Em 2024, a Diretoria de Compliance foi a primeira estrutura da Comlurb a reunir sua equipe para discutir abertamente o uso da inteligência artificial no trabalho. Naquele momento, a tecnologia ainda carregava certo ar de ameaça, como se toda conversa sobre IA começasse necessariamente pelo medo da substituição dos empregos. Preferimos olhar por outro ângulo: havia ali uma oportunidade concreta de melhorar procedimentos, organizar informações, revisar documentos e dar mais agilidade ao Programa de Integridade e Transparência.
Na DCO, procuramos transformar a curiosidade em experimentação prática. Reunimos a equipe para discutir oportunidades e riscos, produzimos uma edição do Panorama de Integridade e Transparência dedicada ao tema e elaboramos um treinamento sobre construção de prompts, acompanhado de um e-book com orientações para formular perguntas mais claras e obter respostas mais úteis. Também experimentamos o “Seu Conforme”, um assistente digital voltado a dúvidas sobre normas, procedimentos e boas práticas. A intenção nunca foi substituir o conhecimento dos empregados, mas facilitar o acesso à informação e reduzir o espaço para improvisos. Foram ainda estudadas aplicações na triagem inicial de denúncias, na organização de respostas ao 1746, na preparação de informações para órgãos de controle e na revisão de textos normativos. Algumas eram experiências; outras, possibilidades. O mais importante foi romper a paralisia produzida pelo medo e mostrar que aprender a usar a ferramenta também era uma forma de organizar melhor o pensamento.
Agora, a publicação do Guia Orientativo de Uso Ético da Inteligência Artificial no Serviço Público Municipal, instituído pela Resolução SMIT nº 26, confirma que o uso da ferramenta se alastrou e deixou de ser curiosidade de poucos. A IA não é mais uma hipótese de futuro. Já está sentada à mesa.
O guia é bem-vindo porque não parte da proibição. Ao contrário, afirma expressamente que pretende incentivar o uso ético e responsável da IA como caminho para inovar com segurança, proteger o cidadão e fortalecer a confiança na administração pública. Essa escolha conceitual é importante. Toda tecnologia nova provoca dois impulsos igualmente perigosos: a adesão deslumbrada e a rejeição assustada. O documento procura evitar os dois ao reconhecer usos que geram valor público — resumir documentos, organizar grandes volumes de informação, simplificar textos técnicos, apoiar respostas aos cidadãos e reduzir retrabalho — sem esquecer que eficiência sem integridade pode apenas produzir erros em maior velocidade.
O ponto central está na responsabilidade humana. O guia repete uma ideia que deveria acompanhar toda ferramenta de gestão: a IA apoia; o agente público decide. Conteúdos precisam ser revisados, informações jurídicas e estatísticas devem ser verificadas em fontes oficiais, dados pessoais não podem ser despejados em plataformas externas não autorizadas e decisões que afetem cidadãos exigem transparência, possibilidade de explicação e revisão humana. O documento também alerta para alucinações, vieses algorítmicos, exposição de dados e manipulação por instruções maliciosas. Nada disso deve servir para demonizar a IA. Serve para lembrar que uma ferramenta poderosa amplia tanto a capacidade de fazer bem quanto a capacidade de errar. A responsabilidade final continua sendo de quem assina, decide e publica.
No fim, o uso íntegro da inteligência artificial não depende apenas de manuais, mas de cultura, capacitação e pensamento crítico. O guia oferece uma boa moldura para que a inovação não caminhe separada da proteção de dados, da transparência e do interesse público. Mas será preciso cuidado para que a prudência não vire estigma e para que a governança não se transforme em barreira burocrática destinada apenas a desencorajar quem tenta inovar. A IA não deve substituir a experiência, o conhecimento técnico ou o julgamento humano. Deve ampliá-los. Em 2024 já era possível perceber essa oportunidade. Em 2026, ela ficou institucionalmente reconhecida. A inteligência artificial é o futuro — ou melhor, o futuro chegou antes de terminarmos a frase.

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