Fui a Kandersteg, antes de tudo, para estar com meu filho. André trabalha no KISC como Campsite Manager, e eu fui para lá já com uma função definida: seria helper, ajudando na rotina do centro durante alguns dias. Depois de tantos anos ocupando posições de gestão, havia uma pequena ironia naquela combinação. Meu filho era gerente. Eu era ajudante.
A situação poderia render apenas uma boa história familiar, mas acabou sendo mais interessante do que isso. Durante boa parte da vida, a relação entre pai e filho tem uma direção mais ou menos previsível. O pai orienta, protege, aconselha, às vezes interfere mais do que deveria. Em Kandersteg, eu estava entrando no ambiente profissional que André havia construído para si. Era ele quem conhecia as pessoas, as rotinas, os problemas e as prioridades. Eu chegava para aprender como as coisas funcionavam e executar as tarefas que me fossem atribuídas.
E as tarefas eram bastante concretas. Trabalhei em manutenção, organização de galpões, transporte de materiais, reciclagem, limpeza e preparação de equipamentos. Em algumas dessas atividades, André distribuía ou acompanhava o trabalho. Na prática, portanto, meu filho realmente era meu chefe.
Não achei a situação estranha. Pelo contrário. Foi interessante observar meu filho de um lugar ao qual os pais raramente têm acesso. Não como alguém contando em casa como foi seu dia de trabalho, mas vendo-o dentro da própria rotina, conversando com pessoas de diferentes países, organizando tarefas, resolvendo problemas e tomando decisões com autonomia.
Durante muitos anos, eu havia acumulado experiência profissional suficiente para ter opinião sobre quase tudo relacionado a gestão. Em Kandersteg, porém, aquela experiência não me colocava à frente. André conhecia aquele território; eu não. E reconhecer isso foi bastante natural.
Talvez exista aí uma pequena lição sobre a própria paternidade. Passamos muitos anos tentando oferecer aos filhos referências para que encontrem seus caminhos. Quando eles finalmente encontram, precisamos aprender outra coisa: acompanhá-los sem querer continuar indicando a direção.
A experiência profissional certamente me fez observar muitas coisas no KISC, mas essa foi anterior a todas elas. Por alguns dias, pude trabalhar ao lado do meu filho, vê-lo no lugar que conquistou e ocupar, sem qualquer desconforto, uma posição diferente daquela a que me acostumei durante a carreira.
Não houve propriamente uma inversão entre pai e filho. Apenas mudamos de território.
E, naquele território, era ele quem conhecia o caminho.



Nenhum comentário:
Postar um comentário