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quarta-feira, 18 de março de 2026

Quando alguém da casa chega à presidência



A nomeação de Renato Rodrigues para a presidência da Comlurb tem um significado que vai além da troca de comando. Quando alguém que percorreu a estrutura da Companhia por dentro, ao longo de muitos anos, chega ao posto máximo, não se trata apenas de uma promoção pessoal. Trata-se também de uma aposta em alguém que conhece a casa não por relatórios, mas pela experiência acumulada no seu funcionamento real.

Esse tipo de escolha tem peso. A Comlurb é uma organização complexa, intensiva em operação, exposta diariamente ao olhar da cidade e pressionada por demandas que misturam rotina, emergência, política, logística, conflito urbano e necessidade de resposta rápida. Não é uma companhia que se compreenda de fora com facilidade. Conhecê-la exige tempo, convivência e trânsito pelos seus diferentes níveis de decisão.

Renato chega à presidência com essa vantagem. Sua trajetória de 27 anos na Companhia, passando por funções diversas até alcançar a direção, sugere familiaridade concreta com a engrenagem institucional. Não é pouco. Em estruturas públicas operacionais, a distância entre o organograma formal e o funcionamento efetivo costuma ser grande. Quem conhece apenas o desenho oficial da instituição conhece pouco. Quem viveu a organização em suas camadas sucessivas tende a perceber melhor os limites, os atalhos, as resistências e também as potencialidades da casa.

Tenho com Renato uma relação antiga, sempre respeitosa e gentil. Quando estive na presidência da Comlurb, seu nome me pareceu uma escolha acertada para ser o primeiro diretor da então recém-criada Diretoria de Serviços Urbanos. Naquela época, confiei a ele uma missão particularmente difícil: coordenar toda a limpeza do Carnaval, reunindo sob uma mesma condução o Sambódromo, os blocos e tudo o que orbitava aquela que talvez seja a operação mais sensível da Companhia. Não era tarefa pequena. Exigia articulação, serenidade, firmeza e capacidade de lidar simultaneamente com a técnica e com a exposição política inevitável em uma operação dessa escala.

Renato sempre me pareceu ter justamente essa combinação rara. Uma postura séria, serena e firme quando necessário. E, mais do que isso, uma compreensão intuitiva daquilo que chamo de dimensão “tecnolítica” da gestão. Em certas posições, não basta ser tecnicamente correto nem apenas politicamente hábil. É preciso saber operar nessa zona intermediária em que a decisão técnica precisa sobreviver ao ambiente político, e em que o político, para ser sustentável, precisa respeitar minimamente a lógica operacional. Há gestores que se perdem por excesso de técnica. Outros, por excesso de política. Os melhores conseguem perceber que uma coisa não exclui a outra.

Talvez por isso sua escolha faça sentido neste momento. Tudo indica que ele chega ao cargo com a confiança do novo prefeito, e isso, em funções desse nível, não é detalhe secundário. A relação de confiança com o centro político do governo é um ativo importante para qualquer presidente de empresa pública. Sem ela, a autoridade formal pode existir, mas a capacidade real de condução fica comprometida.

Ainda assim, chegar à presidência altera profundamente a perspectiva. Há coisas que só se enxergam a partir dessa posição. A velha alegoria da caverna, de Platão, cabe aqui como imagem útil. Quem está dentro de uma estrutura pode ver muito, mas não vê tudo. Ao ocupar a presidência, o gestor sai parcialmente da caverna operacional e passa a perceber dimensões mais amplas da Companhia: as disputas silenciosas, os interesses concorrentes, as omissões estratégicas, os apoios condicionados, as lealdades aparentes. A presidência revela ângulos que antes permaneciam ocultos.

E é justamente aí que começa a parte mais delicada do desafio.

Conduzir uma organização pública não é apenas gerir processos, contratos, equipes e resultados. É também interpretar intenções. Toda presidência convive com adesões sinceras e adesões instrumentais. Sorrisos nem sempre significam apoio. E, em algumas instituições, há um componente adicional: a dificuldade de aceitar que alguém “da casa” ocupe o topo da hierarquia. Isso parece paradoxal, mas não é incomum. Por vezes, a organização valoriza o discurso da experiência interna, mas resiste à autoridade efetiva do comlurbiano quando ele assume o comando.

Esse tipo de fogo amigo é uma das formas mais desgastantes de desgaste institucional, porque não se apresenta como enfrentamento aberto. Ele opera por meio de ambiguidades, adesões incompletas, pequenos esvaziamentos, elogios interessados e cooperação seletiva. Para quem assume a presidência vindo dos quadros internos, o desafio é duplo: governar a companhia e, ao mesmo tempo, medir corretamente as intenções daqueles que cercam o poder.

Mas talvez Renato esteja preparado para isso. Justamente por conhecer a Companhia por dentro, talvez tenha melhores condições de distinguir apoio real de conveniência circunstancial. Esse conhecimento, que às vezes é visto apenas como familiaridade operacional, pode ser também uma defesa política.

Sua nomeação permite ainda uma reflexão mais ampla sobre liderança institucional. Em empresas públicas, costuma-se discutir muito a origem do dirigente — se vem de fora, se vem de dentro, se é técnico, se é político. A discussão é legítima, mas às vezes superficial. A questão mais importante talvez não seja a origem, mas a capacidade de compreender a natureza específica da organização que se dirige. Há instituições em que um olhar externo renova. Há outras em que o desconhecimento cobra um preço alto demais. Na Comlurb, onde a operação pesa muito e a cultura organizacional é densa, alguém da casa pode reunir uma vantagem importante, desde que não se deixe aprisionar pelas conveniências da própria casa.

Esse talvez seja o ponto decisivo: vir de dentro ajuda, mas não basta. Conhecer a Companhia é uma condição favorável; não é garantia. A presidência exigirá dele não apenas memória institucional e experiência operacional, mas também capacidade de ver o que antes não precisava ver, decidir o que antes apenas executava e suportar o tipo de solidão que acompanha todo posto de comando.

A notícia celebra uma trajetória. E faz bem. Há mérito nessa caminhada. Mas a presidência não consagra apenas o passado; ela inaugura outro tipo de prova. A partir de agora, Renato será chamado menos a demonstrar que conhece a Comlurb e mais a mostrar o que pretende fazer com esse conhecimento.

Torço para que vá bem. E acredito que tem atributos para isso.

Mas, como em toda presidência, os desafios mais difíceis não serão necessariamente os visíveis.

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