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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Biometano: quando a inovação finalmente encontra o seu tempo


Primeira frota movida a biometano A Comlurb apresentou, nesta sexta (30/01), a primeira frota movida a biometano! 

Serão 100 novos veículos que vão fazer os serviços de coleta domiciliar, remoção de lixo público e apoio às atividades de manutenção, operação e limpeza dos ecopontos em bairros nas Zonas Oeste e Sudoeste. Os modelos apresentam desempenho equivalente aos movidos a diesel, mas com redução em até 90% em emissões de gases de efeito estufa. Os ganhos ambientais incluem ainda menor nível de ruído, contribuindo para operações urbanas mais silenciosas e com menor impacto sonoro em áreas residenciais e turísticas. 

O biometano é um combustível 100% sustentável e a adoção da tecnologia limpa marca a tendência da Comlurb de descarbonização da frota em operação na cidade, alinhando inovação operacional à responsabilidade socioambiental. A frota será abastecida com o combustível renovável produzido a partir do lixo gerado no próprio município no Centro de Tratamento de Resíduos (CTR-Rio), em Seropédica. 

Compromisso com a sustentabilidade, inovação e melhoria da qualidade de vida da população carioca



Comentário:

A notícia da entrada em operação da primeira frota da Comlurb movida a biometano merece ser registrada não apenas pelo seu valor ambiental imediato, mas também pelo que ela revela sobre o tempo da inovação. Em 30 de janeiro de 2026, a Companhia apresentou 100 novos veículos destinados à coleta domiciliar, à remoção de lixo público e ao apoio à manutenção e limpeza dos ecopontos, com abastecimento por combustível renovável produzido a partir dos próprios resíduos do município. A proposta combina descarbonização da frota, redução de ruído e economia circular em uma escala operacional relevante.

Mas o aspecto mais interessante dessa notícia talvez não esteja apenas no presente. Está no passado que a tornou possível.

Em organizações públicas, sobretudo nas áreas operacionais, existe uma tendência recorrente ao imediatismo. Valoriza-se aquilo que aparece rapidamente e subestima-se o que exige maturação técnica, continuidade institucional e persistência. A inovação, porém, raramente obedece ao calendário da ansiedade. Muitas vezes, uma boa ideia precisa atravessar décadas, sobreviver a mudanças de gestão, limitações orçamentárias, barreiras tecnológicas e até ao ceticismo interno antes de se converter em realidade. Foi assim, ao que tudo indica, com o aproveitamento energético dos resíduos na Comlurb.

Há registros de que a Companhia, ainda nos anos 1980, já buscava alternativas energéticas associadas ao lixo urbano, em meio ao contexto de crise de energia e às primeiras experiências de recuperação de gás no Caju. Mais tarde, a agenda evoluiu para estudos de tratamento mais sofisticado da fração orgânica, biodigestão anaeróbia e aproveitamento do biogás com maior valor energético. Em 2010, a cooperação formal entre Comlurb e Coppe/UFRJ reforçou esse caminho ao avaliar a viabilidade técnica e ambiental de unidades de tratamento no Caju, com foco em soluções mais avançadas para o destino final dos resíduos.

Esse percurso ajuda a compreender por que a frota a biometano de 2026 não deve ser vista como um gesto isolado de modernização, mas como a colheita tardia de um processo longo. Entre a concepção e a implementação houve dificuldades conhecidas: custo de purificação do gás, necessidade de infraestrutura específica de abastecimento, adaptação tecnológica dos motores e maturação do próprio mercado brasileiro de biocombustíveis. O país, aliás, ainda explora parcela limitada do potencial energético do biogás gerado em aterros e unidades de resíduos, o que mostra que experiências como essa continuam sendo mais exceção do que regra.

Por isso, a notícia deve servir também como homenagem. Homenagem aos engenheiros, operadores, pesquisadores, dirigentes e trabalhadores que participaram das fases menos visíveis desse processo — justamente aquelas em que quase nada parecia pronto e tudo ainda precisava ser demonstrado. A inovação madura costuma ser injusta com seus pioneiros: quando finalmente chega às ruas, tende a apagar o esforço de quem a sustentou quando ela ainda era apenas hipótese, relatório técnico, planta piloto ou experimento de garagem.

Em serviços públicos, esse reconhecimento importa. Instituições aprendem mal quando tratam cada realização como se tivesse começado no mandato atual, no contrato atual ou na gestão atual. A memória técnica não é ornamento; ela é parte da capacidade de inovar. Esquecer o caminho percorrido empobrece o presente e dificulta o futuro.

A frota a biometano tem mérito por seus resultados ambientais e operacionais. Caminhões com desempenho equivalente ao diesel, menor emissão de gases de efeito estufa e menor impacto sonoro representam avanço concreto para uma cidade complexa como o Rio de Janeiro. Mas há um mérito adicional, menos visível: ela nos lembra que boas ideias não devem ser descartadas apenas porque ainda não encontraram as condições de viabilidade.

Em inovação, convém desconfiar da pressa e respeitar a maturação. Nem toda ideia adiada está errada. Algumas apenas chegaram antes do seu tempo.

E quando esse tempo finalmente chega, o mínimo que se deve fazer é celebrar o resultado sem esquecer a travessia.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Cidade de Deus e a ilusão recorrente de que o equipamento, sozinho, resolverá o problema


Comlurb instala 130 novos contêineres de alta capacidade na Cidade de Deus 

Na manhã desta sexta-feira (16/01), a Cidade de Deus recebeu 130 novos contêineres de alta capacidade, instalados em todo o entorno da comunidade, reforçando a política pública de organização e racionalização da coleta e da disposição do lixo na cidade. 

A ação incluiu a distribuição e a recolocação dos equipamentos, além da atuação do Programa Calçada de Responsa, com serviços de varrição, limpeza de ralos, remoção de resíduos, capina e lavagem hidráulica. 

“A partir desta entrega, com certeza, a coleta e a questão do lixo público vão melhorar no local”, afirmou o presidente da Comlurb, Jorge Arraes. 

O grupo Chegando de Surpresa também marcou presença, levando música e conscientização ambiental para moradores e comerciantes.


Comentário:

A notícia da instalação de 130 novos contêineres de alta capacidade na Cidade de Deus recoloca em cena um tema antigo da limpeza urbana: a crença de que uma nova solução de acondicionamento, por si só, será capaz de ordenar a disposição dos resíduos e melhorar a coleta.

Torço para que funcione. Sempre se torce. Em cada nova onda de equipamentos, de formatos, de capacidades e de promessas operacionais, renasce a expectativa de que, desta vez, o problema será finalmente domado. Mas a experiência recomenda cautela.

A Cidade de Deus já passou por diferentes tentativas. Houve caçambas metálicas de 5 m³. Houve contêineres metálicos de 750 litros. Depois vieram os contêineres plásticos de 240 litros, que em tese pareciam mais adequados a uma operação mais leve e racional. Na prática, porém, muitos eram instalados em um dia e desapareciam ou eram destruídos praticamente no seguinte. Mais tarde, a localidade também esteve entre os pontos de teste da coleta automatizada lateral, que depois seria implantada. Também ali a realidade mostrou que a simples introdução de um equipamento, ainda que tecnicamente interessante, não bastava para alterar o comportamento do território.

Esse histórico importa porque ele revela uma verdade incômoda: o acondicionamento de resíduos não é apenas um problema de recipiente. É, antes de tudo, um problema de contexto operacional, de uso social do espaço urbano e de adequação entre tecnologia e realidade local.

Durante muito tempo, a discussão sobre contêineres metálicos foi influenciada por um argumento legítimo, mas parcial: o ruído. Em roteiros noturnos de coleta domiciliar, sobretudo em áreas residenciais verticalizadas, o contato de metal com metal produzia um incômodo real. A solução adotada foi banir o equipamento de forma ampla e substituí-lo pelos contêineres plásticos de 240 litros. Para a coleta domiciliar, a mudança fazia sentido. Para comunidades, nem tanto.

Em áreas onde a coleta é predominantemente diurna e onde há forte desgaste dos equipamentos, furto, depredação e uso inadequado, a lógica muda. O que era inadequado em um ambiente pode ser perfeitamente defensável em outro. O retorno de caixas metálicas maiores, mais resistentes, mostra justamente isso: em limpeza urbana, decisões genéricas quase sempre envelhecem mal.

Também a coleta automatizada lateral ensinou essa lição. O sistema tinha lógica, tecnologia e referências externas bem-sucedidas. Mas sua implantação em áreas que não atendiam às premissas operacionais acabou comprometendo os resultados. Equipamento moderno não corrige, por milagre, ruas estreitas, circulação difícil, descarte heterogêneo, mistura de resíduos domiciliares com entulho e ausência de disciplina no uso dos pontos de coleta. Quando a premissa é ignorada, a inovação deixa de ser solução e passa a ser apenas uma nova forma de frustração.

Por isso, a instalação dos novos contêineres na Cidade de Deus merece atenção, mas também alguma prudência analítica. Pode haver melhora? Sim, pode. Equipamentos mais robustos e com maior capacidade podem reduzir parte dos problemas imediatos, sobretudo quando substituem alternativas mais frágeis. Mas não convém atribuir ao contêiner uma potência que ele não tem.

A disposição irregular de lixo em determinadas áreas não decorre apenas da falta de recipiente. Ela pode resultar de um conjunto muito mais complexo de fatores: uso indevido do espaço público, descarte de resíduos não compatíveis com a coleta regular, degradação recorrente dos equipamentos, ausência de corresponsabilidade local, fragilidade de fiscalização e descontinuidade operacional. Nessas circunstâncias, trocar o recipiente é apenas mexer em uma parte visível do problema.

Talvez a maior dificuldade esteja justamente aí. A cada nova tentativa, a esperança é depositada no objeto: a caixa, o contêiner, a caçamba, o modelo mais moderno, a capacidade ampliada. Mas a realidade insiste em mostrar que a solução talvez esteja em algo além do simples acondicionamento.

O que seria esse “algo além”? Não tenho resposta fechada. Talvez seja uma combinação de desenho operacional mais realista, presença territorial contínua, fiscalização, educação prática, pactuação comunitária e soluções diferenciadas para fluxos de resíduos que escapam da rotina domiciliar. Talvez seja, sobretudo, a aceitação de que há territórios onde o problema do lixo não é apenas logístico, mas social e urbano.

Na limpeza urbana, isso não é pouco. Pelo contrário. Significa reconhecer que nem sempre a falha está na ausência de inovação. Às vezes, está na insistência em tratar como problema de equipamento aquilo que já se tornou um problema de ambiente.

Os novos contêineres podem ajudar. Seria bom que ajudassem. Mas a experiência da Cidade de Deus recomenda menos euforia e mais observação. Em alguns lugares, o desafio nunca foi apenas recolher o lixo. Foi sempre organizar as condições para que ele pudesse ser recolhido de forma estável.