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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quando a inércia ainda carrega alguma virtude


A peça recente da Comlurb sobre “Brincadeira ou assédio?” merece ser vista com dois olhos ao mesmo tempo. De um lado, ela é correta ao afirmar que piadas ofensivas, apelidos constrangedores, humilhações e exposições repetidas não são aceitáveis e não devem ser naturalizadas como se fossem parte inocente do convívio de trabalho. De outro, ela também funciona como lembrança de algo maior: certas agendas institucionais sobrevivem, por algum tempo, mesmo depois de a estrutura que lhes deu forma ter sido desmontada.

Foi exatamente isso que aconteceu com a campanha contra o assédio. Em 2023, a Diretoria de Compliance colocou o tema no centro da conversa institucional, em parceria com a Comunicação, com cartilha, vídeos, peças explicativas, classificações do assédio, orientações preventivas, divulgação de canais de denúncia e capacitações que alcançaram centenas de empregados. Não era um esforço decorativo. Havia direção, método e intenção de mudança cultural. O Percolado registrou esse movimento quando noticiou o lançamento da campanha, a cartilha “Comlurb Contra o Assédio” e as palestras que, em poucos meses, envolveram mais de 800 empregados.

Por isso, mesmo considerando a extinção da Diretoria de Compliance como fruto de uma miopia institucional, é difícil não sentir um certo alívio ao ver que coisas importantes permaneceram. A peça atual não inventa um tema novo; ela prolonga uma trilha que já havia sido aberta. E faz isso num ponto muito sensível da vida cotidiana das organizações: a falsa brincadeira que, para quem pratica, parece leve, mas para quem recebe se acumula como constrangimento, humilhação e desgaste. A formulação é simples, quase elementar, mas necessária. Em muitas equipes, o assédio continua se escondendo atrás do humor ruim, da intimidade forçada e da brutalidade que tenta se disfarçar de normalidade.

O problema, como já venho observando em outros temas, é que a permanência do assunto não significa necessariamente que ele continue sendo governado com a mesma energia. Há uma diferença entre política institucional viva e pauta que segue andando por inércia. A primeira tem comando, acompanhamento, capacitação contínua e capacidade de resposta. A segunda conserva o ritual, repete a linguagem e ainda produz algum efeito, mas já sem a mesma força estruturante. A campanha contra o assédio parece hoje habitar esse intervalo: ainda respira, ainda comunica algo importante, ainda ecoa um trabalho sério do passado — mas já depende menos de uma estratégia em curso e mais do valor profissional residual daquilo que foi construído antes.

Ainda assim, há uma esperança discreta nesse tipo de sobrevivência. Quando uma agenda persiste mesmo depois da extinção da diretoria que a impulsionou, isso talvez signifique que alguma semente pegou. Não é o ideal. O ideal seria ter o tema com estrutura, prioridade e gestor dedicado. Mas, entre o desaparecimento total e a permanência por inércia, prefiro a segunda hipótese. Porque, em ambiente de trabalho, o combate ao assédio não é luxo moral nem modismo administrativo. É uma das formas mais concretas de preservar dignidade institucional. E, se a inércia ainda carrega alguma energia, talvez valha a pena torcer para que ela dure o suficiente até que alguém volte a compreender que certos assuntos não podem depender apenas da boa memória do que um dia já foi feito.

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