigem uma rotina diferenciada daquela existente em dias ordinários da semana, e, por conta de maiores custos unitários da hora trabalhada, são dias especiais que devem ser cuidadosamente planejados.

Para a varrição eficaz utilizando baixo efetivo no fim de semana, convém adotar métodos diferentes que os da varrição ordinária, em especial o conceito de Fim de Semana Operacional

  • Pontos Notáveis: São os locais onde há geração de lixo por uso do espaço público no fim de semana como exemplo: proximidade de bares, restaurantes e quiosques, saídas de shoppings, teatros, ciclovias e pistas de corrida, pontos de ônibus, papeleiras, locais de contemplação.
  • Varrição Pontual: é a varrição somente em trechos dos Pontos Notáveis. Difere da varrição ordinária de metragem corrida de sarjeta. Executando somente a varrição dos trechos de uma lista de Pontos Notáveis o gari pode atuar em uma área muito maior que uma se fosse varrendo a sarjeta entre pontos Notáveis.
  • Varrição Estrela: é varrição realizada por um grupo de garis que primeiro executa uma varrição em um Ponto Notável concentrado como uma praça e depois o mesmo grupo se dispersa para executar a varrição pontual dos diversos pontos notáveis de uma área específica.

Os gestores devem identificar seus Pontos Notáveis e estabelecer planos de varrição específicos para o Fim de Semana Operacional executando o serviço com uma combinação de Varrição Pontual e Varrição Estrela.

Esses gestores devem intensificar os turnos vespertinos e noturnos durante o Fim de semana Operacional como forma de garantir a presença de garis em todos os momentos e não só no primeiro expediente.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Quantidade de Varredores Contratados


Resultado de imagem para gari comlurb

A execução da varrição de logradouros é algo dinâmico necessitando de ajustes diários principalmente por conta da disponibilidade de trabalhadores no dia e condições climáticas. A capacidade de programação prévia e também do ajuste proativo diante de surpresas diárias é o valor de um bom responsável pelo serviço.

Apesar do imponderável diário certos parâmetros podem traduzir matematicamente o serviço de varrição principalmente para não esperar uma resposta além de sua capacidade de realização.

Partindo da premissa de que o serviço é realizado rotineiramente de segunda a sábado e  um plantão reduzido no domingo planejado separadamente, podemos forjar a seguinte equação que fornece uma Frequência Média De Varrição a partir de parâmetros de produtividade da varrição manual e mecanizada.  



Se todos os logradouros tivessem a mesma frequência de varrição ela seria igual a Frequência Média De Varrição. Se este valor médio for igual a 1 significa que existe o potencial de varrer todos os logradouros diariamente, se for 0,5 então os logradouros poderão ser varridos dia sim dia não. É claro que por ser uma média, em uma mesma região logradouros poderão ser varridos diariamente e outros em dias alternados e alguns apenas semanalmente, mas a Frequência Média De Varrição pode ser considerada um indicador de atendimento médio do serviço.

Na equação acima, a quantidade média de Varredores disponíveis, parâmetro G, não significa a quantidade total de trabalhadores contratados para o serviço de varrição pois da quantidade total devemos abater as ausências relativas às férias, folgas pelo trabalho extra de domingo e outras ausências.

A relação entre trabalhadores contratados e varredores disponíveis é evidenciada pela equação abaixo:



Juntando as duas equações anteriores podemos estabelecer uma relação entre quantidade de trabalhadores contratados e frequência média de varrição através de um Coeficiente de Plano de Varrição que será dependente de parâmetros de produtividade e de política de gestão de pessoas:





A Produção Média Diária Esperada Para Um Varredor é um parâmetro que depende das características dos logradouros. Se na região for comum a existência de sarjetas bem definidas com bom calçamento e pavimentação a produção média será maior que outra região com problemas urbanísticos. O mesmo vale para a Produção Média Diária Esperada Para Uma Varredeira. A Extensão Total De Sarjetas Para Varrição deve considerar somente as sarjetas que efetivamente fazem parte do escopo do serviço de varrição.

Os Meses disponíveis para férias e os Dias Disponíveis Para Folga Na Semana são parâmetros relacionados com a política de gestão de pessoal considerando a sazonalidade operacional. Se for decidido que não haverá férias em meses de maior demanda então as férias deverão ser distribuídas na quantidade de meses restantes. Da mesma forma, se for decidido que não haverá folga na segunda-feira, por exemplo, então o serviço de domingo deverá ser compensado ao longo de cinco dias, de terça-feira a sábado.

O Percentual médio de ausências é dependente do cuidado com a contratação, com a segurança e medicina do trabalho, além de um bom ambiente de trabalho.

O Percentual Médio De Varredores Disponíveis Escalados Como Extra No Domingo deve considerar as atividades essenciais este dia.  Regiões turísticas normalmente demandam mais serviços no domingo que regiões centrais com escritórios.  

Observe que uma vez definido o Coeficiente de Plano de Varrição, a capacidade de realização do serviço de varrição representada por sua frequência média é diretamente proporcional à quantidade de trabalhadores contratados.

Devemos observar que o Coeficiente de Plano de Varrição pode ser revisto sempre que os parâmetros que o compõe tiverem alguma alteração, por exemplo: campanhas para redução de ausências, revisão da necessidade de domingo, melhorias na produtividade de varrição manual ou mecanizada, alterações na política de gestão de pessoas.

Por exemplo, em uma região com 1000 Km de sarjetas, com produção média de varrição de 2 Km, seis apresentações semanais de varredeira com produção diária de 60Km, onde é necessário escalar 10% do efetivo disponível para domingo compensados ao longo de toda semana, com uma equipe com 5% de ausências, com férias proibidas para dezembro e janeiro, o Coeficiente de Plano de Varrição estaria calculado para 595,51.

Relacionando Frequência Média De Varrição com Quantidade de Varredores Contratados, podemos sugerir que para que a frequência média seja com dias alternados (0,5) deverão ser contratados 297 trabalhadores considerando os parâmetros do exemplo.


No exemplo, se temos somente 150 trabalhadores contratados, não haverá mágica que o responsável pelo serviço faça que consiga uma qualidade de atendimento compatível com uma varrição média diária. Com uma frequência média próximo de 0,25 terá que fazer escolha de Sofia deixando logradouros com frequência muito baixa para poder cobrir locais de maior demanda com regiões comerciais ou turísticas.

Por outro lado, se temos 600 trabalhadores contratados em uma região onde as expectativas dos moradores seriam plenamente atendidas com uma varrição média alternada temos muita gente que pode ser transferida para outras regiões.

Antes de avaliar se o responsável pelo serviço de varrição é um anjo ou demônio, que tal fazer algumas contas?