A notícia da morte de Jair Otero Peixoto me levou de volta ao início da minha trajetória na Comlurb. A nota institucional registra uma carreira de mais de quarenta anos, com passagem pela chefia de gabinete da Presidência, dois mandatos na Diretoria de Limpeza Urbana e participação em publicações técnicas da Companhia. É o registro correto de uma vida profissional extensa. Mas o Jair que conheci não cabe inteiro numa nota de falecimento — como, aliás, quase ninguém cabe.
Jair era meu diretor quando entrei na Companhia. Foi ele quem primeiro me escolheu para ser subgerente e, poucos meses depois, aceitou que eu assumisse uma gerência. Eu tinha cerca de três meses de casa. Segundo minha lembrança, houve ainda um intervalo entre a responsabilidade efetiva e a designação formal. Na época, interpretei aquilo como um teste aplicado ao engenheiro novato. Talvez fosse mesmo. Na gestão pública, alguns testes não são anunciados. Apenas colocam o sujeito diante do problema e observam se ele volta no dia seguinte.
Eu vinha da engenharia industrial e ainda acreditava que bons indicadores protegiam um gestor. Minha gerência apresentava resultados que eu considerava satisfatórios. Mesmo assim, fui exonerado. Senti bastante. Não compreendia como um bom desempenho podia terminar numa substituição. Mais tarde, entendi que a vaga precisava acomodar alguém com sustentação política, retirado de outra posição. Eu era novo, sem base, sem padrinho e, portanto, a peça mais fácil de deslocar. Não relato isso como denúncia documental, mas como a leitura que construí a partir daquela experiência.
Naquele momento, eu ainda não conhecia a dimensão política da gestão. Imaginava que a organização reconheceria naturalmente o mérito técnico, como se os resultados falassem por conta própria. Não falam. Resultados precisam de interpretação, defesa e sustentação. A técnica produz respostas, mas não ocupa sozinha o espaço das decisões. Aprendi isso de maneira desconfortável — que costuma ser a forma mais duradoura de aprender.
Algum tempo depois, Jair me chamou para uma conversa e disse que me daria uma nova oportunidade. Fui enviado para uma gerência importante na Zona Norte, em Irajá. Foi ali que comecei a compreender melhor o território político da Companhia: as lideranças locais, as pressões, os interesses e a necessidade de construir relações sem entregar a gestão a elas. A primeira exoneração me ensinou que a política existia. A nova oportunidade me obrigou a aprender a trabalhar dentro dela.
Jair era um homem austero, inteligente e conhecedor da limpeza urbana. Tinha aparência e formação técnicas, mas possuía também um acentuado instinto político. Não era apenas um engenheiro que, por circunstância, convivia com a política. Sabia movimentar-se nela. Algumas de suas decisões me pareceram, já naquela época, excessivamente orientadas por conveniências e alianças. Outras revelavam leitura institucional e capacidade de preservar espaço para a operação. As duas dimensões conviviam nele, nem sempre de forma harmoniosa.
Hoje eu usaria para descrevê-lo um conceito que desenvolvi mais tarde: o tecnolítico. O tecnolítico tenta reunir a competência técnica e a capacidade política. A combinação é necessária, mas perigosa. Quando a técnica domina sozinha, o gestor pode tornar-se correto e impotente. Quando a política passa a comandar tudo, a competência vira apenas cenário. O equilíbrio entre as duas não é uma fórmula. É uma tensão permanente.
Jair participou da minha formação justamente porque encarnava essa tensão. Não foi um mestre no sentido romântico. Não me sentou diante de uma mesa para explicar como funcionavam o poder e a administração pública. Fez algo mais próprio da vida real: tomou decisões que me afetaram, algumas favoráveis, outras duras, e me obrigou a compreender um mundo para o qual a universidade não havia me preparado.
Não escrevo estas linhas para absolvê-lo nem para condená-lo. Também não pretendo substituir as palavras formais de reconhecimento por uma versão amarga do passado. Quero apenas registrar o homem como o conheci: sério, técnico, político, contraditório e importante na minha trajetória. As pessoas que realmente participam de nossa formação raramente são simples. Quando simplificamos demais alguém, talvez estejamos apenas tentando evitar o trabalho de compreender o que aprendemos com ele.
A morte produz um silêncio estranho nas instituições. Uma carreira de décadas, com decisões, conflitos, alianças, acertos e equívocos, transforma-se rapidamente em algumas linhas corretas e palavras respeitosas. Depois, a rotina continua. A organização absorve a ausência e segue funcionando, como deve ser. Mas alguma coisa permanece naqueles que conviveram com a pessoa.
Jair Otero me ensinou, sem pretender ensinar, que a técnica não governa sozinha e que a política, quando não encontra limites, cobra seu preço da instituição. Entre uma coisa e outra, o gestor precisa construir sua própria medida.
Foi uma das primeiras lições que recebi na Comlurb. E certamente uma das que mais tempo levei para compreender.

Nenhum comentário:
Postar um comentário