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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Criar dá trabalho. Manter dá mais.

 



A notícia sobre os resultados recentes da Fiscalização tem um lado claramente positivo. Reunir 140 profissionais, trabalhar com metas, ampliar o cadastro de grandes geradores, avançar na segregação de resíduos e digitalizar o credenciamento aponta para uma fiscalização mais organizada e voltada para problemas que têm impacto real sobre o sistema de limpeza urbana. Grandes geradores e empresas credenciadas precisam mesmo de acompanhamento permanente: quando funcionam fora das regras, parte do custo privado acaba escorrendo para a operação pública. Mas a notícia também me fez pensar no que aconteceu com outra dimensão da fiscalização: o Lixo Zero, como política de mudança de comportamento do cidadão.

Quando o programa foi implantado, em 2013, a multa para quem jogava lixo na rua virou assunto de televisão, jornal e conversa de esquina. Um ano depois, pesquisa divulgada pela imprensa apontava aprovação de nove em cada dez cariocas, e havia relatos de mudança de comportamento nas ruas. Durante anos, a fiscalização continuou aparecendo com destaque no Carnaval; no próprio Percolado acompanhei a queda progressiva da relação entre multas aplicadas e resíduos removidos até 2024. Em 2025, as equipes do Lixo Zero ainda foram anunciadas oficialmente nos blocos, com 98 agentes e multas previstas tanto para descarte irregular quanto para urina em via pública, mas, nas comunicações oficiais que localizei, não encontrei a mesma divulgação consolidada dos resultados da fiscalização ao fim da operação. O programa não desapareceu formalmente; o que parece ter desaparecido foi sua centralidade como política pública capaz de constranger o mau comportamento e manter o tema na agenda da cidade.

Tenho alguma relação de autoria profissional com essa história e, por isso, talvez perceba mais facilmente o contraste. O Lixo Zero deu muito trabalho para ser criado, testado, ajustado e legitimado. Mas isso é apenas a primeira metade da gestão. A segunda, geralmente menos vistosa, é manter prioridade, presença, comunicação, indicadores e capacidade de adaptação quando já passou a novidade e mudaram os dirigentes. A fiscalização atual pode estar encontrando um caminho importante ao concentrar energia nos grandes geradores. O erro seria imaginar que isso substitui a dimensão comportamental que um dia esteve no centro do programa. Criar uma política exige impulso; mantê-la viva exige instituição.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A inteligência está no engate




Sempre gostei de reboques como equipamentos de apoio. Nas fotografias, uma pequena carreta recolhe restos de poda e jardinagem sem exigir uma máquina dedicada exclusivamente a essa tarefa. Parece apenas um recipiente sobre rodas, mas contém uma ideia operacional importante: separar o veículo que produz o movimento do módulo que executa a missão. Fabricantes de equipamentos para conservação de áreas verdes oferecem carretas semelhantes para transportar terra, folhas, ferramentas, plantas, lenha e outros materiais. A simplicidade, nesse caso, não é falta de tecnologia. É tecnologia sem vaidade.

Defendo esse conceito há muitos anos. Na limpeza urbana, imaginei uma frota leve equipada com engates e apoiada por diferentes reboques: uma carreta comum para pequenas remoções, uma prancha para transportar microtratores, outra com reservatório e motobomba para lavagem, uma gaiola para coleta seletiva e uma ferramentaria para grandes eventos. O mesmo veículo de tração poderia mudar de função conforme a necessidade, em vez de permanecer aprisionado a um único equipamento. A viatura continuaria sendo a mesma; a operação mudaria no engate. Algumas dessas possibilidades chegaram a ser experimentadas na Comlurb entre 2015 e 2017, embora não tenham se consolidado como política de frota.

A vantagem não está apenas no possível custo menor. Está na flexibilidade para responder ao território. Um furgão adaptado exclusivamente para lavagem tende a ficar ocioso quando não há lavagem programada. Uma pick-up, um utilitário ou mesmo um pequeno trator pode transportar pessoas e ferramentas pela manhã e, depois, receber o módulo necessário para outra atividade. Isso exige planejamento, padronização dos engates, distribuição territorial dos reboques e análise da frequência real de cada serviço. Também exige cuidado na execução. Vivi a experiência de ver uma boa ideia de reboque lava a jato ser comprometida por um projeto improvisado, desequilibrado e pouco funcional. Quando a implementação é ruim, a organização costuma culpar o conceito — uma maneira conveniente de proteger quem o executou mal.

Reboque, contudo, não é improviso sobre rodas. O veículo trator precisa ter capacidade declarada para tracioná-lo; o conjunto deve respeitar carga, estabilidade, acoplamento, frenagem e registro; e os trabalhadores precisam ser treinados para engatar, desengatar, carregar e manobrar com segurança. A legislação brasileira exige capacidade de tração compatível e registro dos reboques, enquanto orientações de segurança destacam freios adequados, estabilização e carga segura. A carreta da fotografia é pequena, mas a ideia que transporta é maior: um veículo dedicado cumpre uma tarefa; um sistema modular administra possibilidades.