A nova peça do Programa de Integridade da Comlurb contra o assédio político-eleitoral merece registro porque simboliza uma mudança institucional relevante. Em uma companhia que já conviveu com reuniões, cafés da manhã, feijoadas supostamente voluntárias e outros rituais de mobilização política em ambiente de trabalho, chegar a uma comunicação oficial afirmando que opiniões políticas pertencem à esfera pessoal do empregado e que não se admite pressão hierárquica ou constrangimento eleitoral é, sim, uma evolução importante.
A notícia é clara ao afirmar que não são compatíveis com o ambiente de trabalho atitudes como pressionar colegas a apoiar candidatos, fazer comentários ofensivos sobre posicionamentos políticos, usar a posição hierárquica para influenciar escolhas pessoais e criar situações de intimidação. Essa formulação está em linha com o entendimento hoje consolidado na Justiça do Trabalho e no Ministério Público do Trabalho: assédio eleitoral é prática abusiva que visa influenciar ou manipular voto, apoio, orientação ou manifestação política de trabalhadores, violando a liberdade de escolha e a dignidade no trabalho.
O contraste com o passado ajuda a dimensionar essa mudança. Em 2018, o episódio da reunião na quadra da Estácio de Sá com funcionários da Comlurb, para pedido de votos em favor de candidaturas ligadas ao então prefeito, ganhou ampla repercussão pública, gerou questionamentos políticos e foi citado inclusive em denúncia político-administrativa na Câmara do Rio e em cobertura da Agência Brasil. Não se trata aqui de revisitar o escândalo por gosto retrospectivo, mas de notar a distância entre aquele ambiente e o texto que hoje a própria Companhia divulga oficialmente.
Essa mudança de postura é importante também porque o assédio político-eleitoral costuma se esconder sob formas aparentemente banais. Nem sempre ele aparece como ordem explícita. Muitas vezes vem como convite insistente, reunião “espontânea”, sugestão de lealdade, comentário intimidatório ou uso velado da hierarquia para induzir comportamento. As cartilhas do MPT e dos tribunais trabalhistas insistem exatamente nisso: o problema está no constrangimento e na influência indevida sobre a liberdade política do trabalhador, ainda que o gesto venha disfarçado de cordialidade, integração ou adesão informal.
Mas, como em outras formas de assédio, campanha e cartaz não bastam por si mesmos. Eles têm valor pedagógico, ajudam a nomear a conduta abusiva e oferecem canais de denúncia, o que já é bastante. Ainda assim, a transformação cultural só se consolida quando a organização demonstra que a regra vale de verdade, inclusive para quem ocupa posições de mando. O assédio político-eleitoral não se combate apenas com comunicação institucional; combate-se com prevenção, acolhimento, apuração séria e responsabilização de quem instrumentaliza o ambiente de trabalho para fins eleitorais.
No fim, o cartaz da Comlurb vale menos pela obviedade do que diz e mais pelo que revela sobre a trajetória da própria Companhia. Sair de um cenário em que a fronteira entre trabalho e mobilização política parecia perigosamente porosa para outro em que se afirma, de forma explícita, o direito do empregado à sua liberdade política, é um avanço institucional real. O desafio, agora, é fazer com que essa boa formulação não seja apenas uma peça de integridade, mas um critério efetivo de convivência e comando dentro da empresa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário