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terça-feira, 23 de junho de 2026

Segurança não se improvisa



Há momentos em que a organização acerta justamente por voltar ao essencial. O treinamento prático para os profissionais da coleta, divulgado na campanha Atenção é Proteção, merece esse reconhecimento. Em atividades operacionais de risco, segurança não pode ser tratada como lembrança eventual nem como cartaz de ocasião. Ela precisa ser rotina, repetição e cultura. O mérito da iniciativa está exatamente aí: lembrar que, antes de colocar o serviço na rua, é preciso colocar o trabalhador em condição segura de executá-lo.

Essa convicção não me vem de teoria. Vem da experiência. No tempo em que trabalhei no estaleiro Ishikawajima, a segurança era uma atenção constante e os treinamentos faziam parte do cotidiano. Aquilo me marcou profissionalmente. Não era um adereço de gestão, era parte do modo de trabalhar. Por isso, quando estive à frente da Diretoria de Serviços da Zona Oeste, fazia questão de fomentar treinamentos e reforçar práticas preventivas. Em ambiente operacional sério, treinamento não é luxo. É disciplina básica.

A notícia atual mostra um movimento positivo nessa direção. A Comlurb informa que a campanha reúne ações voltadas à segurança dos profissionais e que o treinamento prático integra esse esforço, reforçando os principais pontos de alerta de cada atividade. Mais que isso: registra a capacitação de 96 turmas, em trabalho conjunto da comunicação com a área de Segurança do Trabalho, e compartilha orientações específicas para a equipe de coleta, com participação de garis da gerência de Bonsucesso. Esse dado é importante porque revela algo além da peça de divulgação: indica escala, continuidade e tentativa de capilarização da mensagem preventiva.

O que vejo aí é uma pequena maré de atenção à segurança em atividades de maior risco. E isso é bom. Muito do acidente de trabalho nasce menos da ausência de equipamento do que da erosão da atenção. A rotina embrutece, a pressa comprime, o costume banaliza o risco. Nessa hora, o treinamento funciona como antídoto. Ele interrompe o automático, recompõe o gesto correto e lembra que a operação tem corpo, tem risco e tem limite. Não por acaso, campanhas desse tipo funcionam melhor quando trazem o chão real da operação para o centro, com participação dos próprios trabalhadores, em vez de se limitarem a instruções abstratas produzidas de longe.

No fim, a segurança de uma organização se revela menos em seu discurso do que em seus hábitos. Quando treinamento vira rotina, a prevenção deixa de ser exceção e começa a se transformar em cultura. Talvez seja isso o mais importante nessa iniciativa: ela não inventa nada mirabolante, apenas retoma uma verdade antiga e frequentemente esquecida por maus chefes apressados — a de que serviço atrasado se recupera, mas trabalhador ferido não se recompõe com a mesma facilidade. Segurança não se improvisa. Se constrói, antes, no treino.

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