Na minha passagem por Kandersteg participei do último International Campfire daquele verão. Mais de 800 pessoas ocuparam o grande círculo de pedra em torno da fogueira. Eu já havia passado por aquele espaço durante o trabalho, mas à noite o lugar era outro.
Para quem não pertence ao movimento escoteiro, como eu, a primeira impressão é a de um grande espetáculo ao ar livre. Há música, brincadeiras, canções, pequenas apresentações e grupos de diferentes países participando. Mas, com o tempo, percebe-se que o fogo não está ali apenas para criar cenário.
No escotismo brasileiro, uma atividade semelhante é chamada de Fogo de Conselho: uma reunião noturna em torno da fogueira que combina diversão, canções, histórias, representações e momentos de reflexão. Os Escoteiros do Brasil a descrevem como uma das tradições mais simbólicas do movimento, associada à fraternidade, à convivência e ao sentimento de pertencimento.
Em Kandersteg, o International Campfire cumpre esse papel numa escala especial. O próprio KISC o apresenta como uma de suas atividades clássicas: escoteiros de várias partes do mundo se reúnem e os grupos são convidados a compartilhar músicas, danças e pequenas apresentações de suas próprias tradições.
Foi isso que vi naquela noite.
Havia centenas de pessoas que não falavam a mesma língua, tinham histórias nacionais diferentes e provavelmente conheciam formas também diferentes de praticar o escotismo. Ainda assim, entendiam o que estava acontecendo. Alguns rituais dispensavam tradução. Uma canção começava em algum ponto e logo era acompanhada por muitos; uma apresentação de um grupo era recebida pelos demais; gestos e símbolos conhecidos criavam uma linguagem comum.
Isso me ajudou a compreender melhor por que essas práticas sobrevivem por tantas gerações.
Instituições costumam pensar na transmissão de seus valores por meio de documentos, treinamentos, normas e discursos. Tudo isso tem importância. Mas uma cultura também é transmitida pelas coisas que as pessoas fazem juntas e repetem ao longo do tempo.
O fogo é uma delas.
Em volta dele se contam histórias, repetem-se canções, apresentam-se tradições e acolhem-se pessoas que chegaram depois. Quem participa pela primeira vez aprende observando os demais. Quem já participou muitas vezes reconhece gestos, músicas e comportamentos que viveu antes. A continuidade não depende apenas de alguém explicar quais são os valores do grupo; ela acontece porque esses valores ganham uma forma concreta de ser vividos.
Talvez por isso o campfire tenha tanta força em Kandersteg. Num lugar construído justamente para colocar em contato escoteiros de diferentes nacionalidades, ele transforma uma ideia abstrata — a fraternidade internacional — numa experiência compartilhada.
O que durante o dia aparece nas bandeiras, nos uniformes e nas muitas línguas faladas pelo centro, à noite se concentra naquele círculo.
Pessoas muito diferentes sentam-se em volta do mesmo fogo.
E, durante algum tempo, sabem que pertencem à mesma história


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