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sexta-feira, 29 de maio de 2026

É claro que a Comlurb conhece o FIP.Rio.


A pergunta do cartaz — “Você conhece o FIP.Rio?” — talvez faça sentido para quem chega agora ao tema da integridade. Não é o caso da Companhia. Desde o primeiro dia de 2021, quando assumi a Diretoria de Compliance, estivemos totalmente alinhados com a política municipal de integridade, acompanhando a evolução institucional da pasta ao longo de suas diferentes configurações, da SEGOVI à SMTDI e depois à SMIT. Por isso, quando vejo a peça de 2026 apresentar o programa quase como novidade, a sensação que me fica não é de informação inaugural, mas de perda de memória institucional.

Não se trata de negar o mérito do FIP.Rio.
O programa é correto em seus objetivos e o e-mail interno o resume bem: fortalecer a cultura de integridade, prevenir e corrigir violações de conduta, estimular canais de denúncia, zelar pelo Código de Integridade do Agente Público e reforçar a governança pública com foco em ética, transparência e responsabilidade. Tudo isso está em linha com o papel que a Prefeitura atribuiu ao programa. O ponto, porém, não está no conteúdo formal da mensagem, mas no lugar a partir do qual ela é emitida. Quando uma instituição que já esteve na linha de frente passa a comunicar o tema como se estivesse apenas o descobrindo, alguma coisa se perdeu no caminho.

Ao longo de 2021 a 2024, a DCO não ficou olhando esse movimento de fora. Participou ativamente dele. O Percolado registrou esse percurso. Já em 2021 eu tratava explicitamente da necessidade de alinhar o programa interno da Comlurb às diretrizes de integridade da Prefeitura, com o entendimento de que cada avanço no plano municipal exigiria avanço correspondente dentro da Companhia. Não era adesão protocolar. Era trabalho de tradução institucional, de customização, de implantação concreta. Esse esforço nos colocou, em muitos momentos, em posição de destaque e benchmark dentro da própria Prefeitura.

Essa posição de destaque não desapareceu porque o tema perdeu relevância em abstrato. Perdeu-se porque deixou de haver gestão efetiva sobre ele. Os panoramas de 2023 ainda mostravam uma Diretoria de Compliance com agenda, método, diretrizes, produção técnica e ações continuadas de capacitação e fortalecimento da cultura de integridade. Havia direção, havia intencionalidade e havia investimento gerencial. Quando uma estrutura assim é extinta por uma nova gestão que não acredita ou não compreende o significado de compliance, o que sobra não é exatamente continuidade. O que sobra é inércia. E inércia, embora mantenha algum movimento, não substitui comando.

É por isso que olho para essa nova comunicação com ambivalência. Ela mostra que o tema ainda respira, o que é positivo. Mas também evidencia que ele respira hoje mais pelo valor profissional dos antigos quadros da DCO do que por prioridade estratégica da administração atual. O cartaz continua circulando, o rito continua existindo, o vocabulário da integridade ainda comparece. Mas comparece sem a mesma densidade de antes, sem a mesma coerência e sem o mesmo protagonismo institucional. Quando isso acontece, a integridade deixa de ser eixo de gestão e começa a ser tratada como acessório reputacional.

No fim, a pergunta certa não é se a Comlurb conhece o FIP.Rio. A pergunta certa é outra: por que uma Companhia que já conheceu, participou, liderou e ajudou a internalizar essa agenda passou a se comportar como mera destinatária tardia de algo que antes ajudava a construir? Essa é a questão incômoda. Porque programas de integridade não vivem de cartazes, slogans ou memória de bons tempos. Vivem de direção, método e prioridade. Quando esses elementos se perdem, o tema não morre de imediato. Continua andando por um tempo. Mas já não sabe exatamente para onde.

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