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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O tamanho do orçamento e a pergunta que realmente importa

 O tamanho do orçamento e a pergunta que realmente importa

A Lei Orçamentária Anual de 2026 confirma algo que há muito vem chamando atenção: a Comlurb se transformou em uma das estruturas mais pesadas e mais relevantes do orçamento municipal. Superar a marca de R$ 3 bilhões anuais não é apenas um dado contábil. É um sinal da centralidade que a Companhia ocupa na administração da cidade. A dependência do Tesouro Municipal continua próxima de 90%, e a participação da Comlurb no orçamento total da Prefeitura parece estabilizada ao redor de 6%. Não se trata, portanto, de uma variação episódica, mas de uma posição estrutural. A Comlurb é hoje uma engrenagem fiscal de primeira grandeza.





Esse protagonismo orçamentário precisa ser lido com algum cuidado. A Companhia não responde apenas pela limpeza urbana em sentido estrito. Ao longo dos anos, seu escopo foi sendo ampliado para abarcar atividades diversas, como manejo arbóreo, conservação de áreas verdes, limpeza de unidades públicas e outras atribuições que fazem dela algo maior do que seu nome histórico sugere. Ainda assim, a dependência crescente de repasses do Tesouro reforça o caráter de empresa pública dependente, muito distante de qualquer horizonte real de autonomia financeira. Isso não é necessariamente um defeito, mas exige uma contrapartida: quanto maior a dependência, maior deve ser a capacidade de demonstrar com clareza o valor público produzido.

Há, porém, uma questão ainda mais interessante. Se o orçamento atual está cerca de 23% acima daquilo que resultaria de uma simples correção inflacionária acumulada pelo IPCA desde 2013, então é legítimo perguntar o que esse crescimento adicional representa. Se o IPCA corrige, em regra, contratos e reajustes ordinários, o valor excedente deveria indicar alguma expansão real: mais serviços, novas frentes de atuação, incorporação de tecnologia, maior produtividade ou aumento efetivo da cobertura operacional. Em outras palavras: um orçamento maior só faz sentido, para além da inflação, se corresponder a uma Companhia substantivamente maior ou melhor.

A notícia sobre o PPA 2026-2029 sugere justamente essa tentativa de reposicionamento. Os novos programas destacados, como Resiliência e Gestão de Riscos Climáticos e Redução de Emissões, apontam para uma Comlurb que busca se apresentar como mais contemporânea, mais alinhada ao vocabulário ambiental e mais integrada a desafios urbanos que ultrapassam a limpeza convencional. Soma-se a isso a promessa de aumento de produtividade no manejo arbóreo, a expansão de ecopontos e a meta de melhorar a recuperação de resíduos na cidade. Tudo isso pode, em tese, justificar uma parte desse crescimento orçamentário. Pode haver, portanto, algo além de simples reforço financeiro para fazer mais do mesmo.

Mas essa hipótese precisa ser testada na prática. A comparação mais útil talvez seja entre a Comlurb de 2026 e a Comlurb olímpica de 2016. Uma década é tempo suficiente para que uma organização desse porte se transforme de maneira perceptível. Se o orçamento cresceu acima da inflação, então a radiografia institucional deveria mostrar mais do que um volume maior de recursos. Deveria mostrar uma companhia mais mecanizada, mais produtiva, mais sustentável, com contratos mais eficientes, maior capacidade tecnológica e ampliação real do escopo com qualidade operacional. Sem essa evidência, permanece a dúvida incômoda: o orçamento superior significa evolução institucional ou apenas mais água no feijão?

No fim, a discussão sobre a LOA de 2026 não deveria se esgotar no impacto do número. O essencial não é apenas constatar que a Comlurb custa mais, mas compreender melhor o que esse custo maior está comprando para a cidade. Em gestão pública, orçamento elevado não é virtude automática. É compromisso ampliado. E, no caso da Comlurb, a pergunta decisiva continua sendo a mesma: esse crescimento revela uma companhia efetivamente transformada ou apenas uma companhia mais cara? É essa resposta, mais do que o valor aprovado na lei, que dirá o verdadeiro sentido do orçamento de 2026.





sábado, 17 de janeiro de 2026

Cidade de Deus e a ilusão recorrente de que o equipamento, sozinho, resolverá o problema


Comlurb instala 130 novos contêineres de alta capacidade na Cidade de Deus 

Na manhã desta sexta-feira (16/01), a Cidade de Deus recebeu 130 novos contêineres de alta capacidade, instalados em todo o entorno da comunidade, reforçando a política pública de organização e racionalização da coleta e da disposição do lixo na cidade. 

A ação incluiu a distribuição e a recolocação dos equipamentos, além da atuação do Programa Calçada de Responsa, com serviços de varrição, limpeza de ralos, remoção de resíduos, capina e lavagem hidráulica. 

“A partir desta entrega, com certeza, a coleta e a questão do lixo público vão melhorar no local”, afirmou o presidente da Comlurb, Jorge Arraes. 

O grupo Chegando de Surpresa também marcou presença, levando música e conscientização ambiental para moradores e comerciantes.


Comentário:

A notícia da instalação de 130 novos contêineres de alta capacidade na Cidade de Deus recoloca em cena um tema antigo da limpeza urbana: a crença de que uma nova solução de acondicionamento, por si só, será capaz de ordenar a disposição dos resíduos e melhorar a coleta.

Torço para que funcione. Sempre se torce. Em cada nova onda de equipamentos, de formatos, de capacidades e de promessas operacionais, renasce a expectativa de que, desta vez, o problema será finalmente domado. Mas a experiência recomenda cautela.

A Cidade de Deus já passou por diferentes tentativas. Houve caçambas metálicas de 5 m³. Houve contêineres metálicos de 750 litros. Depois vieram os contêineres plásticos de 240 litros, que em tese pareciam mais adequados a uma operação mais leve e racional. Na prática, porém, muitos eram instalados em um dia e desapareciam ou eram destruídos praticamente no seguinte. Mais tarde, a localidade também esteve entre os pontos de teste da coleta automatizada lateral, que depois seria implantada. Também ali a realidade mostrou que a simples introdução de um equipamento, ainda que tecnicamente interessante, não bastava para alterar o comportamento do território.

Esse histórico importa porque ele revela uma verdade incômoda: o acondicionamento de resíduos não é apenas um problema de recipiente. É, antes de tudo, um problema de contexto operacional, de uso social do espaço urbano e de adequação entre tecnologia e realidade local.

Durante muito tempo, a discussão sobre contêineres metálicos foi influenciada por um argumento legítimo, mas parcial: o ruído. Em roteiros noturnos de coleta domiciliar, sobretudo em áreas residenciais verticalizadas, o contato de metal com metal produzia um incômodo real. A solução adotada foi banir o equipamento de forma ampla e substituí-lo pelos contêineres plásticos de 240 litros. Para a coleta domiciliar, a mudança fazia sentido. Para comunidades, nem tanto.

Em áreas onde a coleta é predominantemente diurna e onde há forte desgaste dos equipamentos, furto, depredação e uso inadequado, a lógica muda. O que era inadequado em um ambiente pode ser perfeitamente defensável em outro. O retorno de caixas metálicas maiores, mais resistentes, mostra justamente isso: em limpeza urbana, decisões genéricas quase sempre envelhecem mal.

Também a coleta automatizada lateral ensinou essa lição. O sistema tinha lógica, tecnologia e referências externas bem-sucedidas. Mas sua implantação em áreas que não atendiam às premissas operacionais acabou comprometendo os resultados. Equipamento moderno não corrige, por milagre, ruas estreitas, circulação difícil, descarte heterogêneo, mistura de resíduos domiciliares com entulho e ausência de disciplina no uso dos pontos de coleta. Quando a premissa é ignorada, a inovação deixa de ser solução e passa a ser apenas uma nova forma de frustração.

Por isso, a instalação dos novos contêineres na Cidade de Deus merece atenção, mas também alguma prudência analítica. Pode haver melhora? Sim, pode. Equipamentos mais robustos e com maior capacidade podem reduzir parte dos problemas imediatos, sobretudo quando substituem alternativas mais frágeis. Mas não convém atribuir ao contêiner uma potência que ele não tem.

A disposição irregular de lixo em determinadas áreas não decorre apenas da falta de recipiente. Ela pode resultar de um conjunto muito mais complexo de fatores: uso indevido do espaço público, descarte de resíduos não compatíveis com a coleta regular, degradação recorrente dos equipamentos, ausência de corresponsabilidade local, fragilidade de fiscalização e descontinuidade operacional. Nessas circunstâncias, trocar o recipiente é apenas mexer em uma parte visível do problema.

Talvez a maior dificuldade esteja justamente aí. A cada nova tentativa, a esperança é depositada no objeto: a caixa, o contêiner, a caçamba, o modelo mais moderno, a capacidade ampliada. Mas a realidade insiste em mostrar que a solução talvez esteja em algo além do simples acondicionamento.

O que seria esse “algo além”? Não tenho resposta fechada. Talvez seja uma combinação de desenho operacional mais realista, presença territorial contínua, fiscalização, educação prática, pactuação comunitária e soluções diferenciadas para fluxos de resíduos que escapam da rotina domiciliar. Talvez seja, sobretudo, a aceitação de que há territórios onde o problema do lixo não é apenas logístico, mas social e urbano.

Na limpeza urbana, isso não é pouco. Pelo contrário. Significa reconhecer que nem sempre a falha está na ausência de inovação. Às vezes, está na insistência em tratar como problema de equipamento aquilo que já se tornou um problema de ambiente.

Os novos contêineres podem ajudar. Seria bom que ajudassem. Mas a experiência da Cidade de Deus recomenda menos euforia e mais observação. Em alguns lugares, o desafio nunca foi apenas recolher o lixo. Foi sempre organizar as condições para que ele pudesse ser recolhido de forma estável.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Réveillon: a grandiosidade da operação e a fragilidade dos números


A operação de limpeza do réveillon no Rio de Janeiro sempre foi mais do que um serviço urbano. Ela se tornou, ao longo do tempo, uma demonstração pública de capacidade operacional, presença institucional e resposta rápida da Comlurb diante de um dos maiores eventos da cidade. Poucas ações expõem tanto a Companhia, poucas exigem tanto em prazo tão curto e poucas produzem uma percepção tão imediata da qualidade do trabalho executado.

Por isso, quando a operação funciona, o reconhecimento é justo. E a operação funciona. A cidade vê. Copacabana amanhece depois de uma noite gigantesca de celebração, e em poucas horas a praia, a pista e o entorno já apresentam outra aparência. Isso não é trivial. Há planejamento, mobilização de pessoal, equipamentos, coordenação, logística e, sobretudo, muito trabalho duro. Nada disso deve ser diminuído.

A divulgação do réveillon de 2026 informa a remoção de 1.250 toneladas de resíduos em toda a cidade, sendo 625 toneladas apenas em Copacabana. O número chama atenção não apenas por sua magnitude, mas também por representar um salto expressivo em relação ao ano anterior. Em 2025, o total divulgado foi de 980 toneladas, com 508 em Copacabana. Em um ano, portanto, houve um aumento superior a 25% no total e de mais de 23% no principal ponto da festa.

A pergunta inevitável é simples: o réveillon ficou mesmo 25% maior, mais intenso ou mais sujo de um ano para o outro?


Talvez tenha havido aumento de público, maior concentração em alguns pontos, mudanças operacionais ou variações nas condições da limpeza. Tudo isso é possível. Mas a escala do crescimento divulgado recomenda cautela. Especialmente quando se observa a série histórica e se percebe que, há cerca de dez anos, o total recolhido em todas as praias era da mesma ordem de grandeza que hoje se atribui apenas a Copacabana.

Questionar esses números não significa desmerecer a operação. Ao contrário. Significa levá-la a sério. Em gestão, existe uma máxima conhecida: o que não se mede não se gerencia. Mas existe um complemento menos repetido e igualmente importante: o que se mede errado pode induzir a um gerenciamento errado.

E aqui parece estar o ponto mais delicado.

A apuração da tonelagem do réveillon, historicamente, não decorre de pesagem efetiva dos resíduos recolhidos. O método utilizado é estimativo. Os caminhões não são pesados um a um antes da divulgação do resultado, porque isso consumiria tempo incompatível com a pressa de informar a imprensa e oferecer ao público uma resposta imediata sobre o sucesso da operação. Em seu lugar, utiliza-se uma tabela antiga que associa tipos de viatura e grau de enchimento a uma estimativa padrão de peso. Em outras palavras: contam-se viagens e volumes aparentes, e a partir daí projeta-se a tonelagem.

Como ordem de grandeza, o método serve. Como estimativa rápida, pode ser aceitável. O problema começa quando esse número passa a circular como se fosse uma medida precisa, apta a fundamentar comparações refinadas, inferências sobre público, avaliação de comportamento dos frequentadores ou até planejamento operacional futuro.

Não é.

Uma estimativa baseada em tabela antiga pode até ser suficiente para comunicação imediata, mas é insuficiente como indicador gerencial robusto. Ela não permite saber com precisão se houve de fato aumento real de resíduos, se houve redundância na remoção, se a logística de transporte alterou artificialmente o volume estimado ou se parte da variação decorre apenas do próprio método.

Esse ponto é relevante porque números frágeis podem fabricar demandas artificiais. Se a leitura dos resultados for tomada ao pé da letra, a tendência será planejar operações futuras a partir de uma pressão que talvez não exista na mesma medida. E, quando se organiza uma estrutura gigantesca com base em parâmetros distorcidos, abrem-se espaços para redundâncias, ineficiências e decisões superdimensionadas.

No caso do réveillon, isso parece ter pouca consequência prática imediata porque a operação já se consolidou menos como exercício de precisão técnica e mais como afirmação de vitalidade institucional. Em certo sentido, a lógica parece ser: façamos grandioso porque o evento é grandioso e porque a cidade exige essa demonstração de capacidade. Há, nisso, uma racionalidade própria. Talvez nem se usem os números para programar os serviços com o rigor que, em tese, eles sugerem. Talvez o número funcione mais como peça narrativa do que como ferramenta analítica.


Mas isso não elimina o problema. Apenas o desloca.

Uma instituição pública madura deveria ser capaz de executar uma grande operação e, ao mesmo tempo, medir melhor os seus resultados. Não para reduzir o brilho do evento, mas para compreender com mais clareza o que de fato ocorreu. Pesagem direta, revisão das tabelas de estimativa, critérios mais consistentes de consolidação e indicadores complementares poderiam melhorar bastante a qualidade dessa apuração. Porque tonelagem, sozinha, nunca diz tudo. E, quando mal estimada, pode dizer até menos do que parece.

O réveillon do Rio continuará sendo monumental, independentemente do número divulgado na manhã seguinte. A dedicação dos trabalhadores continuará merecendo respeito. A capacidade de devolver a cidade em poucas horas continuará sendo admirável. Nada disso está em discussão.

O que está em discussão é outra coisa: se os números que acompanham essa operação ajudam realmente a compreendê-la ou apenas a ornamentá-la.

Em serviços urbanos complexos, a grandiosidade da execução não dispensa a sobriedade da medição. Pelo contrário. Quanto maior o evento, maior deveria ser o cuidado com a qualidade do que se informa sobre ele.

Porque fazer grandioso é uma virtude operacional. Mas medir grandioso sem o devido rigor pode ser apenas uma forma de inflar aquilo que já é, por natureza, suficientemente grande.