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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cristo laranja: o legado de 2017



Mais do que a notícia deste ano, o que realmente importa é o legado que surgiu em 2017. Foi ali que nasceu uma imagem poderosa: o maior símbolo do Rio iluminado na cor do uniforme de quem limpa a cidade. O gesto parecia simples, mas não era. Ao levar o laranja dos garis ao Cristo Redentor, a cidade começava a transformar um uniforme de trabalho em signo de dignidade pública, reconhecimento e pertencimento. O que hoje parece natural teve, na origem, a força de uma pequena ruptura simbólica.

Segundo o registro do próprio Percolado, em 16 de maio de 2017 o Cristo seria iluminado de laranja no Dia do Gari, em meio a uma programação mais ampla de homenagens à categoria. Pela lembrança do autor, essa primeira iniciativa encontrou resistência, inclusive pelo receio de reações negativas à ideia de deixar o monumento na cor laranja. Se assim foi, o episódio revela algo mais profundo: havia ali não apenas cautela política, mas uma dificuldade de compreender a potência simbólica de homenagear publicamente os garis. Justamente por isso, o fato de a iluminação ter acontecido marcou tanto. Não era apenas um evento; era a afirmação de que o trabalho dos garis merecia ocupar o centro da cena.


O legado de 2017 está em ter transformado uma homenagem pontual em memória institucional. A cor laranja, que muitas vezes foi associada apenas à dureza do trabalho de rua, ganhou outro estatuto: passou a significar orgulho, visibilidade e valorização. Não é pouco. Cidades costumam exibir seus cartões-postais para turistas, governantes e grandes celebrações. Quando o Cristo se acende de laranja para os garis, ele faz outra coisa: devolve centralidade a uma categoria que normalmente aparece apenas quando falta. É como se a cidade, por uma noite, admitisse que sua beleza também depende de quem a varre, lava, coleta e sustenta diariamente.

Talvez seja essa a melhor forma de entender o que aconteceu depois. A iluminação voltou, repetiu-se e virou tradição porque 2017 deixou uma marca duradoura. O evento de 2026 apenas confirma essa continuidade ao registrar nova homenagem no Cristo Redentor pelo Dia do Gari e pelos 51 anos da Comlurb. Mas o mais importante já havia sido conquistado antes: o momento em que uma iniciativa que poderia ser vista com desconfiança atravessou a hesitação, aconteceu assim mesmo e passou a integrar o repertório simbólico da Companhia. Certas tradições nascem assim: primeiro como ousadia, depois como costume, e por fim como legado.

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