A notícia sobre os resultados recentes da Fiscalização tem um lado claramente positivo. Reunir 140 profissionais, trabalhar com metas, ampliar o cadastro de grandes geradores, avançar na segregação de resíduos e digitalizar o credenciamento aponta para uma fiscalização mais organizada e voltada para problemas que têm impacto real sobre o sistema de limpeza urbana. Grandes geradores e empresas credenciadas precisam mesmo de acompanhamento permanente: quando funcionam fora das regras, parte do custo privado acaba escorrendo para a operação pública. Mas a notícia também me fez pensar no que aconteceu com outra dimensão da fiscalização: o Lixo Zero, como política de mudança de comportamento do cidadão.
Quando o programa foi implantado, em 2013, a multa para quem jogava lixo na rua virou assunto de televisão, jornal e conversa de esquina. Um ano depois, pesquisa divulgada pela imprensa apontava aprovação de nove em cada dez cariocas, e havia relatos de mudança de comportamento nas ruas. Durante anos, a fiscalização continuou aparecendo com destaque no Carnaval; no próprio Percolado acompanhei a queda progressiva da relação entre multas aplicadas e resíduos removidos até 2024. Em 2025, as equipes do Lixo Zero ainda foram anunciadas oficialmente nos blocos, com 98 agentes e multas previstas tanto para descarte irregular quanto para urina em via pública, mas, nas comunicações oficiais que localizei, não encontrei a mesma divulgação consolidada dos resultados da fiscalização ao fim da operação. O programa não desapareceu formalmente; o que parece ter desaparecido foi sua centralidade como política pública capaz de constranger o mau comportamento e manter o tema na agenda da cidade.
Tenho alguma relação de autoria profissional com essa história e, por isso, talvez perceba mais facilmente o contraste. O Lixo Zero deu muito trabalho para ser criado, testado, ajustado e legitimado. Mas isso é apenas a primeira metade da gestão. A segunda, geralmente menos vistosa, é manter prioridade, presença, comunicação, indicadores e capacidade de adaptação quando já passou a novidade e mudaram os dirigentes. A fiscalização atual pode estar encontrando um caminho importante ao concentrar energia nos grandes geradores. O erro seria imaginar que isso substitui a dimensão comportamental que um dia esteve no centro do programa. Criar uma política exige impulso; mantê-la viva exige instituição.

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